|
O Pai Natal existe. É meu pai. Chama-se Guilherme, transmontano, tem 81 anos. A ele e à minha mãe-rena Maria do Céu, devo quase tudo. Nada lhes dei. Só desgostos.
Peço aos leitores que me deixem divagar hoje – não do Natal abstracto e miseravelmente consumista a que muitos se renderam, mas do Natal simples dos homens e mulheres comuns que, nesta quadra, revolvem a carteira em busca do cêntimo final.
Ou, se preferirem, dos velhos algemados à solidão compulsiva a que os condenaram aqueles que tudo são e a tudo ascenderam a crédito dos tempos em que os velhos eram novos.
Descendentes que hoje, no viço da vida, coexistem olimpicamente com o cinismo, a prenda natalícia providencial ou a ausência, ela mesma, acrescida da mais brutal ausência de memória, sinistra fórmula de farpear quem, em instância última, os nossos velhos, já não pode defender-se e baixou os braços.
Penso nos meus leitores velhos.
Penso nos meus pais.
Perante eles me vergo humildemente.
A eles dedico estas linhas, este espaço.
Foram vocês que investiram sacrifícios quantas vezes além da força humana, sofridos em silêncio para que os vossos filhos, netos ou bisnetos fossem o que são hoje.
Alguns, ter-vos-ão despachado para os lares conspícuos onde se chega ao derradeiro varandim todos os dias, à espera do último.
Lugares, afinal, de solidão e miséria em cujas sombras se insinua aquela sujeita vestida de negro que vos contemplará com a morada final mais uma lápide a condizer.
Outros, seguramente mais cínicos, vestiram-se com o escudo da “vida stressada” para vos negar o direito à presença solidária, aos afectos com olhos e dedos de mão amiga, ao murmúrio cúmplice, a uma boa gargalhada.
Estes, seguramente o digo, passarão como cometas na consoada e deixar-vos-ão no colo quinquilharias ou trapos de marca, com um cartão colorido a bolas brilhantes e paleio rançoso – assim se enganarão com a ilusão de que estarão amnistiados da prática de um crime de ausência continuada, não previsto nem punido pelos códigos.
Tudo se paga e apaga, bem vistas as coisas, como se os nossos velhos pais e mães-Natal estivessem condenados à condição de lenha e lixo, ao degredo do abandono, condição efémera e vazia que, todavia, não dissipa nem a memória nem a História, as quais se coligarão para serem lembradas e escritas no tempo próprio.
Vale por dizer cá se fazem cá se pagam, ou que quem com ausência proscreve com ausência morrerá.
Sacrificar um velho é o mesmo que darmos corpo ao manifesto que denega o nosso direito à própria existência, posto tratar-se de um auto-de-fé contra a nossa condição de seres humanos.
Conceber que um velho é antiguidade em saldo na própria época natalícia, significa que perdemos o direito de nos darmos ao respeito.
Desprezar um velho que nos fez gente, a golpes de silêncio e ausência, é crime contra a Humanidade.
Sem perdão.
O meu pai e a minha mãe são a minha referência, o meu exemplo e a minha chama – alimenta, reconstrói, ilumina.
Na pessoa deles, presto homenagem a todos os velhos pais e mães-Natal do pedaço de país que faz o favor de me ler.
Bom Natal.
Um dia, a gente vê-se.
Façam-me, se puderem, dois favores.
Na noite de consoada, soletrem este texto aos filhos ou netos.
Apaguem as velas, depois.
P.S.
Morreu, há poucas semanas, a Mifá, Maria de Fátima, sobrinha, 42 anos. Ficam mais pobres o marido e os quatro filhos, fica mais pobre quem lhe conheceu a força, o talento, a coragem, a solidariedade, as partilhas. Fica mais pobre a Justiça terrena. No lugar onde está, foi um encantamento a chegada da senhora Procuradora da República.
Deixámos a meio a nossa conversa sobre o Vinícius de Morais.
Isto não fica assim.
Até já, Mifá!
|