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• 17-11-2006 •
Crónica de Opinião
por João Carlos Silva
(Estudante Universitário)


A infalibilidade humana na política



1 – Se há muitos portugueses que têm errado nos últimos tempos, esse não será, certamente, o caso de José Sócrates ou de qualquer uma das pessoas ligadas ao actual Governo. Sobre o Governo socialista paira um extraordinário véu da infalibilidade.


“Este não será um Governo da comunicação social nem para a comunicação social”, disse António Vitorino logo no dia em que o Partido Socialista ganhou as eleições legislativas. Para melhor frisar a auto-contemplação em que o PS caiu desde esse dia, Vitorino ainda rematou, com um sorriso sinceramente perturbador: “Habituem-se!”. Nós, cidadãos incautos da República Portuguesa, afinal não havíamos elegido um partido nem, à cabeça, um indivíduo que se passeia politicamente com o nome de José Sócrates. Não. Havíamos elegido a Virtude em pessoa (e em grupo) para nos guiar sabiamente.

 

De facto, este parece ter sido o mote que o PS escolheu como programa político. Decalcar projectos, ideias e até visões exageradamente audazes de anteriores governos e tomá-las à letra, fazendo dessa atitude não só um modo de estar na política, mas a política em si. Francisco Sarsfield Cabral, há menos de um mês atrás (no Diário de Notícias de 14 de Outubro), anexou à sua apreciação da política deste Governo uma frase que me parece extremamente feliz: “as medidas impopulares são populares”. E explica melhor: “A chave do mistério está na consciência que a opinião pública portuguesa tem, hoje, de serem indispensáveis medidas duras para equilibrar as contas do Estado. Poderemos não gostar de algumas delas, sobretudo quando nos atingem. Mas pressentimos não poder fugir a elas, sob pena de o País ficar condenado à estagnação”. Com alguma acuidade, Sarsfield Cabral parece-me ter ido buscar algo que toda a gente sabe mas realmente nem sempre nos apercebemos. Ou seja, a noção de que gostamos deste heroísmo do “político” que nos é alheio, talvez fruto de uma crescente separação entre o cidadão eleitor (e de alguma forma detentor do poder de escolher a via de governação, ainda que esse voto seja obsoleto, como se vê em relação ao Governo de Sócrates) e o actor político, que se torna quase como que um pequeno Rei Filósofo, ilusoriamente escolhido entre os melhores e os infalíveis. Eu diria mesmo, uma recuperação da separação antiga entre o Zé Povinho, que trabalha a terra confiante de que um dia virá o progresso, e os “doutores de Lisboa”, que na capital “lá sabem o que fazem”.

 

E este Governo sente, de facto, essa distância. Sente-a e reflecte-a, como se nada os pudesse manchar. Mas não é só com o comum, pacato, anónimo e sacrificado eleitor que se dá esta atitude arrogante. Para equilibrar a balança e ”reconquistar” a confiança desse eleitorado, o Governo de José Sócrates tem ”mordido os calcanhares” a todos os sectores possivelmente menos consensuais entre as pessoas. Sendo o cúmulo do populismo, é claro, o recente plano de aumento das receitas do Estado com o elevação das taxas à banca. São, no fundo, as medidas facilmente reversíveis – mas sempre com impacto mediático – que fazem este Governo o que é hoje. Reversíveis e, muitas vezes, sem grande razão de ser.

 

Por fim, presente em tudo isto, está a arrogância que persiste desde o primeiro momento – em que Vitorino nos recomendou bico calado e deferência – até ao presente momento na atitude do PS no Governo, que debate na Assembleia, nunca com agressividade, nunca com humor, mas sim, sempre, com um irritante tom de quem está a ensinar a governar os partidos à esquerda e os partidos à direita. Não só tomam medidas que de pouco servirão a curto e médio prazo (medidas para qualquer outro prazo seriam esoterismo), crucificando sem piedade o cidadão mais pobre, como as tomam com uma prepotência que provavelmente nunca houve num Governo do pós-25 de Abril.

 

Perante tudo isto, ficamos a pensar se realmente haverá algum defeito, alguma fragilidade humana, em qualquer um que seja dos elementos que constituem o Governo. Churchill bebia à luz do dia, para não haver dúvidas sobre o seu carácter e a capacidade de errar. Consta que Bush dispensa boa literatura. Até o herói socialista François Miterrand e sua família têm historial de escândalos sexuais e fiscais que deixam qualquer pessoa sossegada, sabendo que ali estava, no mínimo, um humano. Agora de um Governo que não comunica, não ouve, não ajuda, ainda tem a prosápia de ensinar como se devem fazer as coisas e me transmite a ideia de que será impossível algum dia vir a errar, muito sinceramente, de um Governo assim não sei o que pensar.

 

2 – Um caro leitor, o Sr. Carlos Patronilo, tomou a liberdade de “desconfiar” da minha humilde apreciação das teorias conspirativas que têm vindo a rodear nos últimos anos (e de facto a desenvolver-se) o ataque de 11 de Setembro à América. Perfeitamente legítima a desconfiança.

 

No dia 28 de Setembro, escrevi no “Setúbal na Rede” um artigo com o nome de “Teorias conspirativas”, que agora foi criticado. Antes de mais, devo fazer um reparo: o Sr. Carlos Patronilo refere que “enquanto existirem pais a mandar os seus filhos para a morte, é bom que se tenha a certeza do que se passou”, exortando-me de seguida a enviar os meus (que, por acaso não tenho). Aí, nada a dizer senão isto: estou de acordo com a atitude, mas não deverá ser acrescentado aí que os principais países que intervieram no Afeganistão não tinham serviço militar obrigatório? Por muito que me custe, a mim e a si e a qualquer pessoa razoável, a admitir isto, a verdade é que é rara a guerra que é realmente justa, num sentido moral. Pior ainda, é rara a guerra cujos resultados são os pretendidos ou os esperados. Nesse sentido, pouco poderia ser dito para justificar uma baixa sequer. Mas nem sempre as decisões em relação à entrada ou não numa guerra são simples, e muito menos moralmente claras. Se lhe servirá de consolo quanto à apreciação do meu suposto (por si) “optimismo”, a guerra no Iraque, por exemplo, há muito que resultou numa catástrofe graças à má gestão, à má logística e às más opções que se tomaram (ou não tomaram) logo a seguir à acção militar.

 

Antes de escrever esta resposta, pensei em defini-la como “esclarecimento”, mas rapidamente cheguei à conclusão de que tal título seria uma expressão completamente falaciosa para o conteúdo da mesma. Sobre a sua reafirmação dos pressupostos que estão na base dos criativos documentários que passaram nas televisões portuguesas, em Setembro último, ou em artigos cépticos, nunca poderia esboçar um mínimo esclarecimento. Apenas posso deixar uma dúvida: será que não se encontrariam rapidamente mais provas de que o que aconteceu nesse fatídico dia 11 de Setembro de 2001, do que provas de que talvez não tenha acontecido o que a versão oficial indica, se se «investigasse», nos meios civis, no sentido da confirmação? Sem, francamente, achar que será o seu caso, a mim parece-me, apenas, que a lógica da conspiração vende mais e atrai mais nos meios de comunicação.

 

Por fim, e apesar de “várias sondagens realizadas pela CNN e BBC” indicarem que “cerca de 49 por cento dos habitantes de Nova Iorque acreditam no envolvimento do Governo americano nos atentados”, quero continuar a ter um mínimo de confiança nos Estados Unidos da América. Não porque ache que o Governo federal seja um presépio de Natal com poderes executivos, mas porque resolvi doar a minha boa fé à crença de que também não são um completo ninho de víboras. Isto, é claro, disponibilizando-me ao Sr. Carlos Patronilo para me penitenciar se algum dia for revelada uma conspiração de americanos, de facto, por detrás dos atentados do 11 de Setembro. Até lá, fico na dúvida se as guerras foram feitas da melhor maneira e no tempo acertado, mas resignado ao facto de que a resposta do Presidente dos Estados Unidos da América, logo em 2001, era a única possível aos atentados que então todos vimos.


João Carlos Silva - 17-11-2006 17:26

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