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Carlos Beato, mandatário por Setúbal de Cavaco Silva

“Cavaco Silva é o melhor candidato para Portugal”


“Cavaco Silva é o melhor candidato para Portugal”

Cavaco Silva “não é um homem de direita, mas de centro”, que “se aproxima do centro-esquerda de José Sócrates” e que é “o melhor Presidente da República para este primeiro-ministro”, defende o mandatário de Cavaco Silva no distrito de Setúbal, Carlos Beato. Cavaco Silva é uma pessoa “simples, austera, rigorosa e que não esqueceu as suas origens”, um homem que “vai honrar os seus compromissos na Presidência da República”, acrescenta.


Carlos Beato salienta ainda “a experiência executiva” de Cavaco Silva e o seu “conhecimento prático do que vale a estabilidade”, afirmando que, “no momento que Portugal atravessa, é preciso um Presidente da República mais interventivo”, que transmita uma postura de “rigor, de exigência e de não-facilitismo” e que, “complementarmente com o primeiro-ministro, possa ajudar a melhorar o país”. Eleito presidente da Câmara Municipal de Grândola pelo PS, Carlos Beato, que diz “agir de acordo com a sua consciência” e apoiar “sem reservas ou hesitação” Cavaco Silva, não acredita numa segunda volta, pois os portugueses “resolverão tudo no próximo domingo”.


Setúbal na Rede – Porque surge como mandatário distrital de Cavaco Silva?


Carlos Beato – Foi através de um honroso e inesperado convite do antigo primeiro-ministro de Portugal, Cavaco Silva, que tem muitas ligações ao nosso concelho, nomeadamente à aldeia mineira do Lousal, e que teve a gentileza de me convidar. Para mim foi um privilégio que não esperava. Sendo eu um homem mais à esquerda e ele mais à direita, em termos ideológicos, não esperava um convite deste género, que me honrou muito, até porque o que está em causa são as pessoas certas para os momentos certos.


SR – Teve de pensar muito antes de aceitar o convite?


CB - Não. Pedi 48 horas para pensar e, depois de fazer a avaliação desse honroso convite, concluí que só tinha que aceitar. Além de que sou um homem de coragem, de valores, de princípios e de regras, como já o demonstrei em momentos particularmente importantes e difíceis, como foi o caso da madrugada libertadora de 1974, em que eu e outros jovens de 20 anos dissemos sim, voluntariamente, ou a minha decisão de aceitar o desafio de me candidatar ao município de Grândola, com a dificuldade que era desalojar do poder uma força política organizada, entroncada e enraizada num certo tipo de população e, como é público, não só ganhei à primeira com maioria absoluta como reforcei agora, e muito, essa maioria absoluta.


Sou um homem de desafios, convicções e que só faz aquilo em que acredita, e acredito que neste momento, e face aos vários candidatos em presença, Cavaco Silva é o melhor candidato para Portugal.


SR – Não temeu consequências a nível do PS, visto ter sido a força que o elegeu para a Câmara Municipal?


CB – Não temi por três razões. Primeiro, porque não sou um homem do PS, o PS não me deve nada e eu não devo nada ao PS. Segundo, porque sempre me habituei a ver no PS um partido de homens livres, tanto que os seus militantes, mesmo quando não pensam da mesma maneira, têm margem de actuação. E em terceiro lugar, porque não fiz nada contra o PS, fiz sim algo que acho importante para a nossa região e para o nosso país. Neste momento, a conjuntura faz com que a avaliação que faço desta situação é que, não só Cavaco Silva será o melhor candidato a Presidente da República, como o melhor Presidente da República para o primeiro-ministro José Sócrates.


SR – Não teme criar um mau estar dentro do PS ao tomar essa opção por Cavaco Silva?


CB – Não sinto isso, aliás, tenho sentido o contrário, tenho sentido uma grande compreensão e até generosidade pela postura deste independente de Abril que tem muita honra em fazer parte das listas do PS no município de Grândola. Naturalmente que nem toda a gente ficou agradada com esta minha posição, mas não pedi autorização a ninguém, porque não faz parte da minha forma de ser e de estar. E o PS também não me devia achar uma figura assim tão importante para este processo, porque nunca me falou de presidenciais até ser público o meu apoio a Cavaco Silva.


SR – Acredita que a sua relação com o PS não será afectada por esta opção e nas próximas eleições autárquicas poderá ser de novo o candidato do PS à câmara?


CB – Não só acredito nisso, como também o desejo. Agora, que nunca se pense que sou pessoa para ser influenciada ou coarctada nas minhas livres escolhas das portas de Abril que ajudei a abrir. Não se conte comigo nessa perspectiva. Sou uma pessoa leal, séria e frontal, mas não contem comigo para ser um ‘yes man’ ou um ‘yes PS’, porque isso não faz parte do meu perfil.


Espero, desejo e é isso que penso que virá a acontecer. A minha decisão não foi coincidente com a do PS, mas é aquela que a esmagadora maioria do povo português vai tomar no dia 22. Eu não fiz mais do que aquilo que a minha consciência indicava, como tenho sempre feito na vida e como fiz quando ninguém acreditava que era possível ganhar a câmara de Grândola.


Também não penso isso, pois ainda esta semana, o primeiro-ministro veio a Grândola, a propósito daqueles mega-empreendimentos e felicitou-me pelo trabalho que tenho vindo a fazer à frente do município, dizendo publicamente, o que em muito me gratificou, que fiz bem em não desistir deste processo e destes projectos, porque o município de Grândola tinha razão.


Isto foi dito em público e isso é que me interessa, pois estou pelo desenvolvimento, pelo progresso, pelas oportunidades e também pela lealdade e, já que falamos em lealdade, saliento que a minha decisão não foi feita às escondidas de ninguém. Antes de tomar esta minha decisão e dar esta resposta tive o cuidado de avisar as pessoas do PS com quem mais me relaciono, os deputados do Litoral Alentejano, os deputados da federação de Beja, o elemento da federação do PS que faz a ligação ao Litoral Alentejano, o presidente da concelhia do PS em Grândola e os governadores civis de Setúbal e de Beja.


Eu sou um homem de Abril, da liberdade e da transparência, portanto, também o que fiz foi, não só de acordo com a minha consciência, mas também com as regras que penso que devem existir no jogo democrático.


SR – Qual a reacção dessas pessoas do PS?


CB – Algumas manifestaram compreensão por esta minha decisão, que é uma decisão de um homem livre e que não tem de obedecer a estratégias político-partidárias. Houve uma ou outra pessoa que me fez sentir a sua tristeza e que gostava que fosse outra a minha decisão, mas eu não sou pessoa para tomar decisões contra a minha vontade e muito menos contra a minha consciência.


SR – E a sua consciência indica que o candidato oficial do PS não é a pessoa indicada para o cargo de Presidente da República?


CB – Não está em causa a figura de Mário Soares, que é uma personalidade de Portugal e do Mundo, que muito estimo, muito considero e muito apoiei. Aliás, fui das poucas pessoas desta região que estive na comemoração dos 80 anos de Mário Soares na FIL, quando ele disse que ‘política basta’.


Não está em causa a avaliação que faço dessa grande figura dos tempos do Portugal amordaçado, da liberdade, da democracia e da luta. Nada disso está em causa, nem o respeito que tenho por essa grande figura da democracia de Portugal. O que está em causa é que acho que o candidato que o PS escolheu oficialmente para este momento difícil e sensível da vida política portuguesa não é o candidato que esteja nas melhores condições para ajudar Portugal e os portugueses a ultrapassar esta crise.


Prova disso é o grande equilíbrio que há entre as candidaturas de Mário Soares e Manuel Alegre, dois combatentes da mesma área, companheiros de mais de 40 anos, pelo que não me agradou, e se calhar até pesou um pouco na minha decisão, o facto de apresentarem candidaturas separadas e, por isso, não me revejo de facto na escolha que o PS fez para as eleições presidenciais. Considero que, para este momento e para esta situação, sem pôr em causa toda a sua figura, Mário Soares não é a pessoa indicada.


SR – Que condições entende que um candidato a Presidente da República deve reunir?


CB – Portugal está a atravessar uma situação das mais difíceis desde 1974 E, do meu ponto de vista, é preciso alguém com experiência e com domínio de dados sectores na nossa vida sócio-económica e política, como é o caso, na minha opinião, de Cavaco Silva. É preciso alguém que transmita uma postura de rigor, de exigência, de não-facilitismo, ou, como Salgueiro Maia costumava dizer, de não ‘nacional-porreirismo’, porque o país não está em condições de vir a sustentar o contrário.


Do meu ponto de vista, é necessária uma figura com sentido de austeridade, contenção, um certo equilíbrio e com sentido de estabilidade. Cavaco Silva sabe muito bem quão cara é aos governos e aos países a estabilidade, porque quando foi primeiro-ministro soube bem o quão difícil foi equilibrar um relacionamento a esse nível com a Presidência da República, nomeadamente na segunda parte do mandato de Mário Soares.


Quando Cavaco Silva fala de estabilidade e do que isso significa, acredito de forma plena e comprometida, que vai honrar na Presidência da República os seus compromissos, mas também acredito, como algumas pessoas dizem, que certos sectores do PSD podem sentir-se tentados a pressionar o Presidente da República.


Aquilo em que me revejo é em tudo aquilo que Cavaco Silva tem anunciado a Portugal e aos portugueses e também no seu passado histórico de pessoa simples, austera e rigorosa que não se esqueceu das suas origens.


SR – Não teme que Cavaco Silva possa ser uma força de bloqueio ao Governo e que possa criar problemas de instabilidade institucional?


CB – Sinceramente, acredito que Cavaco Silva jamais será um presidente para fazer fretes a quem quer que seja, nem que seja o PSD.


SR – Como vê a crítica de que as competências técnicas de Cavaco Silva não são relevantes para o cargo de Presidente da República?


CB – Não estou de acordo com essa forma de abordar a questão, pois o Presidente da República pode ter várias nuances para o exercício da sua magistratura. Penso que, neste momento que Portugal atravessa, é preciso um Presidente da República mais interventivo, dentro das suas competências constitucionais. Alguém que consiga dinamizar, articular os diversos sectores da sociedade, sejam eles os parceiros sociais, os partidos políticos, os diversos órgãos de soberania ou o próprio Governo, no sentido de, em conjunto, poder haver uma convergência estratégica de conversão, para que se ultrapassem com sucesso as dificuldades em que estamos imbuídos, que não são poucas, e que todos em conjunto não somos demais para as conseguir ultrapassar.


Obviamente que o Presidente da República, que é o presidente de todos os portugueses e de Portugal, tem responsabilidades acrescidas sobre essa matéria, pois estamos num momento de crise, de impasse, em que as famílias estão com um endividamento superior a 100% e, portanto, não se pode continuar a assobiar para o lado como se nada disto fosse com cada um de nós.


Cada um tem as suas potencialidades e competências constitucionais, mas acredito que um homem com a experiência executiva de Cavaco Silva, que teve a experiência do que vale a estabilidade, e com um primeiro-ministro como José Sócrates, que já demonstrou que não põe em causa o resultado do seu partido nas autárquicas quando está em causa Portugal, acredito e desejo que, complementarmente, podem ajudar mais e melhor o nosso país.


SR – Será que Cavaco Silva e José Sócrates têm o mesmo entendimento sobre o que é governar bem o país, estando em campos opostos na política?


CB – Cavaco Silva é um homem com uma grande visão social, que não é um homem de direita, mas de centro, que eu acho que se aproxima muito da clareza, franqueza e frontalidade do centro-esquerda de José Sócrates. Já o pensava no tempo de António Guterres, até porque sempre considerei que Cavaco Silva e António Guterres não estavam muito distantes um do outro, no que toca às preocupações sociais.


Estou convencido que não é por essa questão do mais à direita ou do mais à esquerda que Cavaco Silva, se for eleito Presidente da República, e o actual primeiro-ministro deixarão de servir melhor Portugal.


SR – Mas como explica que uma pessoa que sempre se assumiu de esquerda, tendo cinco candidatos à escolha, decida apoiar aquele que é o único candidato de direita?


CB – Dos seis candidatos, uma coisa é a dialéctica, outra é a teoria e outra ainda é o que cada um deles pode efectivamente fazer pela nossa pátria. Não tenho qualquer relutância em dizer que, depois do professor Cavaco Silva, em quem aposto para Portugal face às circunstâncias e condicionalismos actuais, o candidato que trago na alma é Manuel Alegre.


SR – Se se concretizar uma segunda volta que oponha Cavaco Silva a Manuel Alegre vai estar mais dividido?


CB – Não. Sou um homem de coerência, princípios e convicções, e não acredito que haja segunda volta. Acredito, considero e desejo que os portugueses, que já desde o 25 de Abril deram grandes lições de lucidez e discernimento político e de grande sentido cívico, resolverão tudo no próximo domingo. Mas se ficar para uma segunda volta, porque “o povo é quem mais ordena”, eu continuarei a apostar no candidato Aníbal Cavaco Silva.


SR – Reconhece que numa segunda volta as hipóteses serão mais reduzidas para Cavaco Silva?


CB – Continuo a acreditar firme e convictamente que o povo português vai escolher Cavaco Silva para Presidente da República de Portugal.


SR – O que espera do eleitorado do distrito de Setúbal, tradicionalmente mais de esquerda?


CB – Acho que este eleitorado está dividido. Não é um assunto fácil, mas não seria a primeira vez que Cavaco Silva ganharia no distrito de Setúbal e acredito que, com todos os projectos e perspectivas que estão sobre a mesa, arrisco-me a dizer que no próximo domingo o distrito de Setúbal vai optar pela figura do professor Cavaco Silva para ser o próximo inquilino de Belém.


Pedro Brinca e Cláudia Monteiro - 20-01-2006 09:35

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