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• 15-05-2000 •
Assento Parlamentar (PCP)
por Jorge Pires
(Membro da Comissão Política do PCP)


As verdadeiras causas do apagão


Na noite da passada terça feira, meio país ficou às escuras em resultado de um grave incidente eléctrico. O anormal nesta situação, não está no facto de ter havido um curto- circuito e por esse facto um corte de corrente. Todos os anos acontecem várias situações destas nas várias linhas de transporte de energia em alta tensão, mas as suas consequências não são quase sentidas pelas pessoas, porque delas resultam apenas pequenas interrupções no fornecimento da energia. Desta vez a situação foi bem mais grave, com algumas zonas, nomeadamente na grande Lisboa, a ficarem completamente às escuras durante mais de 2 horas.


Como acontece sempre nestas situações e após o tempo necessário para encontrar uma explicação para o sucedido, surge um porta voz da empresa a dizer que a causa do incidente foi a electrocussão de uma cegonha, por sinal uma ave bem simpática que recorre frequentemente aos postes de alta tensão para fazer os seus ninhos, por falta de alternativa melhor. Mais tarde vieram as explicações complementares, as quais só convenceram os mais desprevenidos, para as sucessivas falhas em vários equipamentos, nomeadamente um disjuntor na subestação de Rio Maior. Também o Governo, não ignorando que o estado é o principal accionista da empresa, procurou de imediato lavar as mãos como Pilatos, anunciando a instauração do tradicional inquérito, que nunca ninguém chegará a conhecer as respectivas conclusões.

 

Não é pois de estranhar, as manifestações de preocupação e indignação vindas de toda a parte, nomeadamente sobre as possíveis consequências deste tipo de incidentes, se eles se vierem a verificar com mais frequência. Que garantia de segurança têm os portugueses, quando uma ave provoca um incidente, que quebra a coluna dorsal do sistema eléctrico português?

 

Sem procurar ser alarmista, creio que os portugueses não têm razões nenhumas para ficarem descansados, quando se sabe que as verdadeiras razões de metade do país ter ficado tanto tempo às escuras, não estão na cegonha, mas noutros « passarões», que são os responsáveis pelas políticas de gestão de uma empresa estratégica para o país, que tal como outras, é hoje gerida em função da obtenção do lucro máximo e rápido, e não de acordo com os interesses do país e dos portugueses.

 

É urgente que o ministério da economia esclareça, se é ou não verdade que a E.D.P., que tem tido lucros nestes últimos anos na ordem das centenas de milhões de contos, têm uma política de restrições nos gastos com a manutenção e conservação da rede e equipamentos?

 

Mas também deve o ministro da economia esclarecer os portugueses, como estavam a funcionar as centrais termoeléctricas no Sul do país, as quais deviam constituir uma alternativa nesta região ao abastecimento hidroeléctrico vindo do Norte?

 

E também como é que se justifica, que a ligação Norte Sul se faça apenas por uma única linha, precisamente aquela onde se deu a avaria?

 

Mantendo-se este modelo de gestão, que prioriza o economicismo em detrimento do interesse público, e avançando-se como já foi anunciado, para uma nova fase da privatização da empresa, colocando nas mãos dos privados a maioria do capital social da empresa, reforçam-se as possibilidades de que no futuro situações destas e outras ainda mais graves, possam vir a acontecer. Pelo que possa acontecer no futuro, não podemos deixar de responsabilizar a administração da empresa, mas principalmente o Governo como principal responsável pelo que se passa na E.D.P..


Jorge Pires - 15-05-2000 15:42

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