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Alguns apontamentos sobre esta Nação : Colombo chega lá por volta de (1492) era então uma Nação de índios os Taino, os quais pareciam brilhar tal era a quantidade de oiro que exibiam.
Colombo e os seus chacinaram esse povo apropriaram-se das minas e mudaram-lhe o nome para Hispaniola. Estabeleceu lá um exército de ocupação e a “santa igreja” baptizou à força os índios escravizados. Esta ocupação durou até 1697. Nesse período foram dizimados a + quase totalidade dos índios. Para continuar a extracção das riquezas voltaram-se para Africa e importaram escravos, (para os senhores das classes dominantes, os povos não passam de mercadorias) foi assim garantida a mão-de-obra necessária à exploração mineira.
Nesse mesmo ano de 1697 a Espanha conclui com a França que aspirava á expansão colonial, a partilha da ilha: a Espanha ficou com a actual São Domingos Republica Dominicana e a França com o actual Haiti. Com as quantidades de oiro arrancadas em todas as Américas com trabalho escravo o seu preço baixou imenso e as minas do Haiti esgotavam-se. Eram necessários outros meios de exploração dessa mão-de-obra escrava e a produção agrícola extensiva foi a solução pois as terras do Haiti eram ricas de qualidade agrícola.
Foram então arrebanhadas multidões de escravos em Africa trazidos em trágicas condições para o Haiti, os quais passaram a trabalhar a terra e os colonos a exportar para a Europa Ocidental o açúcar, o tabaco, o milho, o sisal e o café. Os escravos eram tratados da forma mais desumana que possamos imaginar. O que nunca lhes faltava na frente era o padre e a cruz de Cristo.
Muitas foram as revoltas dos escravos afogadas no sangue, desta luta um homem escravo culto e inteligente vai emergir: Toussaint Louverture.
Começa por ganhar uma reputação de excelente cavaleiro, e de médico o “Doutor Folha” devido ao domínio de medicina pelas plantas. Casa com uma mulher livre, e foi liberto em 1776 com a idade de 30 anos.
Em 1789 dá-se a grande Revolução francesa que iria ter enorme influência no mundo inteiro, a qual teve como não podia deixar de ser enormes repercussões na ilha. (Tal como o 25 de Abril abriu as portas da libertação das colónias portuguesas).
Primeiro os grandes colonos franceses pensaram em declarar a independência, os pequenos agricultores, artesãos e empregados reivindicam a igualdade com os primeiros e os escravos exigem a sua liberdade.
Em Agosto de 1791, os escravos da planície do Norte revoltam-se no seguimento da cerimónia de Bois-Caiman.
Toussaint Breda depois chamado Louverture torna-se ajudante de campo de Georges Biassou, comandante dos escravos que refugiados na parte oriental da ilha, se aliam aos espanhóis, que a ocupam afim de apear os franceses esclavagistas. Toussaint é então iniciado nas artes da guerra pelos militares espanhóis. E então, á frente de 3.000 homens e apenas em poucos meses alcança varias vitórias, passando os seus seguidores a chamar-lhe Louverture. É então nomeado general das tropas espanholas.
A 29 de Agosto de 1793 Toussaint lança uma proclamação em que se apresenta como lider negro. Destaco dessa proclamação duas frases: «Eu quero que a liberdade e a igualdade reinem em São Domingos e trabalho a fazê-las existir. Univos, irmãos e combatei comigo pela mesma causa: comigo arrancai as raízes da arvore da escravatura». Um dos objectivos desta proclamação era a Unidade. Não esquecer que as centenas de milhares de escravos que habitavam Haiti eram oriundos de vários países de Africa e de várias tribus, com costumes diversos, hábitos, culturas e língua.
O pouco de atenção que lhe prestam os espanhóis acaba de o convencer que estes não vão pôr fim a escravatura.
Entretanto havia cada vez mais informação sobre a revolução em França. Em Setembro de 1792 chegam de França os comissários da Républica Leger-Félicité Sonthonax e Etienne Polverel afim de garantir os direitos das pessoas de cor. É então que a ilha é invadida pela marinha inglesa e tropas espanholas ás quais se juntaram os latifundiários brancos e outros monárquicos franceses. A 29 de Agosto de 1793 Sonthanax emancipa todos os escravos, chamando-os a juntarem-se à Revolução. A 4 de Fevereiro de 1794 a Convenção reunida em Paris ratifica esta decisão e proclama o fim da escravatura em todos os territórios da Republica Francesa.
Passaram-se alguns meses e Toussaint Louverture reúne os seus mais próximos colaboradores e com algumas dificuldades, a 15 de Maio de 1794 adere à Revolução Francesa. O exército sob seu comando, o qual incorpora negros, mulatos e mesmo alguns milhares de brancos republicanos, em 15 dias desfaz os seus antigos aliados espanhóis e conquista uma dúzia de cidades. Num ano ele empurra os espanhóis até à fronteira oriental e da ilha, e bate as tropas dos seus antigos chefes que tinham ficado fieis aos espanhóis. Em Julho de 1795 a Convenção promove-o ao grau de General de Brigada.
O seu talento não é só militar. Por todo o lado por onde passa, ele confirma a emancipação dos escravos. Ele organiza a reposição em funcionamento das plantações e convida os colonos a voltar, inclusive os que tinham combatido a republica, apesar dos avisos contrários das autoridades francesas.
A luta contra os britânicos que ocupam o Norte e o Oeste é mais difícil. No Sul, o general mulato André Rigaud faz-lhes frente corajosamente, mas sem conseguir fazê-los recuar.
Graças à chegada de uma comissão francesa em 1796 com um carregamento de armas, Toussaint passa a dispor de um exército de 51.000 homens incluindo 3.000 brancos. Ele retoma então o combate contra os britânicos e consegue alguns sucessos, não decisivos. São os britânicos que cansados pela resistência heróica dos ex-escravos se decidem a negociar. Toussaint deixa fora das negociações o general chefe Hédouville, chegado em Março de 1798, assim como o ultimo Comissário da Republica, o civil Julien Raimond. A 31 de Agosto de 1798 os britânicos abandonam São Domingos.
Por volta do 14 de Outubro de 1798, o general d’Hédouville, ordena o desarmamento dos negros do Norte, estes informados por Louverture revoltam-se a 16 de Outubro de 1798, e obrigam o general d’Hédouville a reembarcar precipitadamente para a metrópole levando consigo numerosos brancos. Afim de conseguir que os brancos participassem a seu lado, Toussaint proclama o catolicismo religião oficial.
A 9 de Maio de 1801 Toussaint Louverture proclame uma Constituição Autonomista que lhe atribui os plenos poderes.
A 8 de Julho de 1801 ocupa a parte oriental da ilha e aplaudido pelas suas tropas e a população é nomeado governador-geral da ilha reunificada.
Desenvolve então uma política independente, assina vários contratos de comércio com os Estados Unidos e a Inglaterra. A ilha volta a encontrar a prosperidade que as suas culturas lhe permitiam.
Em França a revolução progressista recuava, a intriga e a traição, tinha pouco a pouco liquidado os seus grandes pensadores e dirigentes revolucionários Marat, Robespierre, Danton, Babeuf, Saint-Just e o Mário Soares dessa época lá do sitio por detrás de todas as conspirações chegava ao poder e era nomeado Primeiro Cônsul de França, Napoleão Bonaparte.
Encorajado pelos “plantadores” colonos brancos, e por sua mulher Josephine, nativa da Martinica, ele começa a 20 de Maio por legalizar a escravatura, depois aproveitando a acalmia oferecida pela paz assinada em Luneville com a Áustria, Napoleão decide reconquistar o Haiti.
A 14 de Dezembro de 1801, uma frota de 36 navios aparelha de Brest, sob comando do Almirante Louis Thomas Villaret de Joyeuse. Em Fevereiro de 1802, desembarca um primeiro contingente de 23.000 homens em Camp-Français sob comando do general Charles Leclerc, marido de Pauline Bonaparte, cunhado do “Primeiro Consul” da Republica francesa, Napoleão.
A seguir, outra expedição de 11 navios larga de Brest e chega a Pointe-á-Pitre a 2 de Maio de 1802. Ela leva para Guadalupe 3.500 homens sob comando do general Antoine Richepance. A pequena ilha de Guadalupe onde também os escravos galvanizados pelas noticias da liberdade dos servos franceses e a semi independência do Haiti (aquilo a que mais tarde se veio a chamar de internacionalismo proletário) se tinham também levantado e libertado a Guadalupe, são então massacrados sem piedade, pelos usurpadores da Revolução Francesa. Tal como em Portugal, os usurpadores do 25 de Abril, assassinaram o Caravela e o Casquinha no governo de Lurdes Pintassilgo nas acções de entrega aos latifundiários antigos suportes do fascismo. E hoje com outros meios continuam a mesma politica sobre o povo trabalhador de Portugal. (Os meios de comunicações estão, para a Democracia burguesa, como a violência está para a ditadura, ambas são uma violência exercida pelas classes dominantes sobre a classe explorada). A escravatura é também restabelecida na Guadalupe por Decreto de Bonaparte de 20 de Maio de 1802 : os homens de cor perdem a sua cidadania e os trabalhadores das plantações o seu direito a um salário.
No entanto em São Domingos, a chegada do corpo expedicionário francês provoca um levantamento geral dos antigos escravos. O general Henri Christophe, adjunto de Toussaint Louverture, incendeia Cap-Français, que tinha a fama de ser a pérola das Antilhas.
Perante a incapacidade do corpo expedicionário francês de vencer o heróico povo haitiano, o general Leclerc convida Toussaint Louverture a conferenciar com ele na plantação Georges. Á sua chegada, cai numa armadilha que não era habitual nos conflitos europeus, mas Bonaparte e Leclerc não viam aí qualquer perda de honra para eles eram apenas negros e escravos.
Levado com sua família para bordo de um navio francês de nome “Herói”. No momento de subir para o navio o prisioneiro declarou: «Ao me emprisionarem, só abateram em São Domingos o tronco da árvore da Liberdade, mas nela crescerão novos rebentos, pois as suas raízes são profundas e numerosas».
Num refinamento de crueldade apanágio da burguesia, o herói Haitiano é fechado sem julgamento num dos sítios mais frios que existem em França! Foi no Forte de Joux, no departamento do Jura. Toussaint Louverture morre a 7 de Abril de 1803 (as suas cinzas foram restituídas ao Haiti somente em 25 de Março de 1983).
Muitos dos seus partidários mais próximos foram julgados como perigosos ou susceptíveis de criar agitação, foram também deportados para França. Outros foram condenados a residência fixa, outros muitos encheram as prisões do império. Se fosse hoje, estariam em Guantanamo e teriam o apelido de terroristas.
Apesar destes emprisionamentos e do desterro de Louverture e seus próximos colaboradores, a luta continua.
O general Leclerc conseguiu que o adjunto de Toussaint Louverture, Jacques Dessalines se juntasse ás tropas francesas, entre intrigas e traições instigadas pelo poder colonial, é feita a caça aos adversários de Dessalines que são cruelmente eliminados. (Não esquecer a diversidade das origens dos escravos).
A 2 de Novembro de 1802 morre o cunhado de Napoleão vítima da febre-amarela assim como muitos soldados franceses. Um novo reforço de 10.000 homens é enviado de França para o Haiti comandados pelo visconde Donatien de Rochambeau, filho do comandante do corpo expedicionário francês na guerra da independência do Estados Unidos. Rochambeau não consegue obter melhores resultados apesar da sua extrema crueldade. Foi assim que formou corpos de combate apetrechados de cães treinados para o combate contra os negros, perseguindo as vitimas até as rasgarem em pedaços.
Entretanto Jacques Dessalines há muito que tinha deixado de colaborar com os franceses e tinha tomado a direcção do combate aos ocupantes esclavagistas franceses.
Foram 13 anos de combate pela independência, com o país esgotado e faminto. Mas do lado do ocupante esses anos de guerra total levaram até ao Haiti. 70.000 soldados franceses temperados nas varias frentes de guerra na Europa 55.000 morreram no Haiti em combate ás mãos dos antigos escravos ou por doença.
Em 1803, a 18 de Novembro num lugar chamado Vertières, as tropas francesas são vencidas desfeitas ás mãos dos antigos escravos e o visconde Donatien de Rochambeau rende-se nesse mesmo dia ao sucessor de Toussaint Louverture, o general Jacques Dessalines, que atingiu perfeitamente os seus objectivos.
Segue-se a hecatombe: as guarnições francesas da ilha capitulam umas atrás das outras e a antiga colónia volta a proclamar a sua independência no dia 1 de Janeiro de 1804. Ela retoma o nome de Haiti que era o nome que lhe davam os seus primeiros habitantes amerindíos Haiti.
A independência do riquíssimo Haiti só foi reconhecida pela França em 1825. Mas foi exigido como contrapartida que o estado haitiano pagasse à França 150 milhões de francos a titulo dos prejuízos causados pela perda de escravos! O Haiti pagou e passou a abrir as fronteiras aos imigrantes europeus e norte americanos.
O Haiti foi o primeiro país livre das Américas, os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas continuava o massacre dos índios amerindíos e tinha mais de meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e tabaco. Jefferson que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.
Na guerra de libertação contra a França um terço da população morreu em combate, e aquele mundo racista da burguesia triunfante não perdoou a humilhação que sofreu o exército mais poderoso da época, o exército francês de Napoleão.
A Nação dos ex-escravos recém liberta sofre então o bloqueio do Ocidente, receita que continua de actualidade nos manuais do império, (ver Cuba). O Haiti foi condenado à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém o reconhecia. A América reconhece o Haiti 60 anos após a independência.
A história de repressão e chantagem contra o Haiti atingiu e atinge ainda nos nossos dias uma dimensão trágica, e é também uma história do racismo na civilização ocidental.
Durante longos anos a burguesia negra com algumas excepções governou o país em seu proveito próprio como todas as burguesias. Apesar disso o povo haitiano forte e corajoso conseguia produzir riqueza e o país despertava a cobiça dos vizinhos do Norte e a primeira intervenção do novo império, o Americano, dá-se em 1888, primeira intervenção americana a qual fica a condicionar a independência do Haiti com leis impostas.
Em 1915 dá-se nova e mais violenta intervenção militar, os americanos ocupam o território, com a sua Guarda Nacional e os seus “marines”. Desmantelaram o aparelho administrativo, destruíram florestas e plantações, abriram auto-estradas e estabeleceram linhas de montagem industriais, apoderaram-se da alfandega e o Presidente haitiano só recebe o ordenado quando aceita liquidar o Banco da Nação, que passa a sucursal do CITIBANK! Os invasores ficam até 1934, quando são obrigados a retirar perante levantamentos populares reprimidos a ferro e fogo fazendo milhares de mortos e feridos, tendo antes de retirar, pregado em cruz, numa porta de uma praça publica, o corpo do chefe rebelde Charlemagne Peralte.
Quase sempre sob tutela americana, o país vai de ditadura em ditadura até que chega a vez do louco carniceiro Duvallier, o Papá Doc que apoiado pelos USA se proclama presidente vitalício e a quem sucede o filho, Babi Doc, que somou 50.000 mortos, provocados pela repressão organizada por uma milícia secreta, os Tonton Macute, apoiados numa rede de bufos assassinavam tudo o que lhes parecesse menos dócil.
Em 1971 Babi Doc enfrenta um poderoso movimento pela democracia e é obrigado a retirar-se para França, instalando-se no Sul, na famosa Côte d’Azur, Costa Azul, numa propriedade que tinham comprado com o dinheiro da pilhagem realizada durante os 50 anos em que usurparam o poder no Haiti.
Não terminou aqui a luta deste povo pela independência e a democracia. De 1971, fim da ditadura dos Duvalliers a burguesia não “consegue” governar para o povo e sempre que as coisas tomavam um caminho positivo, lá vinha a famosa instabilidade criada por mão invisível, que todos conhecemos. Anos mais tarde, 1991, realizam-se as primeiras eleições verdadeiramente livres e o Padre progressista Aristides é eleito presidente, enceta uma politica contra a corrupção, leva a cabo uma politica favorável aos mais pobres, reforçando as Instituições Nacionais, e não teve tempo, de ir mais longe, essa politica não agradava ao império, e a sua presidência durou alguns meses. Os marines derrubam-no. Vai para a América. Segue-se uma junta militar com apoio americano. Em 1994 levantamento insurreccional contra a junta militar e nova intervenção americana com 20.000 tropas de ocupação á qual chamam “manutenção da paz”. Esta intervenção militar dos Estados Unidos de 1994 não tinha na realidade nada a ver com o restaurar a democracia. Muito pelo contrario: foi efectuada afim de impedir que a insurreição popular armada apoiada por alguns militares contra a junta militar e os seus séquitos neoliberais tomasse o poder com o povo, para o povo. As tropas dos USA ocuparam o país até 1999.
Entretanto a obra foi o desmantelamento das forças armadas haitianas após o esmagamento da insurreição, e o Departamento de Estado dos EUA contratou uma companhia de mercenários, a Dyncorp, para proporcionar “conselho técnico” na reestruturação da Policia Nacional do Haiti. Perante a incapacidade que os americanos demonstraram de conseguir um lacaio minimamente á altura, reciclam Aristides e trazem-no de volta ao Haiti. Perante a continuação de uma politica que visava a Independência Nacional, os mesmos do costume reincidem e com os seus agentes no exterior e no interior voltam a criar uma situação que propicie a intervenção “salvadora da democracia” salva pelas armas americanas.
É o golpe de Fevereiro de 2004. Nos meses que antecederam o golpe de Estado de 2004, forças especiais dos EUA e da CIA estiveram a treinar esquadrões da morte compostos pelos antigos Tonton Macoute da era Duvalliers. O exército paramilitar rebelde cruzou a fronteira da Republica Dominicana no princípio de Fevereiro de 2004. “Era uma unidade paramilitar bem armada, treinada e equipada integrada pelos antigos membros de “Le Front pour l’avancement et le progrès d’Haiti (FRAPH), os esquadrões da morte “á paisana”, envolvidos em matanças em massa de civis e assassínios políticos durante o golpe militar de 1991 patrocinado pela CIA, o qual levou ao derrube do governo democraticamente eleito do presidente Jean-Bertrand Aristide”. (Ver Michel Chossudowsky, the Destabilization of Haiti : Global Research. February 29.2004).
De notar que as unidades (FRAPH) atrás citadas foram a seguir integradas na força policial do país, a qual estava sob supervisão do MINUSTAH. Na desordem politica e social desencadeada pelo terramoto, a antiga milícia armada e os Tonton Macoute estarão a desempenhar um novo papel que podemos imaginar. Assim contra sua vontade, o Padre Aristides é levado para o exílio na Africa do Sul, tudo isto perante o silêncio das ditas democracias ocidentais.
E assim de Ditadura em ditadura, de intervenção americana em intervenção americana, de massacre em massacre, chegamos a 2010.
Em 2010 este povo este país já tão fustigados com a catástrofe imperialista, sofre uma das maiores catástrofes provocadas pela Natureza.
É aqui que quero referir o papel indecente das TVs. Poucos foram os jornalistas que demonstraram ser dignos desse nome, desse emprego. Sobre a historia nada, principalmente sobre a historia mais recente. Essa “informação” dominante mostra o desespero e a destruição, todos os dias anuncia tal um profeta de que a coisa vai agravar-se, empola motins e saques, destaca as crenças pagãs para justificar a imagem de uma nação arcaica, “naturalmente” caótica, sobrepovoada, ingovernável, quase que nos dizem: «os negros precisam de alguém, branco evidentemente, para os governar» e outras teses de cariz racista.
O que fica por dizer é qual era o estado do país antes do tremor de terra. Os bairros arrasados agora, não tinham saneamento básico, electricidade e água potável. Os milhares de sem abrigo, famintos, moribundos sem assistência médica já lutavam pela sobrevivência.
Muitos haitianos já comiam uma espécie de galetes de terra, uma terra que contem certos nutrientes minerais á qual juntavam apenas um pouco de gordura. É preciso dizer que antes do tremor de terra que causou dezenas de milhares de órfãos, já o país tinha mais de 300.000 órfãos. Porquê? Porquê tantos órfãos?
Dizer também que o país tem 80% da população no limiar da pobreza, 400 dólares anuais per capita, isto é um terço do rendimento da favela da Rocinha no Rio de Janeiro.
A esperança de vida é de 51 anos, e o analfabetismo atinge os 50,2%.
Os serviços médicos quase inexistentes. A mortalidade infantil é de 80 por 1000.
Nenhuma catástrofe natural trouxe os haitianos até aqui nestas condições. Foram as intervenções americanas, e o seu apoio a governos fascistas. Foram mais recentemente os golpes de Estado promovidos pela Casa Branca – em 1991 nas primeiras eleições livres, em 1999 após um levantamento popular contra a junta militar que ocupava o poder após o golpe de 1991 contra Aristides. E em 2004, no bicentenário da primeira vitoria sobre o colonialismo esclavagista na América Latina – que derrubaram Jean-Bertrand Aristides colocando no lugar do “padre dos pobres” o actual presidente, René Préval.
Foi com os objectivos do capital, encabeçado pelo império que se arruinou a agricultura de uma nação de solos férteis, que passou a importar tudo aquilo que produzia em abundância e exportava, o arroz, o trigo e o açúcar (que tal a parecença com o que nos vai acontecendo?). Hoje o Haiti produz ainda quantidades de laranjas amargas que a empresa francesa Cointreau explora para produzir a bebida do mesmo nome. Esta politica imposta para beneficio das grandes multinacionais empurrou milhares de camponeses e assalariados rurais para Port-au-Prince, concentrando-os em miseráveis favelas que agora desabaram. Foi após o dictat americano com Préval que se privatizaram Portos de Águas profundas que poderão servir para outros fins por exemplo escoar o petróleo que se diz existir no Haiti, assim como os recursos minerais que todos unanimemente afirmam estarem sub-explorados. Foi também após o golpe da intervenção americana que se vendeu para logo serem desmanteladas as empresas estatais de moagem de trigo e as de produção de cimento, bens essenciais que tanta falta fazem hoje no contexto pós-terramoto, o Haiti terá agora de importar a elevado preço esses bens indispensáveis á reconstrução.
Foi também o presidente e o “amigo” yankee que contra a Constituição haitiana impuseram a presença militar estrangeira, presença que nada construiu que nada de melhor trouxe ao país. A pretexto de manter a ordem têm servido para reprimir os protestos das populações, as greves e manter os miseráveis salários pagos nas fábricas das multinacionais. O grau de concentração da riqueza no Haiti é o mais elevado da América Latina superando mesmo o do Brasil, país ao qual nos habituamos referir como de “contrastes”. São de facto esses contrastes que saltam á vista na tragédia haitiana. E como disse José Saramago: «Não há notícia de que um único haitiano rico tenha aberto os cordões á bolsa ou aliviado as suas contas bancárias para socorrer os sinistrados. O coração do rico é a chave do seu cofre-forte.» É tudo isto que as TVs não viram.
As televisões também conseguiram não ver a ajuda prestada pela Republica Socialista de Cuba ao povo do Haiti. Estive constantemente atento a esse silenciar da verdadeira ajuda desinteressada.
Ora todos sabemos que há muito tempo e dentro das suas possibilidades que Cuba prestava apoio especialmente na saúde (ver artigo meu aqui no Setubalnarede de 3/07/08) onde refiro esse facto. Cuba já tinha nessa data no Haiti 10 centros médicos de diagnóstico integral e 2 centros oftalmológicos e um total de 400 especialistas de saúde contando médicos, enfermeiros e outros.
Muitos mais vieram após a catástrofe, assim como cerca de 250 estudantes de saúde haitianos que estudavam em Cuba e vieram ajudar.
Mas as “nossas” TVs nada viram.
Henry Boisrolin, membro du Comité Democrático Haitiano, deu uma entrevista, ao jornalista argentino Carlos Aznarez que é director de Resumer Latino-americano que por coincidência é publicado a 12/01/10 antes de se ter conhecimento do terramoto, vale a pena lê-lo no O Diario.info.
Citarei apenas um pequeno extracto a propósito da presença imposta de soldados estrangeiros. «Estamos falando de um país com suas estruturas económicas destruídas, onde 60% do orçamento haitiano provem da ajuda internacional e das remessas que enviam os haitianos que trabalham fora. Por tudo isso, dizer que têm que ir com Tanques, Aviões e Helicópteros para resolver isso, é totalmente falso e cruel».
[…] «Tem que ver, por exemplo, em Porto Príncipe, em alguns dos bairros mais calmos, como durante a noite (porque não há praticamente vida nocturna no Haiti, não há luz, nem serviços que se possam encontrar em outros países) se vê um continuo desfile de carros das Nações Unidas, em frente aos melhores bares e restaurantes, gastando muitos dólares, e lá fora o povo dormindo nas ruas».
[…] «A ocupação do Haiti é um novo esquema para dobrar a rebelião popular num país onde as classes dominantes não têm possibilidade alguma de ganhar as eleições de forma limpa. Então é preciso impor, pela força das armas, uma estratégia de dominação. Esse é o verdadeiro papel dos ocupantes».
Estas palavras, esta análise, do dirigente do Comité Democrático do Haiti, antes do tremor de terra, dão-nos a chave para perceber tudo o que fizeram os americanos após o tremor. Já lá estavam mais de 9.000 soldados, os americanos cujos médicos poucos vieram, enviaram cerca de 15.000 soldados e mais irão chegar.
Tomaram o aeroporto onde a ajuda dificilmente chegava, pois ocupavam o terreno na descarga de carros de combate e outros meios bélicos, tomaram a administração do aeroporto de Port-au-Prince. «A USA Air Force não está a trabalhar sob as instruções dos responsáveis do aeroporto haitiano. O aeroporto é dirigido pelos militares dos EUA». (Entrevista com o Embaixador Haitiano nos EUA, R. Joseph, ao PBS News, 15 de Janeiro de 2010).
Muito haveria a dizer sobre a tormentosa história do Haiti e da luta do seu povo contra o colonialismo, as ditaduras e contra as intervenções criminosas do império americano.
Quero terminar falando daquilo que já é conhecido como a : Agenda Oculta Americana. Um organismo americano chamado US Southern Conrand (USSOUTHCOM) que tem a sua sede em Miami e instalações militares através da America Latina são parte de um poderoso sistema (que o diga o Presidente Zelaya) que visa assegurar a manutenção de regimes nacionais subservientes, e quando algum sai fora dos carris todos os meios são validos para recolocar o wagon na linha. Esta renovada presença militar americana no Haiti onde a percentagem de militares americanos ou ás suas ordens já é superior per capita as que existiam no Afeganistão antes do último envio de Obama. Esta reforçada presença desproporcionada se olharmos ao socorro prestado ao povo haitiano será utilizada para estabelecer uma cabeça de ponte no país bem como prosseguir os objectivos estratégicos e geopolíticos da América na bacia do Caribe, os quais são em grande medida dirigidos contra Cuba e a Venezuela.
Inocentes são aqueles se os há, que imaginem que o objectivo americano na sua intervenção com tantas tropas e tão poucos médicos e meios medicinais, é actuar para a reabilitação do governo nacional, a presidência e o parlamento, que foram aniquilados pelo sismo.
A verdade é que desde o levantamento popular que derrubou o ditador Duvallier que a real intervenção e prática do estado americano tem sido desmantelar gradualmente o Estado Haitiano, restaurar princípios de base coloniais e obstruir o funcionamento de um governo democrático. No actual contexto a tarefa parece mais facilitada e tal como os abutres eles lançaram-se sobre a presa indefesa com todo o seu peso e procuram não só abolir o governo, já lá colocaram o Bill-The-Kid a mandar e vão também relançar o mandato da Unitd Nations Stabilization Mission in Haiti (MINUSTAH) cuja sede também foi destruída.
Mas este povo já superou tanta coisa que voltará certamente a surpreender-nos. O povo Haitiano mais uma vez apresentou um alto grau de solidariedade, resistência e compromisso social. Nos só vimos as imagens que as TVs nos querem mostrar.
Certamente que este povo em condições incrivelmente difíceis se oporá à ocupação militar dos paìs.
Não pode haver qualquer reconstrução ou desenvolvimento reais sob ocupação militar estrangeira.
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