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• 27-03-2006 •
Provedor de Leitor
por Alberto Pereira
(Provedor de Leitor)


A gralha cresce na creche


O título, aparentemente enigmático da crónica de hoje, tem a ver com o “terror” de qualquer jornal, a gralha tipográfica.


Este simpático e barulhento pássaro, sempre irrequieto e saltitante, tem sido, ao longo dos séculos, um inimigo dos tipógrafos desde a tipografia a chumbo aos novos métodos de composição em computador. No entanto não confundir gralha com erro. A gralha é involuntária, obra do acaso ou da distracção, enquanto o erro é por ignorância. Assim trocar “haverá” por “haverão” é um erro e não uma gralha. Como o nosso jornal é feito por pessoa não está ao abrigo de periodicamente ser alvo do poiso de uma ou outra gralha. Foi o que sucedeu na semana passada.

 

No dia 20 de Março o "Setúbal na rede" noticiou, em primeira página, “Cáritas inaugura cresce”. Depois, na notícia, novamente a arreliadora gralha do “cresce” lá aparecia. No entanto, logo a seguir, o primeiro parágrafo da notícia era claro quando dizia “A Cáritas de Setúbal inaugurou o seu mais recente projecto, a ampliação e remodelação da creche “O Cogumelo”.

 

 Tratava-se de uma gralha clássica, a omissão ou troca de letras numa palavra. O provedor por acaso estava a ler o Setubalnarede, e na altura logo enviou um E-mail à redacção a comunicar a situação .Outros leitores também o fizeram e em poucos minutos a redacção rapidamente repôs a verdade pondo em debandada a atrevida gralha. Vantagens de um jornal online.

 

As gralhas, no tempo de impressão a chumbo, em que a composição era manual, tipo a tipo, eram vulgares e mais tarde, quando a composição passou a ser feita por máquinas, como o “linotype” ou o “monotype”, o problema agravou-se no sistema “linotype” pois este compunha uma linha completa e uma gralha obrigava a inutilizar toda a linha. Mas o problema mais temido na tipografia era o “empastelamento”, quando dois granéis de notícia se misturavam e davam uma nova notícia híbrida e normalmente hilariante mas comprometedora. Com os novos processos de composição a gralha continuou sempre presente pois atrás de qualquer máquina está sempre um ser humano com todas as virtudes e defeitos inerente.

 

A história da imprensa está recheada de gralhas, mais ou menos célebres, que fizeram história. Algumas delas, entre milhares, vamos relatar aos nossos leitores.

 

Começamos pelos colchões de molas. Nos anos sessenta o “Diário de Notícias”, de Lisboa, de vez em quando publicava um pequeno anúncio de uma loja em Lisboa que vendia “colchões de molas”. Um dia uma gralha poisou na palavra colchões e retirou o “c”. Imagine-se a frase que foi publicada… Interessante que também num jornal brasileiro, o “Correio Popular”, que nos anos setenta publicava anúncios de uma fábrica de colchões, um dia em lugar da frase “o melhor colchão da praça ” lá caiu o “c” e ficou uma frase verdadeiramente sensacional.

 

Aliás o assunto das gralhas já vem de longe pois nos primeiros anos do século XX, quando a rainha D.ª Amélia se deslocou um dia para fora de Lisboa, o austero “Diário de Notícias” noticiou que “sua alteza, a bainha D.ª Amélia”. No dia seguinte o jornal apressou-se a rectificar o engano e então publicou uma rectificação dizendo que “sua alteza, a tainha Dª Amélia”. Claro que já não foi publicada mais nenhuma rectificação sobre a visita da rainha. A família real portuguesa foi objecto de uma outra gralha que atingiu o rei D. Luís. Um jornal de Lisboa, que já não tenho de memória, sabendo que o rei estava adoentado e já se encontrava melhor publicou uma notícia que dizia “ sua alteza o rei D. Luís, que se encontrava doente, já ontem experimentou sensíveis senhoras “. Uma gralha alterou “melhoras” para “senhoras”.

 

Em Setúbal, há cerca de vinte anos, o restaurante “Isidro dos Frangos”, ainda nas primitivas antigas instalações, encomendou a uma tipografia livros de facturas para os almoços. A factura no final tinha uma linha para o total onde deveria estar escrito “Soma”. Pois é, o pior é que ficou escrito “Sopa”. Os clientes mais atentos reclamavam, em ar de graça, que além de pagarem a sopa duas vezes e segundo pagamento era muito elevado para uma sopa… Não houve outra solução senão gastar-se até ao fim a encomenda dos livros de facturas e ir dando desculpas humorísticas aos clientes.

 

A gralha é tão inevitável na composição que a Bíblia católica, na chamada edição dos Capuchinhos, que foi lançada em 1998 em Portugal, sofreu seis revisões. Pois passado pouco tempo a primeira edição foi revista por vários leitores e ainda foram encontradas algumas gralhas.

 

Mais modernamente todos se devem ainda lembrar do célebre “ Relatório da comissão de análise da situação orçamental”, conhecida como Comissão Constâncio, que foi publicado em Julho de 2005. Tinha alguns mapas financeiros cujos totais não estavam certos com a soma das respectivas parcelas. Um dos quadros das receitas continha o total de 253 milhões de euros mas as parcelas todas somadas apenas davam 151 milhões de euros. Mas no fundo, mais milhão menos milhão tudo passou e , como é habitual em Portugal, ninguém foi responsável por tal engano de mais de uma centena de milhões de euros.

 

Modernamente nota-se que a imprensa dá mais erros e menos gralhas. Um dos erros habituais é o corte abrupto de notícias. Isto é, o espaço para a paginação não é suficiente e o computador corta parcialmente a notícia na parte final, e nem o redactor nem o revisor se apercebem do sucedido. Os erros, além dos gramaticais, normalmente observam-se com mais frequência quando se trabalha com números e com notícias científicas, onde a ignorância é muito contemplada. Por exemplo trocar vírus por bactéria, chamar insectos aos aracnídeos, trocar a causa pelo efeito, etc.

 

No dia 24 de Março, por exemplo, a circunspecta agência Lusa distribui um despacho com o título “Espécies vegetais ameaçadas no Brasil podem aumentar 1337%”. Um erro típico. Seria muito mais correcto e simples titular “Espécies vegetais ameaçadas no Brasil podem aumentar 14 vezes”. O interessante é que quase todos os jornais foram atrás do título original e assim deram a sua contribuição para falta de esclarecimento dos seus leitores. Mas, afinal, qual será mesmo o objectivo actual da imprensa?


Alberto Pereira - 27-03-2006 10:37

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