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• 02-01-2007 •
Provedor do Leitor
por João Aldeia
(Provedor do Leitor)


Capacidade crítica de leitura



Aproveito a crónica de hoje para chamar a atenção para a revista “Trajectos”, editada pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa e dirigida por José Rebelo, professor daquela instituição universitária. A edição dupla com os números 8 e 9, lançada em Outubro passado, tem como tema os Média e a Política. José Rebelo é um setubalense conhecido da cidade, onde desempenhou as funções de vereador da Cultura durante o mandato 1986/89. Foi no desempenho destas funções que promoveu a aquisição do edifício da antiga Fábrica Periennes para instalação do Museu do Trabalho.


Nesta edição da revista Trajectos tem especial interesse a secção de “Debate”, onde vários autores comentam um artigo do professor francês Rémy Rieffel, que esteve recentemente em Portugal. Alguns destes autores estiveram presentes na sessão de lançamento que teve lugar a 19 de Outubro de 2006: António Cluny (presidente do sindicato dos magistrados do Ministério Público) e os jornalistas Diana Andringa e Adelino Gomes.

 

Neste debate foram referidos alguns exemplos de “tratamento” político da informação. Diana Andringa, cujo artigo na revista “Trajectos” se debruça sobre a “sedução” feita pelos políticos aos seus leitores, utilizando os jornais como veículo dessa mesma sedução (e dando como exemplo a participação da deputada Odete Santos na programa “Dança Comigo”), salientou que considera a “espectacularização” da política em Portugal especialmente perigosa pois, dado o baixo nível educacional, os leitores estarão pior equipados para “descodificar” as notícias que lêem: “quanto mais instruída é uma população mais instrumentos tem para conseguir decifrar as mensagens que lhe chegam”.

 

Na sessão de lançamento do livro de Helena de Sousa Freitas, "Sigilo Profissional em Risco”, que decorreu a 16 de Dezembro na Biblioteca Municipal de Setúbal, Diana Andringa também salientara a importância que atribui ao facto dos leitores estarem dotados de capacidade crítica para a leitura da imprensa. A jornalista chegou mesmo a sugerir que se realizassem leituras colectivas de jornais, com o objectivo específico de treinar essa leitura crítica. A jornalista crê que é impossível uma imprensa absolutamente “neutra” e “pura”, pelo que a solução de uma boa relação entre o jornal e o leitor não se pode basear apenas na ilusão dessa “neutralidade” informativa, mas principalmente na capacidade dos leitores para filtrar aquilo que lêem.

 

Na sessão de lançamento da “Trajectos”, Diana Andringa reforçou esta ideia considerando como negativa a tendência que tem vindo a ser defendida de “despolitização” e “despartidarização” dos jornais, na medida em que estes se passaram a abster de fazer uma leitura do mundo, pois acha que os jornalistas devem de algum modo ser intérpretes das notícias que veiculam.

 

Adelino Gomes, pelo seu lado, contrariou esta ideia, referindo um estudo feito há alguns anos sobre a imprensa portuguesa, onde se detectou que a maioria das notícias era redigida pela agência noticiosa ANOP, limitando-se os jornais a reproduzir a mesma notícia. Um dos casos citados nesse estudo era o de uma notícia de uma greve dos trabalhadores do comércio, reproduzida por dois dos jornais diários portugueses, diferindo apenas nos títulos: num dos casos referia-se a “continuação da justa luta dos trabalhadores”, enquanto que no outro se salientava a “manipulação” dessa luta pelos partidos de esquerda.

 

Nesta edição da revista “Trajectos” cabe ainda realçar o artigo inicial de José Rebelo, “Prolegómenos a Narrativa Mediática”, onde equaciona algumas das dúvidas que se colocam face à recente evolução tecnológica dos media, permitindo nomeadamente que o cidadão comum seja ele próprio emissor e participante do acto jornalístico, através do uso da Internet, dos telemóveis, etc. Muitos se questionam se disto não resultará uma tendência para o estilhaçar de conteúdos e perda do referencial de compreensão do mundo, enquanto outros entendem que estas mesmas ferramentas tecnológicas, colocadas à disposição do cidadão comum, poderão permitir a recombinação da informação pelo próprio sujeito.

 

E já que se falou de novas tecnologias, refira-se que o blogue “Indústrias Culturais” inclui quatro pequenos vídeos com extractos das intervenções da referida sessão de lançamento da revista “Trajectos”, onde se podem ouvir José Rebelo, António Cluny, Diana Andringa e Adelino Gomes, que também utilizei para a redacção deste mesmo artigo.


João Aldeia - 02-01-2007 18:42

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