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Um dos assuntos actuais na comunicação social é a violência escolar ou, como está na moda, o bullying. Todos os dias há notícias qual delas a mais sensacionalista. Mas será que o assunto é assim tão importante ou avassalador na nossa sociedade? Não é! E depois, como iremos ver neste artigo, os maus exemplos até vêm de cima.
No Verão de 2008 a Fundação Gulbenkian realizou uma conferência internacional sobre o tema. Um dos especialistas presentes deu uma entrevista ao jornal Público. Salientou que o assunto é muito aumentado pelos media e pelos políticos da oposição mas que em geral não está a aumentar no mundo. O problema principal nas escolas era a pequena violência, no dia a dia, que não dava nas vistas mas incomodava muito os alunos mais fracos. Também afirmou que em alguns locais muito pobres, como nas favelas do Brasil, não existe este fenómeno pois a escola é muito valorizada e protegida pelas comunidades que reconhecem o seu papel de subida social. Terminou por dizer que simples repressão não resolvia o assunto e que as medidas a aplicar apenas teriam efeito a médio prazo.
Este fenómeno está espalhado por todo o mundo e nas nossas escolas pode-se dizer que sempre esteve presente. Resumidamente pode-se dizer que os alunos mais velhos sempre gostaram de fazer valer a sua preponderância sobre os alunos mais novos. Por exemplo nos anos 50, nos primeiros dias de aulas, no ensino secundários, isto é, o actual 6º anos de escolaridade, era normal os alunos mais velhos darem caldos no pescoço aos caloiros, como que uma praxe de entrada na escola. Claro que alguns alunos abusavam e batiam com mais força mas no ano seguinte o caloiro passava a veterano e o ciclo continuava. Também era vulgar os alunos mais velhos, no pátio, tirarem as bolas aos mais novos e entreterem-se a dar pontapés para o ar, com grande violência, o que era conhecido pelo grito “balão” ao que todos os alunos acorriam para presenciarem o espectáculo, assim com a aflição, do dono da bola em a recuperar. Pouco depois tudo acabava e a bola lá retornava ao seu aflito proprietário que, alguns anos depois, iria ser ele a pontear as bolas.
Mas actualmente há uma tendência para que qualquer problema, mesmo pouco importante, que exista nas escolas se transforme num acontecimento, o que até tem as suas vantagens. Alguns professores, mais espertalhões, pegam nesse assuntos, fazem teses de mestrado e até de doutoramento e acabam por deixar de dar aulas “aos chatos dos miúdos” pois passam para o ensino superior. Às vezes até vão para comentadores dos jornais e das televisões, o máximo da carreira de um qualquer especialista. Ao longo destes últimos anos variados assuntos andaram nesta roda-viva de promoção profissional. Foi a educação sexual, depois as drogas nas escolas. Já se falou na gravidez na adolescência e até se tentou especular sobre a sexualidade dos deficientes. Houve várias teses sobre a indisciplina na sala de aulas e depois foi a vez do abandono e do insucesso escolar. Chegou então a altura da escola inclusiva e agora “o que está dar”, pelos vistos, é o bullying que até tem um nome pomposo para ser citado nos debates e nas TV’s.
O interessante é que todos estes especialista, assim que podem, fogem, a sete pés, das aulas no ensino básico e secundário, perdem a realidade do terreno mas não param de falar e de escrever artigos dando conselhos ao seus colegas, os coitados, que ainda têm que estar nas escolas a aturar os alunos...
Aqui há uns anos dois psicólogos, professores universitários, foram à então Escola Secundária da Bela Vista dar uma palestra sobre Indisciplina na Sala de Aula. Falaram, citaram autores, projectaram uns esquemas muito complexos mas, de concreto, nada diziam. Um colega meu colocou um problema real de sala de aula e pediu uma resposta. Com um ar superior os dois especialista responderam que estavam ali para realizarem uma reflexão sobre o tema e não para dar remédios. O meu colega respondeu-lhes que quando ia a um médico com uma dor num braço pretendia que o médico lhe tirasse a dor e não ouvir reflexões teóricas sobre os músculos do braço! Os especialistas balbuciaram umas desculpas e encerraram rapidamente a palestra.
Esta situação retrata como estes assuntos são normalmente encarados em Portugal. Quem lida com os problemas não tem tempo nem condições para os estudar. Quem os estuda não lida com os problemas e assim apenas tem umas concepções teóricas sobre o assunto.
Sobre a violência escolar é muito habitual escrever-se que os professores não sabem lidar com estes alunos. Mas curiosamente nunca li ou ouvi alguém apresentar uma metodologia concreta para se encarar este assunto. Apenas leio e oiço considerações abstractas, muito gerais, próprias de quem nunca teve à sua frente um aluno agressivo disposto a quase tudo. Mas, infelizmente, existem professores que também têm esta maneira de pensar que, se os problemas existem, é porque os colegas não sabem lidar com eles. Curiosamente estes professores lidam com este assunto evitando contrariar os alunos agressivos, com prejuízo para com os alunos bem comportados, as vítimas mais habituais, com o pretexto de “ter que haver compreensão para com os problemas do colega”, os alunos violentos. Isto é. Para evitar os conflitos com os maus alunos dão-lhes atenção excessiva, descurando assim os outros pois, como são sossegados, não reclamam. Aliás nas reuniões estes professores são facilmente reconhecidos pois, quando se fala em alunos mal comportados, começam sempre a sua intervenção com uma frase do género ” Este aluno tem muitos problemas familiares...” e depois tudo se justifica com esta argumentação.
O pior destas situações é que os alunos mal comportados têm sempre uma desculpa para seus actos e os alunos normais, isto é, normalmente comportado, são esquecidos e colocados em segundo plano com prejuízo da sua aprendizagem pois toda a atenção vai para as situações perturbadoras.
Claro que estas situações apenas sucedem nas escolas públicas. No ensino privado, na hipótese, reduzida, de um destes alunos conseguir ser matriculado, rapidamente é expulso sem apelo nem agravo. Aqui há dois anos um colégio de Braga expulsou um aluno por mau comportamento. O pai moveu “céu e terra” e até levou o assunto aos tribunais mas não conseguiu a reentrada do filho. Isto porque o filho foi acusado, e provou-se, que além de se recusar a fazer alguns exercícios nas aulas de Educação Física costumava dar pontapés nas mochilas dos outros colegas! Imagine-se este rigor nas escolas públicas. Em algumas escolas pelo menos metade dos alunos eram expulsos logo no primeiro período!
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