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• 13-10-2005 •
Segurança
por Guilherme Pereira
(Jornalista)


Cartas de Lisboa

Bárbara Guimarães


Passadas as eleições autárquicas, retenho factos que a marcaram. Um aperto de mão e Bárbara Guimarães. De permeio, a tropa fandanga perdeu a cabeça. Os magistrados anunciam que vão parar os tribunais. A inteligência nacional joga às inutilidades.


I

Retenhamos um facto. Carlos Sousa e a sua equipa ganharam folgadamente as eleições em Setúbal. Segredo do autarca – jogou limpo, mostrou programa e obra, finalmente foi a jogo sem o garruço dos assaltos ao voto. Conclusão óbvia – os setubalenses do concelho onde nasceram dois dos meus quatro filhos recusaram as papas e bolos oferecidas até aos limites do decoro, e escolheram bem, provando no mínimo que não andam distraídos nem são tolos. Sou suspeito, visto que apoiei, neste espaço de cidadania e liberdade, a reeleição do Presidente agora reeleito. Bocage e Zeca Afonso também votaram Carlos de Sousa.

 

Entretanto, permanece na memória o ainda recente debate Carrilho/Carmona, que pelos vistos arrepiou os elegantemente auto-qualificados fazedores de opinião da Pátria lisboeta, os quais considero, consideradas as excepções de vários concidadãos, com desprezo equivalente àquele que um dos meus mestres – Camilo – punha nas palavras sem renda quando se referia à colecção de energúmenos da inteligência portuense que lhe infernizaram a vida, além de o terem simpaticamente posto a ferros na cadeia da Relação do Porto, posto que, bem se sabe, o homem cometeu o arrepiante crime de se apaixonar pela a mulher que amava.

 

Por unanimidade, os nossos presuntivos intelectuais, alguns jornalistas, aproveitaram o debate de Carrilho na SIC para o agrilhoar às pesporrências filhas daquele paloio rançoso que é o seu, deles, ADN, decretando a morte política do deputado a quem, mal ele ganhasse a Presidência da Câmara de Lisboa, não deixariam respirar, desta vez para lhe (tentar) extorquir subsídios, privilégios, tachos, emprego para amigalhaços e pandilha correlativa - juro-vos com estes dois olhos que a bicharada há-de comer, se tiver mau gosto. Tenho cá um dedinho a dizer-me que bateriam na porta errada. Por junto, Carrilho foi ainda zurzido pela magnânima razão de que teve a mulher Bárbara solidária e a seu lado na campanha, cometendo ela, a mulher, o imperdoável delito cumulativo de ser bela e figura pública.

 

Poupo os leitores deste jornal à tragédia de vos impor a minha análise a tais baixarias da política e colaterais no seu pior. Os meus amigos leitores terão, imagino, os seus defeitos, mas é para mim seguro que, por serem cidadãos da liberdade, não andam a dormir na forma. Não será o primeiro chico-esperto aninhado numa qualquer esquina alfacinha da coacção com perfume e pézinhos de lã, jornalista ou não, a fazer-vos o ninho atrás da orelha.

 

Fez bem Manuel Maria Carrilho em não apertar a mão a Carmona, posto que, segundo disse, não cede a outra face a caluniadores contumazes. Por mim, recuso partilhar conversa ou pucarinho com canalhas que sobrevivem da intrigalhada e da calúnia. Por maioria de razão, não aperto a mão a essa gente.

 

Quanto a Bárbara Guimarães, resulta evidente que nem uma palavra teria sido balbuciada se a apresentadora – inteligente e bonita, salta à vista e aos neurónios – fosse uma matrafona acerebrada. Não precisaria de ir tão longe – Soares, Cavaco, Eanes, Durão ou Sampaio, que me conste, não justificaram ataques soezes e boataria tão reles, sendo que as respectivas mulheres, não sendo clones de Claudia Shiffer, são todavia cidadãs interessantes e inteligentes.

 

A inteligência nacional dar-nos-ia algum jeito assentando praça nos divãs da sexualidade mal resolvida.

 

II
Um grupelho de militares ultra-minoritários prepararam-se para fazer de arma à cintura uma manifestação de rua contra o Governo liderado por Sócrates, o qual teve a firmeza e bom senso de os pôr de volta à caserna ou a penates.
 

Quando fiz serviço militar, a instituição estava ao serviço de um poder político terrorista que calçava um par de botas de seminário, eliminava cidadãos à coronhada do exílio, da pólvora e da tortura. Enganou-se o conhecido patife financista de Santa Comba Dâo e sucedâneos. Foi justamente nas fileiras dessas Forças Armadas que germinou a colheita de boa casta daqueles jovens oficiais que interromperam, sem tiros, a vida do regime provinciano, reumático e criminoso que era suposto ser inamovível.

 

A coisa saiu-lhes pela culatra e, hoje, fia mais fino.
 

As Forças Armadas são um instrumento da soberania democrática, a cujos eleitos devem obediência...

 

Os magistrados da Nação, por sua vez, vão entreter-se com dois dias de greve. Os Tribunais, órgãos de soberania, e os magistrados, titulares desse órgão, serão grevistas por 48 horas, tendo no caso dos Magistrados do Ministério Público contado com a adesão pública do Procurador-Geral da República Soutto Moura. Sócrates (sei do que falo) quis substituir a criatura com voz de óleo de rícino pouco tempo depois de tomar posse. Sampaio deu o cavaco por resposta. Oxalá o Presidente da República já tenha percebido a embrulhada em que meteu a Pátria.

 

É líquida a legitimidade da realização de uma greve pelos magistrados do Ministério Público, por meras razões de entendimento dos preceitos constitucionais e do respectivo estatuto. O mesmo não sucede com os magistrados judiciais, até pela razão igualmente inquestionável de que são, individualmente, titulares de um órgão de soberania.

 

Não questiono as motivações putativamente justas para uma acção de questionamento do poder político.

Interrogo-me se, um dia, o Presidente da República, a Assembleia e o Governo decretassem greve. E a fizessem.

O indigenato na Nação, porventura, saberia da coisa pelo alarido dos jornais e lançaria a toalha no primeiro centímetro quadrado de areia da costa.

 

Um festim. Passado o carnaval, a Pátria sossegaria.

 

A cascata de infelizes que, nos dias de greve dos magistrados, darão com o nariz na porta dos tribunais, esses, estou seguro, dirão as cobras e lagartos do costume, acolitados pelos microfones em riste ávidos da gritaria da populaça e da sombra negra das audiências.

Importa pouco, bem vistas as coisas.

 

Apurou-se para o mundial a selecção e o Benfica vai guerrear ao Porto.

Aí se joga e decide a Aljubarrota versão século XXI.

 

O resto? Conversa da treta, folguedo no rincão.

 

Ganha a corneta mais o cachecol e a bejeca.

 

Portugal no seu melhor.


Guilherme Pereira - 13-10-2005 12:01

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