|
Dizia-me ontem um amigo que Portugal é um país de opereta. Não podia estar mais de acordo. O país do faz de conta. Faz-de-conta que há retoma, Faz-de-conta que o desemprego diminui, Faz-de-conta que o investimento aumenta, Faz-de-conta que não há conflituosidade laboral, Faz-de-conta que se tomam medidas, Faz-de-conta que as medidas são justas e eficazes, Faz-de-conta a justiça funciona, Faz-de-conta que se resolvem os problemas da saúde, Faz-de-conta que se educam as nossas crianças, Faz-de-conta, Faz-de-conta, Faz-de-conta.
Vejamos o que nos ocupa a mente ou dito de outra forma com o que nos entulham a mente de forma a que onde quer que vamos ouvimos sempre as mesmas conversas. Vejamos dois exemplos:
Bil Gates veio a Portugal e durante quase uma semana não se falou de outra coisa. Nos cafés, “já viste o Bill Gates? O gajo trouxe para cima de 30 seguranças”. Nos Cabeleireiros, “ Acho que o Bill Gates devia cuidar mais da sua imagem”. Nos bancos “se ainda fosse para vir aqui e ter uma conta bancária como a do Bill Gates”.
No Trabalho “anda para aqui um gajo a trabalhar para encher os bolsos a meia dúzia” ou ainda a versão mais de escritório, “não me basta olhar para o produto dele todo o dia que ainda tenho de ouvir falar dele” ou ainda na papelaria onde se entrega o Euromilhões “ Agora é que vou saber como é viver como o Bill Gates”.
No parlamento da nação local por excelência para se resolver os problemas do país, o que se discutiu? Bill Gates? Sim mas não só. Mas o que nos chegou aos ouvidos das discussões e debates do parlamento. A importância de Bill Gates e da Microsoft no Plano Tecnológico, os protocolos que foram assinados e as críticas de quem acha que as contrapartidas não estão bem explicadas.
O Grupo Sonae lançou uma OPA sobre a PT. Desde aí tem sido o tema do dia. Ou melhor dos dias. Ele é o BES e a Telefónica que vão lançar contra OPA’s, depois não vão, depois é só o BES, volta a não ser nenhuma delas para depois ser a Telefónica para depois se saber que afinal não era assim. Discute-se o papel da France Telecom no meio de tudo isto, se apoiam a iniciativa de um grupo do qual são accionistas de referência, se não apoiam, se concordam ou não concordam.
Fazem-se inquéritos de rua onde toda a gente parece perceber muito de macro economia, dedicam-se fóruns á discussão na rádio onde se fala de 11 mil milhões de euros, de acções, de mais valias, de cash flow, de Golden Shares para a seguir se falarem de acções douradas, de ratios, de quotas de mercado, de legislação europeia anti concorrência. Fala-se ainda da pujança da nossa economia, agora sim em franca retoma, dizem eles.
Discute-se a fortuna de Belmiro de Azevedo e rejubila-se com o facto de ele poder entrar nos 60 mais ricos do mundo, mas não se pergunta se a declaração de rendimentos dele é justa quando comparada com a minha ou de qualquer outro assalariado.
Mas será que o país se resume a isso? Será que as pessoas só estão receptivas a isso? Não. As pessoas são consumidoras de informação e consomem o que lhes dão, no “Destaque” ou no “Metro” e uma pequena minoria no “DN” ou no “Público” e uma minoria ainda menor no “Expresso”. Evito referir o telelixo produzido pela RTP, SIC e TVI no que a informação diz respeito. É mau de mais.
Porque será que não falamos no projecto-lei que foi apresentado no parlamento pelo BE de modo a tornar justas as compensações por incapacidade permanentes geradas por acidentes de trabalho ou doenças profissionais, que actualmente é altamente gravoso para todos aqueles que infelizmente sofrem de limitações físicas.
Porque não se fala com o mesmo destaque das lutas dos profissionais da polícia que têm sido descriminados pelo governo mas que todos os dias continuam a desempenhar a sua missão. Porque não se fala das pseudo negociações sim que mesmo pseudo concertação social seria abusivo para o que se está a passar, entre o Governo e os sindicatos de modo a começar a repor hoje o poder de compra perdido pelos portugueses ao longo dos últimos 10 anos. Porque não se fala das propostas que têm aparecido no parlamento, nomeadamente do BE, para a reforma da justiça, visando o seu melhor funcionamento.
Podia estar aqui a escrever páginas a fio de assuntos votados ao esquecimento e á “ignorância” dos cidadãos portugueses, tudo em nome do interesse da notícia, mas na realidade o que as forças dominantes querem mesmo é manter-nos desinformados, ignorantes, desinteressados e desmotivados da vida política.
Será que lhes vamos dar essa vitória? Ou vamos relembra-los que não nos esquecemos do que queremos e do que merecemos enquanto cidadãos? Nunca entre a espada e a parede, a melhor opção foi a parede. Não me parece que seja desta vez.
|