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• 24-08-2006 •
Assento Parlamentar (BE)
por Daniel Arruda
(Dirigente Distrital do Bloco de Esquerda)


As birras


A “silly season” acabou no distrito de Setúbal em grande estilo, se é que por aqui houve disso, se tivermos em linha de conta o anúncio do Governo em avançar com a co-incineração na Arrábida. Agora é a telenovela Carlos Sousa que preenche as páginas dos jornais, e a esse tema voltarei numa outra oportunidade pois a situação tem demasiados contornos para ser abordada assim, em cima do acontecimento. De qualquer forma, foi por causa do assunto “presidência da C. M. Setúbal” que me veio à cabeça o tema desta crónica. Festas populares. Pois é. Festas Populares.


Nesta altura do Verão poucas são as freguesias ou concelhos que não têm a sua festa, umas em homenagem aos santos, outras mais temáticas e outras ainda pelo puro prazer do festejo e do convívio. Mas todas têm em comum o facto de serem utilizadas pelos autarcas como armas de arremesso político e, muitas vezes, mesmo como forma de se fazerem ajustes de contas bacocos e despropositados.

 

Neste momento estão a decorrer as festas de Corroios, as últimas no Seixal antes do grande final da Atalaia com o Avante, que, para Alfredo Monteiro, são o culminar das festas do concelho do Seixal. [1]

 

Já agora gostava de fazer dois reparos ao Senhor Alfredo Monteiro. O Seixal já teve um dos mais prestigiados festivais nacionais: o Cantigas do Maio. E, por culpa única e exclusiva do Executivo Municipal, ele desapareceu. Se tal não tivesse acontecido ele não precisava de propagandear actividade partidária enquanto representante da Autarquia. Sim, que dizer que a Festa do Avante, por muito valor que tenha, é uma iniciativa do Seixal parece-me de um abuso e de uma falta de obra para mostrar gritante.

 

Mas voltando às festas de Corroios deste ano. Penso que é inegável que um dos pontos altos desta festa, ou pelo menos dos mais emblemáticos, dada a qualidade a que nos foi habituando, era o festival de ranchos folclóricos organizado pela casa do Povo de Corroios. Ora foi com espanto que se soube que, este ano, a noite dos ranchos não era organizada pela casa do Povo, apesar de todos os contactos que já tinham sido desenvolvidos. Obviamente que qualquer pessoa pensará que alguma coisa deve ter havido para que tal acontecesse. E é verdade que houve.

 

Nas últimas eleições o Presidente da Casa do Povo de Corroios foi candidato contra o actual Presidente da Junta, Brázio Romeira. Nada me move para defender aqui os candidatos de outros partidos que não o meu mas este caso é emblemático de como o PCP lida com as questões e, acima de tudo, de como lida com os movimentos e associações. Quem não é da cor é corrido ou abafado. Quem tiver na direcção uma maioria que possa ser controlada é amiga. Se não, terá de ser castigada.

 

Esta atitude autoritária está presente em muitas situações da vida do concelho do Seixal e da freguesia de Corroios em particular. O autoritarismo tem sido imagem de marca deste mandato, tal como a sobranceria ou mesmo a ausência de decoro. Esta é a única explicação para, por exemplo, e para ficarmos no tema controle das associações e clubes, haver no executivo da Junta quem, sendo membro de uma direcção de clube/ associação (não digo qual por respeito à instituição e às restantes pessoas que a compõem), não se inibe de votar em reunião de Junta as comparticipações e ajudas financeiras que vão ser dadas ao clube/ associação de que ela é dirigente e, por arrasto, votar também as dos outros clubes/ associações que com ela concorrem aos fundos que tanta falta fazem a estas organizações. Parece-me elucidativo.

 

Falta dizer que a noite de ranchos foi um fiasco, mas houve um passarinho que me disse que, na Costa da Caparica houve um, organizado pela Casa do Povo de Corroios, com os grupos que eram para ter ido às Festas de Corroios, que foi um estrondo. Parece que, desta vez, a birrinha e a retaliação política deram num “tiro pela culatra”. Parece-me natural que assim seja. O que me custa é que nestas birrinhas quem fique a perder é a população. Neste caso foi num divertimento, um festival de ranchos, mas no dia a dia falamos de euros para crianças poderem frequentar um ATL e fazer desporto. Falamos de idosos que gostam e precisam de convívio. Falamos de desporto amador. Falamos de qualidade de vida de uma população que não pode estar dependente de birras ou ajustes de contas entre quem é da cor e quem não é.

 

 

[1] http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=7277


Daniel Arruda - 24-08-2006 17:38

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