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No início deste ano iniciámos as nossas crónicas com dois artigos referentes aos inquéritos que o "Setúbal na Rede" permanentemente apresenta aos nossos leitores acerca de assuntos relevantes no Distrito. Hoje vamos escrever a nossa última crónica voltando ao assunto inicial e apresentando um estudo dos inquéritos efectuados até a data e das respostas dadas pelos leitores. Tudo isto porque o actual provedor terminou a vigência das suas actividades e, a partir da próxima semana, o novo provedor, o Dr. João Aldeia, conceituado economista, vai iniciar as suas funções. Com o seu espírito arguto e analítico certamente irá desempenhar, da melhor maneira, o papel de provedor do leitor do nosso jornal.
Ao longo da sua existência o "Setúbal na Rede" publicou 49 inquéritos sobre os mais variados assuntos que abordaram temas como “A cidade de Setúbal está mais limpa?” ou então “Com o calor inesperado vai trocar as urnas pela praia?”. Claro que alguns assuntos foram mais relevantes que outros mas todos tiveram elevada participação dos leitores.
O nosso estudo vai apenas abordar a forma, isto é, os resultados em geral, e não iremos falar das respostas em particular. Será assim um estudo quantitativo e não qualitativo. Mas mesmo assim cremos que dará, à direcção do "Setúbal na Rede" e aos nossos leitores, uma visão mais completa e exacta do valor dos inquéritos.
Dos 49 inquéritos efectuados houve desde 51 respostas, caso do inquérito “Bloqueio na ponte: Dez anos depois os motivos mantêm-se?” a um máximo de 1320 respostas no inquérito com o tema “Que força política vai ganhar mais câmaras no distrito?”. A Média das respostas foi de 232 mas a Mediana teve o valor de 167. Isto significa, a média superior à mediana, que houve um número significativo de inquéritos com muitas respostas. Existem dois valores repetidos, a chamada Moda, com 91 e 136 respostas em que existem dois inquéritos registados.
As respostas distribuem-se conforme o grau de interesse que os temas representam para os nossos leitores. Podia dar-se o caso das respostas estarem uniformemente distribuídas, isto é, o intervalo entre o inquérito menos interessante, aquele que teve 51 respostas, e o mais interessante, o que obteve 1320 respostas, estar uniformemente distribuído pelas diversas respostas. No entanto, a realidade é diferente. Por exemplo, se ordenarmos as respostas por ordem crescente, o inquérito que fica no meio da tabela, o inquérito número 25, apenas registou 25% dos votos quando deveria ter 50% dos votos se a distribuição fosso uniforme. Quando já tinham sido votados 75% dos inquéritos apenas estavam registadas 50% das respostas. Assim, os 25% dos inquéritos mais votados receberam praticamente 50% das respostas.
Para estudar esta irregularidade foi criada em 1905 a chama Curva de Lorenz que permite visualizar estas diferenças. Quando há diferenças entre os dois valores, o nosso caso, surge uma “barriga” que aumenta com as diferenças. Esta curva é usada nos estudos económicos para estudar as desigualdades de distribuição de rendimentos entre nações ou classes sociais. Mas passados alguns anos, em 1912, o demógrafo italiano Gini criou um coeficiente, calculado a partir da curva de Lorenz, o chamado “índice de Gini”, que transforma a curva de Lorenz num único número entre 0 e 1. O valor 0 indica uma distribuição absolutamente uniforme da riqueza. O valor 1 indica que toda a riqueza está nas mãos de um único indivíduo.
A título de exemplo em 2005, segundo a ONU, Portugal tinha um índice de Gini de 0,385. A Namíbia tinha o valor mais elevado com 0,707. O país mais equilibrado era a Dinamarca com o valor 0,247. Como curiosidade aponta-se que Moçambique e os EUA tinham um índice de Gini praticamente igual. A base da partida para o cálculo é que era muito superior nos EUA em relação a Moçambique. Por aqui se vê que utilizar apenas um indicador estatístico isolado pode distorcer muito a situação real.
Voltando aos nossos inquéritos fomos então calcular o índice de Gini para as respostas dadas. O valor encontrado foi de 0,394. Isto significa que existe alguma concentração nas respostas mas que estas não são muito concentradas. É interessante verificar que o índice de Gini, agora calculado, é praticamente igual ao valor atrás indicado para a economia nacional. Simples coincidência? Trata-se de um reflexo da economia na cultura dos portugueses? Um assunto interessante para os estudiosos.
Mas afinal qual foram os temas que despertaram mais interesse aos nossos leitores? Podemos ter uma ideia ordenando as respostas por ordem crescente de votações. O resultado é desconcertante. Os temas com menos interesse, menos de 100 votos, estão próximos dos outros que tiveram elevadas votações, mais de 300 votos. Alguns exemplos:
- “Eleições Europeias - Sabe qual o objectivo das Eleições Europeias?” - 65 votos
- “Em quem vai votar nas Presidenciais?” - 867 votos
- “O que pensa do novo presidente do Vitória de Setúbal?” - 82 votos
- “O Vitória pode voltar a ganhar a taça?” – 430 votos
É interessante verificar que nos temas mais ligados às paixões partidárias houve muitas respostas. Repare-se que os temas mais votados foram;
- “Em quem vai votar nas Presidenciais?” – 867 votos
- “Que força política vai ganhar mais câmaras no distrito?” – 1320 votos
Estes valores mostram o carácter pouco fiável destes inquéritos pois, como permitem votações repetidas, um pequeno grupo de pessoas pode distorcer completamente o resultado votando sistematicamente na mesma posição. Além disso o tempo para responder aos inquéritos é variável o que permite ainda mais alterações.
Com esta crónica encerramos o nosso ciclo como provedor do leitor do "Setúbal na Rede". Foi uma experiência interessante mas ficou uma mágoa pendente. A pouca participação dos leitores nas actividades do jornal. Espero que o novo provedor receba mais estímulos da parte dos nossos leitores. O "Setúbal na Rede" agradece e com certeza que todos ficaremos mais enriquecidos com uma maior participação dos leitores.
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