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• 15-12-2005 •
Segurança
por Guilherme Pereira
(Jornalista)


O Pai Natal existe


O Pai Natal existe. É meu pai. Chama-se Guilherme, transmontano, tem 81 anos. A ele e à minha mãe-rena Maria do Céu, devo quase tudo. Nada lhes dei. Só desgostos.


Peço aos leitores que me deixem divagar hoje – não do Natal abstracto e miseravelmente consumista a que muitos se renderam, mas do Natal simples dos homens e mulheres comuns que, nesta quadra, revolvem a carteira em busca do cêntimo final.

 

Ou, se preferirem, dos velhos algemados à solidão compulsiva a que os condenaram aqueles que tudo são e a tudo ascenderam a crédito dos tempos em que os velhos eram novos.

 

Descendentes que hoje, no viço da vida, coexistem olimpicamente com o cinismo, a prenda natalícia providencial ou a ausência, ela mesma, acrescida da mais brutal ausência de memória, sinistra fórmula de farpear quem, em instância última, os nossos velhos, já não pode defender-se e baixou os braços.

 

Penso nos meus leitores velhos.

 

Penso nos meus pais.

 

Perante eles me vergo humildemente.

 

A eles dedico estas linhas, este espaço.

 

Foram vocês que investiram sacrifícios quantas vezes além da força humana, sofridos em silêncio para que os vossos filhos, netos ou bisnetos fossem o que são hoje.

 

Alguns, ter-vos-ão despachado para os lares conspícuos onde se chega ao derradeiro varandim todos os dias, à espera do último.

 

Lugares, afinal, de solidão e miséria em cujas sombras se insinua aquela sujeita vestida de negro que vos contemplará com a morada final mais uma lápide a condizer.
 

Outros, seguramente mais cínicos, vestiram-se com o escudo da “vida stressada” para vos negar o direito à presença solidária, aos afectos com olhos e dedos de mão amiga, ao murmúrio cúmplice, a uma boa gargalhada.

 

Estes, seguramente o digo, passarão como cometas na consoada e deixar-vos-ão no colo quinquilharias ou trapos de marca, com um cartão colorido a bolas brilhantes e paleio rançoso – assim se enganarão com a ilusão de que estarão amnistiados da prática de um crime de ausência continuada, não previsto nem punido pelos códigos.

 

Tudo se paga e apaga, bem vistas as coisas, como se os nossos velhos pais e mães-Natal estivessem condenados à condição de lenha e lixo, ao degredo do abandono, condição efémera e vazia que, todavia, não dissipa nem a memória nem a História, as quais se coligarão para serem lembradas e escritas no tempo próprio.

 

Vale por dizer cá se fazem cá se pagam, ou que quem com ausência proscreve com ausência morrerá.

 

Sacrificar um velho é o mesmo que darmos corpo ao manifesto que denega o nosso direito à própria existência, posto tratar-se de um auto-de-fé contra a nossa condição de seres humanos.

 

Conceber que um velho é antiguidade em saldo na própria época natalícia, significa que perdemos o direito de nos darmos ao respeito.

 

Desprezar um velho que nos fez gente, a golpes de silêncio e ausência, é crime contra a Humanidade.

 

Sem perdão.

 

O meu pai e a minha mãe são a minha referência, o meu exemplo e a minha chama – alimenta, reconstrói, ilumina.

 

Na pessoa deles, presto homenagem a todos os velhos pais e mães-Natal do pedaço de país que faz o favor de me ler.

 

Bom Natal.

 

Um dia, a gente vê-se.

 

Façam-me, se puderem, dois favores.

 

Na noite de consoada, soletrem este texto aos filhos ou netos.

 

Apaguem as velas, depois.

 

P.S.

 

Morreu, há poucas semanas, a Mifá, Maria de Fátima, sobrinha, 42 anos. Ficam mais pobres o marido e os quatro filhos, fica mais pobre quem lhe conheceu a força, o talento, a coragem, a solidariedade, as partilhas. Fica mais pobre a Justiça terrena. No lugar onde está, foi um encantamento a chegada da senhora Procuradora da República. 

 

Deixámos a meio a nossa conversa sobre o Vinícius de Morais.

 

Isto não fica assim.

 

Até já, Mifá!


Guilherme Pereira - 15-12-2005 09:26

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