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• 30-11-2005 •
Assento Parlamentar (BE)
por António Chora
(Dirigente Nacional do Bloco de Esquerda)


O Trabalho na China e as consequências no Mundo


A China já não é uma ameaça é um competidor quase imbatível. A penetração dos produtos chineses a baixo preço e razoável qualidade, provoca desemprego nos países que não aguentam a competição.


Os operários na China são uma classe recente, pois até à poucos anos as purgas eram enormes, e com facilidade era enviados para o campo, acusados de aburguesamento, sendo substituídos por jovens campesinos, evitando assim o Partido Comunista a organização dos mesmos.

 

Os salários praticados nas cidades industriais da China equivalem a 0,53€ por hora. A diferença em relação a outros países é fenomenal. No Japão, o salário médio industrial é de 17€ por hora. Nos Estados Unidos, 19€., na União Europeia é de 23€, em Portugal cerca de 6€. Além disso, o trabalho na China está praticamente livre de encargos sociais; as jornadas são de seis dias por semana; as férias são uma semana; não há subsídio de férias nem 13º.mês ou Fundo de Desemprego.

 

Durante o ano inteiro, mandam dinheiro para a família a ponto de ser essa a principal fonte de rendimento na maioria das províncias rurais. Tudo isso é feito ganhando o equivalente a 0,53€ por hora e trabalhando 60 horas por semana!

 

O mais impressionante é que os jovens que hoje trabalham nas indústrias chinesas, cuja maioria veio do campo, estão satisfeitos com as actuais condições laborais. De dois em dois anos eles voltam ao interior para visitar a família e levam na bagagem um blusão de ganga, calças de ganga de boa qualidade, sapatos bonitos, aparelhos de rádio, TV e até DVD, e uma poupança equivalente a 120€ que é muito dinheiro quando comparado com rendimento dos seus pais que é de 33€ por ano! Com frequência, os jovens realizam pequenas obras na casa, compram agasalhos para o frio e vários outros produtos de consumo que estão fora do alcance da família.

 

O trabalho nas indústrias da China é duro, mas quando retornam ao lar, além dos bens de consumo, eles levam novas ideias que tentam passar aos seus pais, tais como os prejuízos do fumo e do álcool, melhores condições de higiene etc., e por esta via, são agentes de uma reforma da cultura e da mentalidade.

 

Estamos diante de uma população que ganha pouco, mas consegue ajudar os seus familiares que ainda ganham menos. Os domingos são livres (o que não acontece aos chineses que em Portugal trabalham nas lojas 12 horas por dia 7 dias por semana).

 

Não há dúvida que os operários chineses com o passar do tempo, a formação, o contacto com novas realidades, as exigências de liberdade e organização, lutarão contra o regime por melhores condições de vida e melhores salários.

 

Mas a distância entre aquela realidade e o resto do mundo é colossal. As medidas proteccionistas, (no caso português apenas beneficiam empresários que se abotoaram com os subsídios para a modernização das suas industrias e nada fizeram), o sistema de cotas, e as negociações na OMC terão pouca eficiência para reverter as vantagens competitivas da China no campo do trabalho que perdurarão por décadas.

 

Para uma convergência mais rápida entre os mercados de trabalho da China e o resto do mundo, será necessário entre outras coisas obrigar a China a:

 

a) Uma efectiva politica de respeito pelos direitos humanos;

b) Proibir a importação de produtos feitos por crianças;

c) Respeito pelas oito horas semanais;

d) Respeitar a criação pelos trabalhadores de Sindicatos efectivamente livres da tutela Partido Comunista Chinês que governa o País há décadas e permite este estado de coisas.

 

Sem estas medidas, sem organização livre e independente por parte dos trabalhadores chineses, o processo de equiparação de salário será feito através do dumping social, nos países do hemisfério Norte e não só, estando os trabalhadores a assistir desde o Japão aos EUA, passando pela União Europeia a milhares de despedimentos, a mudanças nas negociações de contratos de trabalho querendo-os equiparar às relações laborais do século XIX.

 

É a descida da escada que todos detestam, pois ninguém gosta de trabalhar mais e ganhar menos, mas esta realidade só uma globalização sindical mundial pode travar, fora isso, qual é a solução a curto e a médio prazo?


António Chora - 30-11-2005 09:10

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