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Recusando vivamente o 'pimba'
Piedade Fernandes lança-se na Europa
Começou a carreira de cantora pelo teatro, a que tem estado sempre ligada de alma e coração, mas foi através do Festival da Canção que se tornou conhecida do grande público.
Depois de uma acidentada ligação a uma editora discográfica e da edição de "É Magia", um disco de música ligeira editado em 1993, Piedade Fernandes decide abraçar seriamente o fado, estilo com o qual já representou Portugal no CD "Kheops", preparando-se agora para lançar "Alto Mar", um disco que terá edição na Bélgica, Holanda, Luxemburgo, França e Brasil.
Setúbal na Rede - Como surgiu a hipótese de este disco, "Alto Mar", ser editado numa série de países?
Piedade Fernandes - O "Alto Mar" é um disco só com fados, todos do Nuno Nazareth Fernandes com letras também do Nuno Nazareth Fernandes, outras do Nuno Gomes dos Santos e outras do Henrique Amoroso, que o Timothy, por gostar muito da minha voz e por gostar muito da música do Nuno quis fazer, na continuação do interesse dele em promover o fado, não só o fado na sua linha mais tradicional, lançando-o lá fora, não só nas comunidades portuguesas mas para o público geral. Este era um projecto que já se arrastava há vários anos, mas por eu estar presa à editora anterior não tinha sido possível concretizar ainda.
SR - Mas como é que nasceu esse interesse por parte do Timothy?
PF - O Timothy conheceu-me através de uma cassete de fados que eu gravei antes de ter editora. Gravei essa cassete uns meses antes de entrar para a Movieplay e de participar no festival, já que assinei contrato com a editora no dia do próprio festival. Eu já cantava e muita gente me perguntava por material para vender. Em Dezembro de 1992 estive na Alemanha a cantar fado e avisaram-me que teria de levar material para vender, tal como faziam os outros artistas. Fiz uma edição de quinhentas cassetes com uns fadinhos e vendi-as todas num instante. Uma dessas cassetes, pela mão do José Ângelo que ia cantar muito lá fora, foi parar às mãos do Timothy e ele gostou muito. Depois veio o festival, veio a editora e quando o Timothy me contactou eu estava presa à Movieplay e não pudemos trabalhar, a não ser no projecto Kheops e num outro destinado a uma Biblioteca Musical, em que eu representei Portugal, e que a editora autorizou.
SR - Sendo a Piedade Fernandes tão pouco conhecida a nível nacional, não deixa de ser curioso que tenha já representado Portugal nalguns projectos e que veja agora o "Alto Mar" editado inicialmente numa série de países antes ainda de ser editado por cá. Como é que se sente nesse papel de embaixatriz do fado?
PF - Penso que esse é o sonho de qualquer artista, alcançar esta projecção, mas isso deve-se sobretudo ao Timothy e ao facto de ele ter gostado de me ouvir, assim como ao Nuno Nazareth Fernandes que gosta imenso do meu género, da minha maneira de cantar e do meu timbre. Foi um acaso que nos uniu e que resultou, deixando-me muito satisfeita.
SR - E em Portugal, a Piedade gostava de ser mais conhecida?
PF - Gostava, mas em Portugal é um bocado difícil. Nós atravessamos um período em que as pessoas estão um bocado desmotivadas, a vida está difícil, há crise, há falta de dinheiro, há tantos problemas e as pessoas preferem as coisas fáceis, que não dêem muito que pensar. Esta é a fase do consumismo, em que se faz uma música este ano para vender e para o ano já ninguém se lembra porque já há outra do mesmo género. Não me enquadro muito nesses géneros musicais e não tenho tantos espectáculos como esses artistas.
SR - É então critica em relação à música 'pimba'?
PF - Sou, porque embora ache que há público para tudo e também seja capaz de estar numa festa em que estão todos já muito bem dispostos e comecem a cantar música dessa, e aí eu também canto, mas não é uma música que eu escolha para a minha carreira. Sou capaz de cantar música 'pimba' integrada num quadro de teatro, de vestir o papel de um boneco e fazê-lo com toda a garra, mas quando é a Piedade que vai para cima de um palco, sozinha, falar com as pessoas cantando, não seria esse o género de música que eu escolheria, pois estar em cima de um palco é uma responsabilidade muito grande e nós temos de sentir cá dentro, nas veias, aquilo que estamos a transmitir e temos que o fazer com muito gozo. Esse gozo, para mim, prende-se com determinados valores de que eu não abdico.
SR - A Piedade Fernandes tornou-se conhecida do público pela música ligeira. Actualmente é uma fadista, assume-se como uma fadista?
PF - Eu comecei pelo fado, aqui em Setúbal, na revista. Depois virei-me para a música ligeira e aconteceu o Festival da Canção. Em qualquer das linhas musicais as coisas que me aconteceram foram muito importantes. Primeiro, o fado trouxe-me de repente um palco grande como é o do Fórum Luísa Todi e uma casa cheia como foi o êxito de popularidade do "À Coca". De repente, as pessoas gostavam de mim como fadista. Depois surge a música ligeira e o Festival da Canção e as pessoas começaram a gostar de mim como cantora de música ligeira. Eu sinto-me bem tanto num género como noutro, mas tenho uma grande paixão pelo fado. Na música ligeira há canções que me agradam mais do que outras, enquanto que no fado me sinto como peixe na água. Não sei se é por uma questão de tradição melódica, de educação ou pelo facto de ser portuguesa, pois acredito que o fado é a nossa forma mais genuína de expressão musical, mas a melodia tem que me tocar e as palavras também.
SR - Mas é capaz de se assumir como fadista?
PF - Assumo-me como intérprete. Não quero rotular-me, não quero cingir-me a um género, pois eu sempre gostei de fazer muita coisa ao mesmo tempo desde que essas coisas me digam bastante. Neste momento estou a trabalhar em fado e estou a descobrir coisas e a fazer coisas de que gosto muito. Depois logo se vê. Se calhar o próximo será de música ligeira.
SR - Este "Alto Mar" é, portanto, um disco de fado. Mas dentro do fado como o descreveria?
PF - Tem fados de uma linha melódica e uma construção poética tradicional, tem fados que são quase fados-baladas com uma carga interpretativa muito grande. Digamos que há temas mais tradicionais e outros mais numa linha diferente, embora eu os sinta a todos como fados. Se algumas das faixas tivessem sido construídas ou canalizadas para outra linha ou com outro tipo de orquestração podiam resultar em canções, mas foram construídas de maneira a serem fados e são fados.
SR - Não teme que surjam algumas vozes criticas por parte dos defensores acérrimos das tradições do fado?
PF - Eu acredito na mudança como fonte de enriquecimento. Pode-se mudar para pior, mas pelo menos deu para aprender que por ali não vou mais.
SR - O teatro assume um papel importante na sua carreira?
PF - O teatro foi o principio de tudo. Como já disse, estreei-me em 1990 com a revista "À Coca", pela mão do Carlos César, porque se deu o acaso de esta revista ter estreado o antigo cinema Luísa Todi como Fórum e até aí o Teatro de Animação de Setúbal ter funcionado no Teatro de Bolso, junto à Rua Acácio Barradas, onde curiosamente eu tinha um restaurante que ficava fechado até mais tarde que o habitual e onde os elementos do TAS iam sempre, ao fim da noite, comer qualquer coisinha. Foi ali que conheci os primeiros colegas do teatro e onde se diziam umas poesias e se cantava um pouco. Eu comecei a cantar por brincadeira e o Manuel Bola começou a insistir para eu ir para o teatro. O Carlos César acabou por me convidar para o "À Coca" e a partir daí nunca mais deixei o teatro.
SR - Mas sempre como cantora?
PF - Sempre como cantora, pois na componente de actriz apenas fiz uma pontinha na "Setúbalândia". Mas o teatro é uma grande escola, pois basta ver que eu sempre gostei de cantar mas nunca o consegui fazer em público porque era muito tímida. No teatro fui olhando para os outros e aprendi com eles a maneira de estar em palco. Às tantas pensei: "já que me meti nisto agora não posso voltar para trás e então vou representar que sou uma grande cantora". Comecei a cantar com uma capa de teatro por cima e isso ajudou-me. Depois de meter lá o pé dentro já não se consegue sair, porque fazer-se o que gosta e ainda ser aplaudida é uma coisa que nos faz tanto bem que fica um bichinho cá dentro que nunca mais se esquece. Depois é todo o ambiente, os bastidores, os colegas, o próprio estado de espirito da malta do teatro que é muito positivo, há uma grande garra de viver que é contagiante e que tem um bocado a ver com a minha maneira de ser.
SR - E hoje quando sobe para cima de um palco, sozinha, para cantar, o que é que sente?
PF - Há sempre medo, porque somos humanos, atravessamos fases diferentes da nossa vida, há altura de maior cansaço e quando estou em baixo um dos meus maiores pânicos é ter uma 'branca'. Já me aconteceu e felizmente a escola do teatro deu-me bagagem para ultrapassar isso. Ou se inventa ou se assume, pois a vida é feita destas coisas. Eu conduzo e já bati com carro várias vezes e já me bateram a mim. Ando desde pequenina e já caí várias vezes, já dei trambolhões e já me levantei. Sou professora e já me enganei e fui corrigida por alguns alunos. Noutro dia o Paco Bandeira dizia-me e com razão que todos nós temos de bom e de mau. O que faz com que nós sejamos bons ou maus são as circunstâncias. A grandiosidade de carácter está na nossa capacidade de aprender com os erros e de ter vontade de mudar e de corrigirmo-nos. É o assumir disso tudo que faz com que as coisas resultem, já que eu não sou uma grande actriz, não sou uma grande cantora, mas tenho vontade de aprender e de continuar e penso que isso é o fundamental.
SR - Quase a editar o "Alto Mar", que importância tem este disco para a sua carreira?
PF - Sem desprimor pelo outro, pelo qual tenho muito carinho, este é um disco muito importante porque, para já, vai ser editado lá fora e eu tenho de ter uma postura e uma preparação diferentes. Não quero que os outros fiquem a pensar que Portugal é um país de pessoas que fazem coisinhas a brincar. Tenho que o fazer bem. E com as pessoas com que estou a trabalhar, que têm um curriculum bastante respeitável no panorama musical português, tenho a responsabilidade acrescida, na medida em que também tenho que defender aquilo que eles estão a fazer para mim.
SR - Este disco vai implicar uma maior disponibilidade de tempo para a carreira de cantora. Como pensa articular isso com a sua actividade de professora?
PF - Não sei dizer se gosto mais de ensinar ou se de cantar. Gosto acima de tudo de comunicar. Não sei, também, se já prejudiquei mais o ensino com a minha vida das cantigas ou se prejudiquei mais as cantigas por causa do ensino. Normalmente tento pensar com muita força na primeira coisa que tenho a fazer. Se tiver hoje que dar aulas eu penso só nas aulas que tenho que dar hoje. Se no fim-de-semana tiver um espectáculo, chegando a Sábado penso nisso. Mas o que é certo é que tudo aconteceu mais ou menos ao mesmo tempo. Comecei a dar aulas em 1987/88 e em 88/89 comecei a cantar nos ensaios do "À Coca" que estreou em 1990. Quando fui ao Festival da Canção, em 1993, entrei no ano a seguir em estágio na escola e o que é certo é que não batalhei a minha carreira das canções como devia ser porque eu quis fazer o estágio para me profissionalizar no ensino. Hoje, se quiser parar no ensino, eu posso fazê-lo metendo uma licença sem vencimento e se tiver que o fazer pois farei.
SR - Gostava de ser artista a tempo inteiro?
PF - Se fosse como que eu gostaria, sem dúvida. Defender a interpretação nacional com dignidade, comunicar com outras pessoas, dentro daquilo que gosto de cantar, porque não estou disposta a entrar noutros campo, porque não? Mas tem que haver um feedback por parte do público, porque se vir que o público não está a gostar, eu paro. Tem também que agradar financeiramente, pois eu não vivo sozinha, tenho filhos, tenho despesas fixas. Se não resultar volto ao ensino. É claro que ficaria uma mágoa, até porque eu sou muito ligada às coisas, mas isso faz parte do crescimento.
SR - A Piedade Fernandes está em Setúbal há cerca de dez anos, foi aqui que começou a sua carreira artística. Como é a sua relação com esta cidade?
PF - Eu fui bafejada pela sorte, porque na altura em que entrei para o teatro foi na altura em que o TAS alcançou uma grande popularidade e fui beneficiada por isso. E tive sorte com a Câmara que tem apoiado bastante os eventos culturais da cidade. Como muitos cantores, eu podia ter começado por cantar em bares e não passar daí, mas a primeira que canto tive a sorte de o fazer numa peça de teatro. Entretanto sou vista por muitas pessoas e há algumas que me levam para outras esferas, como foi o Festival da Canção e tudo aconteceu muito rapidamente. Fui, sem dúvida, bafejada pela sorte. Depois apareceu a Feira de San'tiago que a Câmara apoia bastante e que é um evento cultural de grande valor e para a qual fui logo convidada. Não me canso de dizer que tenho tido um grande apoio por parte da Câmara Municipal e a cultura em Setúbal é uma coisa que está activa, está permanente. Isto não tem nada a ver com o PS, que eu apoiei nas últimas eleições, pois sei que o Seixal, em que a Câmara é do PCP, é dos sítios em que há mais acontecimentos culturais e acho que isso é de louvar. Bem haja quem faz esse tipo de coisas.
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