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José Caria presidiu ao Montijo durante dois mesesEm 1989, José Caria, um dos renovadores do PCP, foi convidado a encabeçar a lista da CDU à Câmara do Montijo. Convencido de que poderia resolver as divergências de dentro para fora, aceitou o convite e ganhou as eleições com 35% dos votos. Mas as coisas não correram bem e dois meses depois renunciou ao cargo. Em entrevista ao “Setúbal na Rede” José Caria – hoje deputado municipal, pelo PS – explica que a saída deveu-se, em parte à doença com que se debatia, e à ‘rota de colisão’ que assumiu com o PCP. Em 1990 resolveu sair do partido e renunciar ao marxismo-leninismo. Setúbal na Rede – Em 1989 aceitou o convite da CDU para encabeçar a lista candidata à Câmara do Montijo. Se já naquela altura era um crítico do PCP, porque é que aceitou o convite?
José Caria – Eu fui eleito, pela primeira vez, para o poder local, na Câmara do Montijo, em 1976. Era o segundo elemento da lista da FEPU. Nesse ano a coligação perdeu as eleições para o PS e fiquei como vereador da oposição. Fui vereador até 1979 com os pelouros da Instrução, Cultura e Desporto, Habitação e Urbanismo. Em 1979 fui estudar para o estrangeiro e, por isso, já não concorri às eleições desse ano. Estive vários anos afastado e sempre ligado ao movimento comunista internacional e aos partidos comunistas português e da então União Soviética. Quando regressei, fui convidado e aceitei. Estava ligado aos sindicatos, trabalhava com o movimento sindical e, por isso, estava dentro da luta social.
Nessa altura já havia renovadores dentro do PCP, por isso quem apadrinhou a minha campanha foi João Amaral e quem a lançou foi Luís Sá. Hesitei bastante em aceitar a proposta e, inclusivamente, houve uma reunião em que eu disse que se alguém estivesse interessado em ser presidente que avançasse porque eu prescindia disso.
SR – Porque é que pôs o lugar à disposição?
JC – Isso teve a ver com questões internas. Nessa altura já havia o grupo dos 24, em Almada, e que depois originou a Plataforma 21, e verificavam-se dificuldades de entendimento dentro do partido.
SR – Se estava em rota de colisão com o partido porque é que aceitou ser candidato?
JC – Eu funciono muito por afectos e tenho muitos amigos no PCP. Foi por uma questão de afecto e, sobretudo, pelo Montijo. Nasci e fui criado no Montijo e gostaria de fazer o melhor pela minha terra.
SR – Quando aceitou ser candidato, acreditou que poderia ultrapassar as divergências com o partido?
JC – Tal e qual como João Amaral, que já nessa altura era renovador. Mas as coisas levam tempo, pois já em 1989 ele esteve no Montijo, com o Luís Sá, e falámos deste tipo de questões. Assuntos como o centralismo democrático e o voto de braço no ar são anteriores a 1989. E como se vê, ainda hoje andam a ‘patinar’. Eu acreditei que, de dentro para fora, se conseguisse resolver as divergências modificando o projecto, o modelo e a estrutura da própria organização.
SR – Como é que decorreu a campanha eleitoral?
JC - Nada bem, porque quando entrei em campanha já estava muito doente. Foi um período bastante doloroso. Os responsáveis já sabiam disso mas foi decidido avançar mesmo assim. Andei entre médicos, no hospital do Barreiro, e em campanha nas ruas. Mesmo assim estava convicto de que ia ganhar e ganhei mesmo. Costumo dizer que não há impossíveis.
SR – Ganhou as eleições com 35% dos votos contra 29,2% do PSD e 23,3% do PS. De alguma maneira, a CDU beneficiou do mau momento que o PS estava a viver?
JC – Beneficiámos dos erros da gestão de Primo Jaleco e beneficiámos, sobretudo, da divisão interna do PS expressa no comportamento de certos autarcas, incluindo o professor Primo Jaleco, por quem tenho muito respeito, estima e admiração, independentemente das críticas acérrimas que lhe fiz e continuo a fazer. Ganhei as eleições por demérito da gestão dos principais autarcas do PS no órgão executivo do concelho, por divergências dentro do próprio PS, por mérito próprio, pela grande equipa com que trabalhei - apesar das mais ferozes contradições internas a que esteve sujeita - , pelo clima nacional que então se vivia, pela correlação de forças político-partidárias existente na região e também pela conjuntura internacional cujas influencias directas se faziam sentir no concelho do Montijo, tal como acontece hoje.
SR – Que prioridades tinha para o concelho?
JC – Sempre estive a par das carências e das potencialidades do concelho, pelo que a grande prioridade era resolver a situação económico-financeira da Câmara. Havia que promover o equilíbrio financeiro e foi isso que fizemos. Conseguimos um empréstimo junto da Caixa Geral de Depósitos, mas não houve tempo para muito mais que isso.
O que eu sonhava era fazer do Montijo um concelho de centralidade no contexto da região. E ainda não parei de sonhar com isso. De resto, fui um dos vários cidadãos deste concelho a iniciar a primeira Comissão Pró-Ponte, ainda nem sequer a ponte era uma possibilidade.
Enquanto presidente não tive tempo de fazer praticamente nada, mas satisfaz-me o facto de, durante cerca de três anos, ter trabalhado como autarca na gestão de Primo Jaleco. Este período foi muito importante, pois é dele que me vem o profundo sentimento de autarca.
SR – Dois meses depois renunciou à presidência da Câmara. O que é que o levou a tomar tal decisão?
JC – Quando renunciei ao cargo, fi-lo usando um direito inquestionável – que, aliás, ocorreu recentemente com o presidente João Almeida, da Moita – que é o impedimento por questões graves de saúde. Houve muita gente que colocou isso em causa mas a verdade é que eu tive problemas gravíssimos de saúde e fui operado aos intestinos.
A segunda razão para a minha renúncia teve a ver com divergências políticas, ao nível da estratégia para o concelho, divergências partidárias, de funcionamento interno do partido, e até divergências ideológicas porque eu mudei de ideologia. As pessoas têm problemas em admitir que mudaram, mas eu não. Em 1990 renunciei ao marxismo-leninismo e mudei de ideologia.
Tinha estado na União Soviética e estava dentro do movimento comunista internacional. O que aconteceu foi que, à medida que ia conhecendo o movimento mais profundas iam sendo as divergências. Até que ocorreu o corte total com a ideologia.
SR – Quando saiu, foi substituído pela nº 2 da lista, Jacinta Ricardo. Como é que viu o exercício do resto deste mandato?
JC – Foi uma desgraça em todos os aspectos. Jacinta Ricardo fez uma gestão absolutamente desastrosa. Só para ter uma ideia do muito que aconteceu: relativamente ao empréstimo que eu negociei, de 535 mil contos, em oito anos não foi pago um centavo de juros. Foi uma gestão desastrosa, ruinosa e danosa para o concelho. Raramente me arrependo das coisas, mas admito que tenhamos cometido um erro ao convidar Jacinta Ricardo para nº 2 da lista.
SR – Actualmente é membro da Assembleia Municipal, pelo PS. Como é que vê o exercício do poder local?
JC - É uma função que dá gozo, pelo menos no meu caso. Há quem goze a ver futebol, eu gozo a exercer a mais pequena função da mais pequena autarquia. Trata-se de um dos pilares do desenvolvimento e da consolidação da democracia em Portugal, é, cada vez mais, preciso participar no exercício do poder local, mas acho também que a participação tem de ser alicerçada no conhecimento. Por isso, os autarcas têm de ser pessoas conhecedoras. Que não se depreenda destas palavras qualquer valoração negativa do poder local, sejam freguesias sejam municípios, mas o facto é que é necessário apostar bastante na formação dos autarcas, de modo a que estes melhorem a sua participação e desempenho. É uma crítica aos partidos, que não formam suficientemente os seus autarcas, e ao próprio Estado, que ainda faz menos do que os partidos. |
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Etelvina Baía - 17-06-2002 11:14 |
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