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Até que me levantei cedo, coisa que eu durante as férias não acho muita piada, mas os raios ultra violetas e a preocupação com a minha saúde e a do meu filho a isso obriga. Tomei um pequeno-almoço e decidi que beberia o café na praia. Não moro longe da praia. Uma dezena de quilómetros, coisa que se faz em pouco mais de 10 minutos. São 9 horas da manhã e eu faço-me à estrada, rumo ao descanso merecido depois de meses de trabalho.
A seis quilómetros da praia, primeira paragem. Uma rotunda e o trânsito começa a acumular-se. Felizmente é a última que eu apanho antes da praia, penso eu, cinco minutos no trânsito e depois “Via Verde” até à praia. Puro engano, a rotunda consumiu o dobro do tempo e, poucos metros depois da dita, novamente trânsito parado. Desta vez até à praia. Espectáculo, pensei eu. Mas não me enervei. É esta a vantagem das férias. Não fervemos com qualquer coisa. Melhor ou pior, isto há-de andar.
E andou. Por volta das 9.45 horas da manhã estava a chegar ao acesso da praia. Entrei no acesso e parei. Estavam carros parados dos dois lados, reflexo da falta de estacionamento que existe nestas praias. Assim, o trânsito teria de se fazer alternadamente pois só cabia um carro, sendo que a organização dos fluxos era da responsabilidade dos condutores, dado que não havia por ali ninguém que pudesse fazer isso.
Às 10 horas estava no parque de estacionamento mas, como eu deveria ter calculado, estava cheio pelo que tive de voltar atrás pelo mesmo acesso. O tal que estava condicionado. Felizmente que deixei a minha mulher e filho junto à praia. Não havia necessidade de irmos todos para trás para depois andar até à praia. Bastava um. Ao fim de muita procura consegui estacionar na estrada que percorre todas as praias e, depois de olhar para a distância que me separava do areal, fiz-me ao caminho.
Uma hora e meia depois de ter saído de casa estava a beber o meu café. Resolvi ir ter com a família à areia e desfrutar do meu descanso, sabendo que teria de ser bem aproveitado pois meio-dia é hora de sair da praia. Assim que pisei a areia dei logo de caras com uma fralda que um qualquer pai resolveu deixar de presente para os outros veraneantes. Que simpático pensei eu, com o bom humor que caracteriza os primeiros dias de férias, uma prenda. Não sabia que as dunas já produziam fraldas. Deve ser uma nova espécie de vegetação nesta zona.
Ao chegar à toalha apeteceu-me atirar-me para cima dela, apesar dos insistentes pedidos do mais pequeno para ir à água. Dois minutos, disse eu. Só para descansar um pouquinho. Assim fiz, só não calculava que, enterrada na areia, estivesse uma lata de Fanta laranja. E também nunca pensei ter tanta pontaria que acertasse mesmo com a nádega em cima da dita. Mas há sempre um lado positivo. Levantei-me mais depressa do que me tinha sentado e o filho ficou a ganhar que a ida à água foi antecipada. Não sei se por causa disto ou não, passei algum tempo a olhar para a areia e a ver a quantidade de objectos que por ali estavam espalhados. Garrafas de plástico, cigarros, preservativos,… algumas pessoas sabem mesmo ser porcas. Mas também não custava nada a quem de direito que limpasse as praias: autarquia, ministério do Ambiente ou a Marinha. Não sei quem é responsável tal a confusão de competências nas praias mas alguém deverá ser de certeza.
Felizmente a água estava boa e, com o dia que estava a ter até àquele momento, resolvi ficar por ali até sair da praia, a ganhar forças para a caminhada que teria de fazer até ao carro para o regresso a casa para almoçar. Escusado será dizer que cheguei estafado ao almoço e sem vontade de voltar a passar por aquele suplício. Por isso experimentei nos dias seguintes a Fonte da Telha, Sesimbra, Lagoa de Albufeira e até, já em desespero, as praias da Vila. Aí constatei que, mesmo com maré vazia, não há areal e que as obras feitas no pontão afinal não passaram de uma forma de reforçar um dique para que o mar não recupere o que lhe foi roubado durante anos por causa da especulação imobiliária. Em todas elas, os mesmos problemas. Parecia combinado. Ao fim de uma semana felizmente fui embora, para longe da praia, não sem antes passar por um cartaz giríssimo da câmara de Almada a apelar ao Turismo no concelho. Não sabia se havia de rir ou chorar. Num concelho onde a principal actividade turística está ligada ao mar nada é feito para proporcionar às pessoas condições para que estas desfrutem dele.
Uma estrada que percorre todas as praias, que data de 1950 ou de antes, é o primeiro cartão de visita. Parques de estacionamento que não têm acessos e que, por estarem mal dimensionados, mal arranjados, não suportam o volume de carros que ali aflui todos os verões são a segunda coisa que salta à vista. Mas os carros também existem nesta quantidade porque não existem transportes públicos – com excepção do velhinho comboio da Costa, cuja data da inauguração já não é lembrada por ninguém suspeitando-se mesmo que dessa geração já não existam sobreviventes.
Acho que ninguém gosta das praias sujas mas é inadmissível o ponto a que chegaram aquelas praias. A concentração de lixo é de tal forma que há quem tenha problemas em deixar os filhos fazer as tradicionais covas na areia, com medo do que possa ser encontrado.
Fala-se muito do Programa Polis. Parece que é a solução encontrada como cura para todos os males. Já se passaram muitos anos e eu, como frequentador da Costa, ainda não vi diferenças nenhumas. A construção desorganizada continua, os bairros abarracados também, na maioria dos casos. O parque de S. João continua impróprio e os parques de campismo não têm solução à vista.
Este Verão vai passar. As queixas vão continuar. No Outono e Inverno nada se vai fazer e no próximo Verão estaremos a falar das mesmas coisas, dos mesmos problemas e vamos continuar a ver cartazes bonitos a apelarem ao turismo nesta zona.
É o que temos e talvez o que merecemos. Porque nos sujeitamos a isto sem refilar. Sem dizer que temos direito a uma praia arranjada e limpa. Que o exclusivo das praias não é apenas para quem paga os quartos nos hotéis que a especulação imobiliária se encarregou de plantar nalguns sítios estratégicos. A natureza é de todos e não um privilégio de alguns.
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