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Álvaro Cunhal em Setúbal

“O PCP é um partido indispensável e insubstituível”


O antigo secretário geral do Partido Comunista Português e fundador do partido, esteve no dia 14 de Junho, em Setúbal, na localidade de Faralhão, para as comemorações do 14º aniversário da fundação do Centro de Trabalho do PCP. Num discurso de cerca de 35 minutos, Álvaro Cunhal deixou recados ao Governo e à oposição, chamou o PS de fascista e garantiu que o PCP está bem de saúde.


"Apesar do futuro que nos vaticinavam, depois da crise na União Soviética, o PCP manteve-se de pé e renovou-se porque os portugueses sabem que podem contar connosco porque somos o único partido dos trabalhadores".


A frase é de Álvaro Cunhal, o fundador do PCP e antigo secretário geral dos comunistas que, num encontro com militantes de Setúbal, para comemorar os 14 anos do Centro de Trabalho do Faralhão, enalteceu o "esforço desta comunidade, na luta pelos direitos da classe operária, numa época em que o capital começou a desenvolver acções no sentido de reinstalar uma política de direita".


Tomando como exemplo os comunistas de Setúbal, o fundador do PCP enalteceu "a participação, na luta contra o capital, de todos os trabalhadores comunistas e de todos os que, não sendo comunistas, estão connosco na luta pelos direitos dos portugueses". Num claro apelo à participação activa dos não militantes do PCP nas jornadas de luta "da classe operária", Álvaro Cunhal não se esqueceu de reforçar a ideia de que "o PCP é o único partido dos trabalhadores, é um partido necessário, indispensável e insubstituível na sociedade portuguesa" . É que segundo o fundador do PCP, "sem ele teria sido muito difícil chegarmos onde chegámos hoje, lutarmos contra a ditadura, formar resistência durante os anos de fascismo e, agora, no presente, combater as sucessivas políticas de direita".

O recado de Cunhal, especialmente dirigido ao actual Governo, do PS, que de acordo com a leitura do histórico comunista "uma vez no poder, revelou-se um autêntico partido de direita, na tentativa de destruição das conquistas de Abril e de restauração do poder do grande capital, através da liquidação dos interesses e direitos dos trabalhadores ". Pelo meio dos recados ao PS, Álvaro Cunhal não parou de elogiar os que "não sendo comunistas, e outros que porventura estejam noutros partidos, estão connosco quando se trata de defender os trabalhadores e a liberdade". Um piscar de olhos ao eleitorado socialista, porventura descontente, que acabou com o antigo dirigente do PCP a lamentar-se pelo facto de que os simpatizantes do PCP não filiados, "apesar de reconhecerem que somos quem defende os trabalhadores, na hora o voto acabam por votar noutros partidos".


No discurso de aniversário do Centro de Trabalho do PCP, no Faralhão, Álvaro Cunhal não deixou de falar da questão nacional do momento e apelou ao sim no referendo sobre o aborto às 10 semanas, por considerar "necessário que se decida sobre esta matéria, em consciência, e que em caso de necessidade de aborto, a mulher possa ter condições para o fazer".

 

Classificando de hipócrita a campanha dirigida pelos que estão contra a lei do aborto, Álvaro Cunhal recordou que "de nada resolveu esta lei restritiva, em vigor há dezenas de anos, porque os abortos fazem-se na mesma e em condições degradantes". E como exemplo, o fundador do PCP recordou que há mais de 60 anos, por ocasião da sua licenciatura em Direito, desenvolveu como tema a questão do aborto clandestino.


"Isto para dizer que, já na altura se falava em cerca de 100 mil abortos clandestinos, por ano em Portugal, e isto só prova que passados 60 anos nada mudou e que este sistema não funciona porque, com lei ou sem ela os abortos são feitos na mesma", defendeu o fundador do PCP que se reafirmou empenhado na vitória do sim à lei do aborto, no referendo de 28 de Junho.


Etelvina Baía - 15-06-1998 17:46

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