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• 02-02-2006 •
Assento Parlamentar (BE)
por Daniel Arruda
(Membro da Coordenadora Concelhia do Bloco de Esquerda Seixal)


Justiça



Dizia no editorial do jornal “Público” na sua edição de 2ª Feira, dia 30 de Janeiro, para justificar a existência das escutas que certo tipo de crimes não teria forma de ser provado se não fosse desta forma e deu como exemplo o caso do Carrefour do Seixal. Ora não sei eu, e penso que nenhum munícipe do Seixal sabe, com excepção dos envolvidos que tipo de crime houve ali, se é que se confirma a existência de crime, que justificasse um sistema de escutas, mas o que sabemos agora é que o caso não é exactamente como foi descrito pelo Presidente de Câmara Alfredo Monteiro, ou seja um caso sem importância que seria resolvido com o tempo.


Aos poucos começo a vencer a natural desconfiança, sentimento comum à maioria dos portugueses quando se fala de justiça, de que a justiça ás vezes até funciona.

 

Soubemos ontem que o início do julgamento do caso de Entre-os-Rios foi marcado para dia 19 de Abril e ficámos também a saber nesta semana que o caso apito dourado vai a julgamento. É pouco mas já é alguma coisa. Agora só falta saber é se a montanha vai parir um rato ou se ao invés vamos ser esclarecidos sobre realmente se passou.

 

Mas estes factos não me impedem de ter uma visão crítica sobre o funcionamento da justiça, visão essa cada vez mais marcada pelo consulado de Souto Moura à frente da Procuradoria da República e que teve o seu ponto mais alto no caso do “envelope 9”, que como se sabe é relativo ao registo e controle de chamadas telefónicas de pessoas que nada têm a ver com o processo em questão.

 

Mas como sou um optimista por natureza tento extrair de todos os acontecimentos ou factos algo positivo e neste caso não foi particularmente difícil. Na discussão que se gerou sobre a objectividade e justeza das escutas telefónicas houve um facto que me chamou á atenção.

 

Era nesta altura importante que a C.M. Seixal viesse dar explicações públicas sobre o que já foi dito e escrito sobre este caso, sob pena de acharmos que existem mesmo rabos de palha.

 

Mas, justiça não é só a que se pratica nos tribunais. Há também a justiça social, a justiça para com o próximo, ou seja o respeito pelo próximo. Vem este caso a propósito do caso de Teresa e Helena, duas mulheres que apenas buscam terem os mesmos direitos que eu tive quando me casei, apenas querem ser reconhecidas na sociedade como cidadãos de 1ª e não de 2ª.

 

Ontem por causa disso ouviram-se as maiores barbaridades sobre este tema, (já sei que haverá quem verá na expressão barbaridade, intolerância da minha parte, e quero confirmar, sim sou intolerante quando os direitos do ser individual não são respeitados), mas hoje gostava de falar apenas de um conceito. O de minoria. Tenho de confessar que a doro a expressão minorias.

 

Especialmente quando andam nas bocas de certos tipos, como o Nuno Melo, do PP, por exemplo. Ele que está num grupo parlamentar eleito com cerca de 415000 mil votos, mais coisa, menos coisa. Este senhor chama a si a responsabilidade de falar de maioria quando ele é uma minoria dentro das minorias.


 

Disse o dito senhor que não se vai mudar os costumes de uma população por causa de uma minoria de pessoas que até querem ter direitos. Ora o que é verdade, e fazendo fé num estudo do DN e outro da Visão 1 em cada 9 portugueses/as têm tendências homossexuais incluindo nesse grupo os bissexuais, obviamente.

 

Partindo o princípio que toda a gente foi honesta ao responder, o que duvido porque há pessoas que nem na confidencia admitem uma coisa destas, podemos concluir que há em Portugal cerca de 1500000 (um milhão e quinhentos mil) cidadãos com tendências homossexuais, ou seja, mais do dobro das pessoas que o elegeram a ele e ás ideias que representa. ou ainda de outra forma 1500000 pessoas que podem querer celebrar o contrato de casamento.

 

A dúvida que eu coloco aqui é tão somente esta:
Quem é este senhor Melo para vir dar lições de minorias ou maiorias? Ainda gostava que um jornalista lhe colocasse esta pergunta.

À hora a que escrevo este texto ainda não se sabe qual a decisão do Conservador, mas calculo que seja negativa. Se não for, que se faça a festa por esse avanço civilizacional, se realmente o conservador decidir que não pode celebrar o contrato de casamento é chegada a hora de se deixar os punhos de renda e partir para o combate.

 

No Parlamento, nos tribunais, na sociedade civil, em todo o lado e em força. As lutas não foram feitas para se perder. O Bloco de Esquerda foi o único partido que tomou uma posição clara sobre o assunto, não se refugiando num ambíguo, “isso não é prioritário”, ou “tem de ser uma questão que deva ter um amplo consenso nacional”. Já deu, (o BE), juntamente com as associações LGBT que resolveram apoiar a decisão de Teresa e Helena, o passo mais importante para resolver esta questão. Introduziu-se o tema na agenda política para se fazer o debate. Tal como sempre prometemos.

Daniel Arruda
algodiferente@iol.pt

 

 


Daniel Arruda - 02-02-2006 12:40

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