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No dia 14 o “Setúbal na Rede” publicou uma notícia um pouco insólita. “Ponte metálica de Alcácer vai ser reabilitada”. Inicialmente o provedor pensou que uma das pontes, de Alcácer do Sal, teria cometido algum crime mas investigações posteriores tinham demonstrado a sua inocência.
Mas como as pontes não têm personalidade jurídica tal não poderia ter sucedido. Da leitura da notícia então lá se compreendeu que afinal a ponte iria ser reparada, renovada, ou talvez recuperada, uma vez que já tem a vetusta idade de 60 anos, mas nunca reabilitada.
Mas, ao mesmo tempo, a leitura do artigo trouxe algumas memórias históricas relacionadas com as ligações rodoviárias e ferroviárias, através do rio Sado, em Alcácer do Sal. O rio Sado, com efeito, foi ao mesmo tempo um obstáculo e um facilitador para as comunicações conforme o meio de transporte utilizado. É uma história interessante, que se arrastou por centenas de anos, e que apenas recentemente teve a sua conclusão. Vamos, embora resumidamente, falar deste assunto na crónica de hoje.
Durante séculos a ligação de Setúbal a Alcácer do Sal era feita por estrada, pelo traçado da actual estrada EN10, com pequenas alterações, ou então pelo rio Sado.
Quem queria sossego, ou tinha mercadorias a transportar, ia pelo Sado. Inicialmente por barco à vela, a partir dos inícios do século XX por barco a vapor e após 1917 por barco a gasolina. Como os barcos apenas podiam navegar conforme as marés havia uma só viagem por dia e num sentido. Assim, quem vinha a Setúbal ficava por cá a pernoitar e no dia seguinte lá seguia para Alcácer do Sal. Em 1917 a viagem, em 1ª classe, custava a quantia de 1$02 escudos. O equivalente a cerca de 11,50 € actualmente. Atendendo à beleza e ao sossego do passeio não podemos considerar o preço caro.
Por estrada o problema era atravessar o rio em Alcácer do Sal. A Carta Militar de Portugal, de 1808, mostra que a estrada passava para o outro lado do rio do Sado, dentro da povoação, mas nessa altura a passagem devia ser realizada por uma barcaça que periodicamente transportaria os passageiros e as carroças para a margem sul.
Mais tarde, tudo indica que nos finais do século XIX, foi construída uma ponte de madeira, do tipo levadiça. A ponte era levadiça pois só assim os galeões à vela podiam atingir a povoação de Porto do Rei, a montante de Alcácer do Sal, que foi um grande entreposto de saída dos cereais alentejanos durante muitos anos. Esta ponte ainda existia em 1925 pois volume do “Guia de Portugal”, referente ao Alentejo, escrito nesse ano por Raul Proença, fala na ”ponte de madeira sobre o Sado”.
Com a construção da ponte de madeira já foi possível a criação de carreiras regulares de passageiros. Em finais de 1905 um arrojado empresário iniciou uma carreira de autocarros entre Setúbal e Sines. A partida era às 10:30 horas e aos trambolhões, pelas horríveis estradas da época, os passageiros lá seguiam para Sines por Alcácer do Sal, Grândola e S. Tiago, como se dizia na época, e às 18:30 horas, se tudo corresse bem, chegariam, mais mortos do que vivos, a Sines. O preço, de Setúbal a Sines, seria, actualmente, cerca de 41 €, um pouco “carote”, mas sempre era a grande novidade. O pior foi que a estrada, entre Alcácer do Sal e Grândola, estava em tão mau estado que as carreiras terminaram em Maio do ano seguinte...
Nos inícios do século XX vários governos consideraram a ideia de construírem uma linha de caminhos-de-ferro do Pinhal Novo ao Algarve mas passando pelo litoral. O maior problema era se a passagem, pela península de Setúbal, seria pelo Poceirão ou por Setúbal. Depois de muitas lutas e empenhos lá se decidiu que linha passaria pela cidade de Setúbal, Águas de Moura e Alcácer do Sal. Assim, em Maio de 1908, foi aprovada uma Portaria que autorizou a construção da linha pelo Vale do Sado em três secções. A inicial até Alcácer do Sal a segunda até Alvalade e a terceira até ao Garvão, hoje Funcheira, onde seria ligada à linha, que já existia, vinda de Beja.
A construção da linha foi efectivamente realizada e depois de muitos azares e mudanças de governos em Maio de 1920 foi inaugurado o ramal entre Setúbal e Alcácer do Sal. A viagem inaugural foi em clima de festa com a presença de dois ministros, música a bordo com filarmónica e chegada a Alcácer do Sal no meio de uma grande emoção popular que fez chorar alguns dos manifestantes.
Mas a linha acabava em Alcácer do Sal. A ponte metálica, sobre o rio Sado, não estava construída por motivos financeiros e técnicos pois, devido à Guerra 1914/18, a Inglaterra não tinha podido fornecer os mecanismos para a sua construção.
A obra não parou e passados cinco anos, em Junho de 1925, foi inaugurada a ponte, que ainda hoje existe, com um tramo móvel para permitir a passagem dos barcos à vela do transporte dos cereais, entre os quais o trigo e o arroz. Durante os cinco anos de intervalo os passageiros passavam o rio em barcaças e apanhavam um outro comboio, no outro lado do rio, para seguirem para o Algarve. Com seria divertido passar férias no Algarve nesses tempos...
Mas os transportes rodoviários sofreram um grande desenvolvimento nos anos 30 e 40 e a velha ponte de madeira não correspondia aos novos tempos. Então o ministro Duarte Pacheco considerou que seria de substituir a velha ponte de madeira por um nova e de construção metálica mas igualmente com um tramo móvel para passagem dos barcos. A segunda ponte metálica articulada de Alcácer do Sal foi inaugurada em 1945, dentro da povoação e apenas para o transporte rodoviário. Os galeões à vela estavam já em decadência e assim a estrada de alcatrão derrotou a estrada do Rio Sado.
Mais tarde, como o cruzamento dentro de Alcácer do Sal, à entrada da ponte, estava a revelar-se um sério problema de trânsito, principalmente na época estival com as viagens dos turistas para o Algarve, foi construída, nos anos 90, uma estrada de circunvalação em Alcácer do Sal e uma nova ponte, desta vez de betão armado. Assim foi encerrado o ciclo das pontes na antiga e bonita vila de Alcácer do Sal.
Agora, conforme noticiou o “Setúbal na Rede”, estamos na altura das reparações e de se recuperar a dignidade perdida da ponte metálica rodoviária que tão bons serviços prestou.
Duas perguntas para finalizar. Para quando a recuperação da ponte metálica ferroviária? E que tal a ideia da criação de um percurso pedonal, guiado, do tipo “Um rio e duas pontes “ que permitisse aos turistas percorrerem as duas pontes metálicas? Aqui ficam estas duas modestas sugestões para enriquecimento do património construído contemporâneo de Alcácer do Sal.
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