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• 10-08-2006 •
Assento Parlamentar (BE)
por Daniel Arruda
(Dirigente Distrital do Bloco de Esquerda)


Ontem, hoje e amanhã os setubalenses saberão dar a resposta


Já começa a ser normal que os sucessivos governos aproveitem a época de férias para lançarem medidas altamente estúpidas e de graves consequências cá para fora. Há sempre a esperança de que o assunto passe ao lado ou que as pessoas não liguem. Felizmente não é o caso. A população de Setúbal está sobremaneira de aviso contra estas coisas, e preparada para travar mais esta batalha em nome da serra que é de todos mas particularmente sua. O seu ex-libris, a Serra da Arrábida.


Há pouco mais de uma semana o Governo fez tábua rasa do que anteriormente tinha dito e mandou às “malvas” o processo de tratamento dos Resíduos Industriais Perigosos (RIP) que passava, antes da co-incineração, pela triagem, tratamento e regeneração dos resíduos. Fez tábua rasa porque, não há muito tempo atrás, ouvimos José Sócrates dizer no Parlamento que iria pôr em funcionamento, antes da queima em cimenteiras, os CIRVER (Centros Integrados de Recolha e Valorização dos Resíduos), e apoiar a regeneração e reciclagem dos óleos usados e solventes em unidades próprias, faltando só a regulamentação, já que a tecnologia existe. Ficariam para a co-incineração quantidades ínfimas de resíduos.

 

Se dúvidas houvesse, ficamos mais uma vez a saber que a honestidade não é um atributo que José Sócrates preze e que os redobrados avisos que o Bloco de Esquerda lançou durante a campanha eleitoral tinham razão de ser. José Sócrates afinal não desistiu da ideia de fazer de Setúbal a lixeira do país, sem o mínimo de respeito pelos setubalenses, porque sabe que a co-incineração destes venenos trará sérios problemas de saúde para as populações, nomeadamente pela emissão de furanos e dioxinas (a substância mais venenosa que se conhece e que, em quantidades ínfimas, afecta os seres vivos, entra na cadeia alimentar e atinge especialmente os sistemas de reprodução e imunitários).

 

Por isso o Bloco de Esquerda exige também que, após o tratamento dos resíduos nos CIRVER e da regeneração dos óleos e solventes – o melhor método –, o que eventualmente tenha que ser queimado deverá obedecer ao controlo de uma Comissão de Acompanhamento que tenha a confiança das autarquias, dos cidadãos e dos movimentos ecológicos, com poderes e meios para o efeito.

 

No entanto, nada disto nos demove do objectivo principal, o erro primeiro. Nunca nos podemos esquecer que o que está mal em última instância nem é a co-incineração, é a própria cimenteira e essa é uma luta que está por fazer. É urgente e imperioso que se retire a cimenteira do Parque Natural da Arrábida.

 

Mas nem é só pelos setubalenses que o governo mostra desrespeito. Também o mostra pela lei, pois o Governo cedeu claramente aos interesses das cimenteiras, de forma vergonhosa, prescindindo do estudo da avaliação do impacte ambiental (AIA) por saber que tal estudo nunca lhe daria razão à luz dos novos dados.

 

É importante que, em mais este momento de sobranceria governamental, a população saiba dar uma respsta à altura. É por demais importante porque este governo já mostrou que não gosta que o contestem, muito menos de ser contestado pelas populações, pois só assim se explica a sua aversão às discussões públicas. Sempre, ao longo da história, a população do Distrito de Setúbal soube dar uma resposta à altura. Foi assim nas primeiras greves da indústria conserveira, foi assim nas lutas do sector naval, foi assim sempre e agora não acredito que seja diferente.

 

Por isso o Bloco de Esquerda apoia, como sempre fez, as diversas manifestações da população, tal como o Movimento de Cidadãos pela Arrábida, Quercus e tantos outros nas suas justas preocupações. O Bloco de Esquerda de Setúbal manifesta também a total solidariedade com a população de Souselas e Coimbra, que tem dado provas de exemplar resistência aos apetites devoradores da outra cimenteira, a CIMPOR.


Daniel Arruda - 10-08-2006 17:36

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