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• 09-12-2005 •
Assento Parlamentar (BE)
por Daniel Arruda
(Membro da Coordenadora Concelhia do Bloco de Esquerda Seixal)


Infelizmente sobram temas


Escrever um artigo neste Portugal, e neste Outono do ano de 2005 não é tarefa fácil. Não por falta de motivos, antes pelo contrário. Os motivos são mais que muitos e escolher apenas um é muito complicado por isso o melhor é fazer um pequeno apanhado, mesmo correndo o risco de ser excessivamente superficial na abordagem das coisas.


Comecemos por isso pelo nosso meio envolvente, pelo ambiente. A actualidade do concelho do Seixal e consequentemente do distrito de Setúbal ficou marcada pela notícia da impossibilidade da construção do hipermercado Carrefour na Quinta da Princesa devido ao facto de ter ali ocorrido um abate ilegal de Sobreiros. Nada que não tivesse sido falado durante a campanha eleitoral mas ao qual a força vencedora das eleições fez ouvidos de mercador, vendendo a ideia que tudo estava bem. Para mim, e para o BE, o problema até nem reside no facto de se construir ou não o dito hiper mercado, o problema está no modelo de desenvolvimento que a autarquia quer implementar no Seixal, mas pior ainda quando esse modelo já de si errado assenta em negócios pouco claros e pouco transparentes entre a autarquia e entidades privadas como é (agora) comprovadamente o caso.


Outro assunto na ordem do dia é as reformas compulsivas na C.M.de Setúbal. Ontem ouvimos a notícia de que o Ministério da Administração Interna pretende instaurar um inquérito a este caso. Parece-me bem. Neste e noutros (todos) casos penso que o apuramento da verdade só pode trazer benefícios a todos. Neste sentido não percebo os anti corpos que o presidente da autarquia Carlos Sousa tem a que se faça um inquérito que apure toda a verdade e que reponha o bom nome de todos os envolvidos ou então que “julgue” quem agiu de má-fé lesando o erário público.

 

Sem querer fazer comparações descabidas apetece dizer que as Câmaras do distrito não se dão bem com as reformas. Depois dos episódios do Seixal em que devido às dívidas à Caixa Nacional de Aposentações, vários funcionários desta autarquia não receberem pela via correcta a sua merecida reforma, situação aliás que tanto quanto sei não está ainda totalmente resolvida, aparece agora este caso em Setúbal.


Obviamente que não podia passar ao lado dos problemas da Autoeuropa, empresa onde trabalho, que sendo uma empresa do distrito, ultrapassa largamente as suas fronteiras tornando-o um caso de dimensão nacional. Desde 1993 que esta empresa está em Portugal e desde então que da parte dos trabalhadores e dos seus representantes se tem assistido a uma postura responsável, nas revindicações, na defesa dos postos de trabalho, na viabilidade da empresa, chegando por vezes a substituir o governo, ajudando a criar “legislação” interna que permitia uma agilização funcional que era necessária para nos mantermos competitivos neste mundo industrial ultra liberal. Foram os trabalhadores que elevaram a Autoeuropa a um nível de excelência unanimemente louvado quer pelo grupo empresarial a que pertence quer pelas estruturas políticas deste país.

 

Por isso os trabalhadores da Autoeuropa esperavam, um mínimo de respeito e dignidade no tratamento. Respeito e dignidade, que estávamos habituados por anteriores gestões do grupo. Não estávamos habituados a que problemas internos, negociações internas fossem discutidos nos jornais, fazendo disso uma forma de pressão totalmente inaceitável para os trabalhadores. Inaceitável e injusta. Todos nos lembramos dos acordos anteriores, amplamente discutidos em que os trabalhadores abdicaram de 2 anos de aumentos. Agora seria a altura de ter o retorno com um aumento mínimo que cobrisse a inflação e que repusesse um pouco do poder de compra perdido e em que se desbloqueasse carreiras. O que propõe a empresa. Aumentos ao nível da inflação e uma redução brutal do valor das horas extraordinárias.

 

Felizmente que os trabalhadores souberam dar uma resposta cabal à administração da empresa. Sem “ondas”, uma resposta de nível, sem entrar em baixarias ou ameaças que não levavam a lado nenhum. Os trabalhadores uniram-se e foram em conjunto dizer à administração que aquilo não era correcto. Somados os dois turnos foram cerca de 3000 os trabalhadores que pacificamente se manifestaram junto da administração reclamando e conseguindo a reabertura das negociações. Deram a imagem que tinha de ser dada na altura. A da unidade e da coesão. Neste mundo liberalizado, onde a protecção dos trabalhadores é cada vez mais letra morta, os trabalhadores “jogaram” com a sua única arma eficaz. A unidade entre todos. Fizeram saber à administração da empresa que não tinham que negociar com um grupo de trabalhadores dispersos mas sim com um colectivo que demonstrou estar ali para resistir e vencer. Ainda é cedo para se dizer se tudo isto vai chegar a bom porto, mas na minha perspectiva foi um bom princípio naquela que não vai ser uma luta dos trabalhadores. Vai ser “A Luta”, aquela que decidirá por alguns anos o futuro das lutas em Portugal.


O núcleo do BE Seixal inaugurou a sua sede, aspiração desde a fundação do Bloco. Foi o que se chama um parto difícil, mas que por isso mesmo é ainda mais saboroso. Teve a apadrinhar a inauguração o Francisco Louçã, em campanha presidencial, e o Fernando Rosas entre muitos militantes e simpatizantes do BE Seixal. A sede fica situada na Rua Rodrigues Lapa nº 17 na Cruz de Pau.

Juntamente com a inauguração da sede o BE Seixal também elegeu esta semana a sua nova direcção concelhia, numa eleição que correu sem problemas, ao contrário do que é normal no Seixal, onde ainda nas últimas eleições autárquicas assistimos, a um processo que de claro nada teve. Neste acto interno os votos expressos estavam certos com os que foram descarregados nos cadernos eleitorais, não faltaram nem brancos nem nulos e as actas estavam correctas.


Para a semana haverá mais. Infelizmente não nos vão faltar temas.


Daniel Arruda - 09-12-2005 09:26

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