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• 14-03-2006 •
Sociedade
por Ricardo Martinez
(Sociólogo)


Da Globalização à “GloCalização”: Dos fenómenos à escala planetária aos problemas quotidianos da nossa rua.


A temática da Globalização passou a estar implícita e presente na quase totalidade dos nossos actos quotidianos, embora nós, na Europa, em países mais ou menos industrialmente desenvolvidos, só tenhamos tido consciência da mesma quando os noticiários e os boletins económicos nos bombardearam com as notícias alarmantes da crise, do desemprego, da violência, da guerra ou mesmo das redes transnacionais de delinquência e terrorismo.


Foi, contudo, a situação económica concreta de cada país e o que isso passou a implicar na vida de milhares de trabalhadores, não apenas operários e trabalhadores agrícolas mas também do sector de serviços, que se viram com surpresa forçados a perder o seu trabalho e para alguns em particular os seus empregos, até há bem pouco aceites como definitivos, o que chamou mais a atenção das populações europeias para a temática da Globalização.

 

O desemprego e o consequente arrastamento de famílias inteiras para o desespero de uma vida de sobrevivência, muitas vezes a poucos anos de uma reforma sonhada e até agora protegida por um “estado de bem-estar”, também ele apanhado na crise e em situação de ruptura económica e financeira, chamaram a atenção generalizada para o efeito “Localizado” da Globalização.

 

Lina GAVIRA Alvarez (*) mostra-nos como a Globalização tem vindo a ter uma influência diária, permanente, no condicionamento do desenvolvimento regional, na vida das pessoas concretas, e como essa influência poderá ser extremamente negativa para alguns estratos populacionais, com particular incidência nos grupos mais desfavorecidos sócio -economicamente, culturalmente menos integrados, afectando em particular as mulheres, independentemente da classe a que estas pertençam.

 

A autora define os conceitos de “Globalização” e de “GloCalização”, analisando o contexto das mudanças provocadas a nível local, quer estas sejam ambientais, de lugar, de tempo, de características de trabalho, de condições de emprego e desemprego, focando o caso particular da Andaluzia, mas com uma lógica que poderá ser transposta, com as devidas aproximações, para qualquer outra realidade local.

 

Por isso, em geral, a Globalização é vista como um “ progresso técnico com exclusão ”, reconhecendo-se que as políticas sociais adoptadas pelos governos terão implicações gerais no planeamento territorial e nos processos de descentralização do poder, e particularmente em campos como a gestão do desemprego e a luta contra a exclusão, sendo evidentes as estreitas relações existentes entre o trabalho, as políticas e a qualidade de vida dos cidadãos.

 

Para vários especialistas, é inevitável que a resistência contra os aspectos mais nefastos da globalização, implique activamente as populações, numa perspectiva de intervenção baseada nos princípios da “ ecorresponsabilidade ” e do “empowerment”.

 

Estes princípios, pressupõem quer a compreensão da interdependência existente entre os processos ecológicos (ambientais naturais), económicos, sociais e políticos, quer a articulação da intervenção e da participação social, consubstanciadas na necessidade dos indivíduos se assumirem como cidadãos, conscientes dos problemas que os afectam e preparados para se pronunciarem e intervirem sobre os mesmos.


(*)Lina Gavira Alvarez é professora na Universidade de Sevilha e consultora de vários projectos da Comunidade Europeia adoptados na Região de Andaluzia, Espanha. O seu livro “ Andaluzia sobrevivendo na Globalização – Trabalho, mudanças institucionais e estratégias de resistência” , faz parte da Colecção Andalucía XXI, editorial Mergablum, Sevilha (2002).


E é aqui que o fenómeno da Globalização toma diferentes nuances, dependendo de região para região e de país para país.

 

Todos reconhecemos que em virtude do efeito “globalização” a vida económica e social se alterou quer no nosso país, quer a nível planetário. Todos reconhecemos que a “crise económica” se instalou em termos globais. Contudo, existem diferentes atitudes perante a tão propalada crise.

 

Por um lado, vemos países que há bem pouco tinham índices de desenvolvimento e de nível de vida abaixo do nosso, enfrentavam situações sociais graves, mas que agora nos ultrapassaram.

 

Contudo, não é necessário ir à Escandinávia e analisar os processos adoptados pela Finlândia, nem visitar a Grã-Bretanha e descobrir as potencialidades renovadas da “Irlanda”. Bastará atravessarmos o nosso país e observarmos o que se passa aqui ao lado na nossa vizinha Espanha.

 

Em comum, todos esses países privilegiam a protecção de sectores como a Educação, a Saúde, a Cidadania, a Formação profissional e pessoal.

 

Por isso, nestes países a Educação é gratuita, praticamente a todos os níveis, incluindo a de nível superior; a Saúde dos cidadãos, activos e não activos, é uma preocupação dos governantes e por isso é acessível a todos; a opinião dos cidadãos é ouvida e respeitada objectivamente, quer pelo respeito dado às instituições geridas ou participadas pelos cidadãos, as associações, as mutualidades, as cooperativas, as empresas, quer pelo respeito que merece a comunicação social local.

 

Em contraposição, no nosso país, através de uma “via original e única” para o pressuposto desenvolvimento, a educação é maltratada, desrespeitada, esquecida, enquanto factor de desenvolvimento; a saúde é apenas e cada vez mais acessível aos cidadãos que têm recursos económicos; a cidadania é conceito desconhecido por governantes e “políticos”; a comunicação social objecto de exercício de poder.

 

Concretamente, verificamos que são fechadas escolas, são transferidos alunos de uma escola para outra sem o conhecimento dos próprios pais, mantém-se o desrespeito pelas opiniões dos professores, mantendo-se o funcionamento de um sistema que promove o insucesso de quase metade da população escolar e a exclusão dos alunos mais problemáticos, quase sempre os mais necessitados de apoio, tudo isto motivado pela ausência de uma reforma educativa que tem pelo menos 30 anos de atraso; os medicamentos necessários para a garantia de um mínimo de qualidade de vida de alguns idosos têm custos proibitivos, e por isso muitas vezes acabam por não ser adquiridos ou tomados de forma menos adequada… para que possam durar; as instituições de cidadãos são sufocadas quer pelo peso da burocracia e das exigências legais existentes, como é o caso dos cidadãos ou de movimentos de cidadãos quando se apresentam como independentes a actos eleitorais ou pelas poucas vantagens e apoios económicos de que podem usufruir, caso das associações culturais e desportivas, nelas incluindo as de jovens; a comunicação social regional vive “apertada” entre as condições objectivas de sobrevivência e as pressões ou facilidades de grupos económico / políticos locais, os cidadãos são relegados para o esquecimento nas próprias reuniões municipais podendo intervir no final das mesmas já a altas horas da madrugada, depois de ouvirem eleitos falarem muitas vezes do que não conhecem, não viveram nem estudaram; a formação profissional é orientada mais de acordo com os interesses de uns quantos, nomeadamente se envolve apoios comunitários…, não sendo levado em conta nem os interesses do próprio país e suas necessidades objectivas de concorrência, o interesse dos próprios formandos, nomeadamente dos mais carenciados ou necessitados de enquadramento ou mesmo os interesses dos empresários.

 

Portanto, discursos de moralização e de optimismo por parte dos governantes não passam de demagogia, visto que o progresso terá de andar de mãos dadas com a justiça social e isto só se atinge não por palavras mas por actos. A saída da crise, que parece só existir para alguns… só se fará quando todos partilharem das soluções a tomar, quando os sacrifícios forem partilhados por todos, o que de momento não parece acontecer.

 

Não se trata de optimismo ou pessimismo mas de pragmatismo. O Portugal dos cidadãos comuns é o do número crescente de desempregados sem horizonte de emprego mesmo reciclado, em novas empresas; o do número crescente de alunos mal preparados para continuarem os estudos ou mesmo uma formação profissional adequada, se esta porventura existisse; o dos idosos que após uma vida de trabalho encaram cada dia como uma prova de sobrevivência; o dos empresários que vêm como saída para a burocracia portuguesa irem registar a sua empresa em Espanha; o dos jovens sem futuro, sem escola nem formação dedicando-se a vários “negócios subterrâneos” ou a estilos de vida pouco saudáveis, de que são exemplo o crescente número com problemas de consumo de ecstasy, haxixe ou álcool.

 

Por outro lado, o Portugal dos números e das estatísticas independentes, ao contrário da demagogia dos políticos, diz-nos que o despesismo inútil dos aparelhos do estado e partidários, a má gestão das empresas públicas, acrescidas à falta de estruturas e de organização básica, proporcionaram que entrássemos, sem grande surpresa, no grupo de quatro países que menos crescimento económico verificou no último ano, partilhando Portugal com as Guianas, as Seicheles e o Zimbabué a cauda dos 200 países analisados.

Isto é pragmaticismo, o resto é conversa.

 

Para alterar esta situação, é preciso mudar a mentalidade de todos: cidadãos e governantes e permitir que a discussão dos problemas seja assumida como de interesse colectivo, partilhada pelo cidadão comum, discutindo este os seus problemas, sendo parte interessada na solução dos mesmos. Como referi no início, a globalização continuará.

 

Era previsível há uns anos e o nosso país não tomou antes nem agora as medidas mais adequadas para lhe fazer frente. Muitos países prepararam-se e nesta preparação trataram de reduzir as desigualdades sociais, de garantir as condições básicas de qualidade de vida e de participação dos cidadãos. Avaliaram as estruturas do estado, fizeram opções de fundo e de interesse comum. É disso que temos falta. Se nada disto fizermos, as “viagens de estudo” aos países que nos ultrapassaram nos últimos anos, transformar-se-ão em simples viagens de turismo, onerando ainda mais as nossas já débeis finanças públicas.


Ricardo Martinez - 14-03-2006 10:31

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