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1- Há palavras que definitivamente entraram no léxico dos portugueses. Embuste, erro, incorrecção, objectivo, sacrifícios ……, mas há outras que tardam em entrar tal como, felicidade, auto-estima, poder de compra, ……..
Passados cento e poucos dias sobre o início da era Socrática em Portugal já podemos fazer um pequeno balanço daquilo que está a ser a actividade deste (des)governo. A melhor forma de definir estes cento e poucos dias é recordar-me de uma conversa que tive há muito pouco tempo atrás com um amigo que se lamentava de se sentir enganado, que acreditava que Sócrates iria ser diferente para melhor, que até o tinha levado ao voto, mas que já tinha concluído, que se as coisas não piorarem, já não seria mau. Acho que não estou a cometer um erro se disser que este sentimento deve ser generalizado a muitos e a muitas portugueses e portuguesas.
Que eu me lembre, nunca uma depressão, atenção que não falo na económica, mas sim emocional, foi tão grande neste país. O “povo” realmente acreditou que Sócrates seria melhor, e agarrou-se a isso como tábua de salvação, como se não houvesse outras soluções. Hoje, o mesmo “povo” chega á triste conclusão que afinal aquilo que era a tábua de salvação, transformou-se em promessa, depois em objectivo. Da mesma forma que as medidas para alcançar os objectivos depois de erros e de incorrecções passaram a embustes.
2- A palavra embuste foi generalizada, como dizia, e bem, a semana passada, Luís Delgado. (alguma vez tinha de concordar com o dito colunista). Eu iria mais longe, o embuste, (mentir artificiosamente; dolo, falsidade; velhacaria; segundo o dicionário de Língua Portuguesa) foi generalizado, a ponto de se ter perdido a carga negativa que este acto tinha. Hoje o embuste é politicamente correcto e quase aceite pela população.
- Cidadão 1 - O Marco, já viste isto. O Miguel Frasquilho diz que o orçamento rectificativo é um embuste.
- Cidadão 2 - O tipo tem cá uma razão, o orçamento deles ainda era um embuste maior!!!!
- Cidadão 1 - Mas olha que o Ribeiro e Castro diz o mesmo
- Cidadão 2 – Olha que outro. Já se esquece de quando era deputado e suportava na Assembleia o embuste á volta do código de trabalho.
- Cidadão 1 - Pois é. Os gajos acusam-se mas são iguais. É só enganar o povinho.
- Cidadão 2 – Mais embuste, menos embuste, tens razão.
3- A discussão do momento é se o ministro das Finanças se enganou ou não no orçamento rectificativo. A discussão é similar á do sexo dos anjos. O que me interessa se ele está mal ou bem? O que me interessa discutir é qual a linha política que este orçamento rectificativo indica. É claramente esta discussão que o governo não quer, pois com essa discussão se perceberia facilmente que este governo fez um orçamento artificial, que na realidade não combate a fraude fiscal, muito antes pelo contrário, pois institui o perdão fiscal a quem não declarou as contas no estrangeiro nos seus rendimentos. O Partido Socialista que tanto criticou o ministério de Manuela Ferreira Leite aquando do perdão fiscal, faz agora no governo a mesma coisa. Um orçamento que faz aumentar artificialmente o peso da despesa no PIB com o claro intuito de no fim da legislatura poder mostrar resultados ou ainda um orçamento rectificativo que não incrementa o investimento público como forma da criação de riqueza e de novos empregos.
São estes os aspectos que se deveriam discutir, mais importantes que um erro, que sendo lamentável, não altera em nada o rumo político que este (des)governo quer dar, ou será mais correcto dizer manter, para o país. Se queremos continuar na senda neo-liberal fracassada do PEC, ou se pelo contrário queremos o caminho da modernidade e da justiça social.
A contestação social está nas ruas, nem sempre da forma mais correcta ao momento, mas não é possível negar que o povo está farto, farto ao fim de cento e poucos dias, e com um governo a desgastar-se mais cedo que o habitual seria bom que José Sócrates se lembrasse de mudar a agulha, que é como quem diz a política, de modo a resolver os problemas graves que o país atravessa e devolver ao povo o que lhe tem sido roubado ao longo dos últimos 15 anos.
4- As questões raciais estão cada vez mais na ordem do dia. O “Arrastão”, que se provou depois ser um “arrastinho” serviu de rastilho a um barril de pólvora que há muito que estava preparado. Ou a ser preparado. Pode apenas parecer uma questão de semântica, não o é no entanto. As coincidências são muitas e que me levam a questionar algumas coisas. Todos os que têm mail devem ter recebido um ou mais mails com links a Blogs e sites, supostamente de comunidades negras, que incitavam ao ódio racial contra brancos. O tráfego destes mails intensificou-se nos dias seguintes ao “arrastinho” e terminou na data em que dois deles foram publicamente desmascarados como sendo efectivamente escritos por elementos ligados á extrema-direita portuguesa. A convocação da manif foi rápida, muito rápida bem como a feitura de cartazes, pouco próprios de um movimento espontâneo de repúdio pelo acto de Carcavelos. Isto para não falar que seria inédito uma tal convergência entre gangs que permitiriam que no dia seguinte já estivessem alugados autocarros para irem para o Algarve continuar os desacatos.
Interrogo-me. Quem foram os principais beneficiados de toda esta situação? Quem ganhou tempo de antena com tudo isto? Quem explorou com mestria e organização este estado de coisas?
Se por um lado se fala que o acto de Carcavelos foi organizado, porque será que no após, a única organização que se viu, foi no lado mais xenófobo. Será que a organização se desmoronou ou quem organizou uma coisa também fez a outra. Depois de saber que Le Pen em França tinha fortes ligações ás comunidades árabes, nada me espanta.
Mas isto são dúvidas minhas, cada um/a que ler isto tire as suas conclusões e pense pela sua cabeça, que para intoxicação bastaram os canais de televisão público e privado que no alto da sua imputabilidade não têm problemas em trocar razão, bom senso e isenção por shares e audiências.
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