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Se o objectivo do governo socialista é garantir informação de qualidade na RTP, essa intenção tem sido largamente ultrapassada por um outro objectivo: pacificar as hostes com a propaganda às medidas e projectos de José Sócrates. Os portugueses estão submetidos, actualmente, no principal canal público, a uma censura "democrática", que sacrifica a informação plena e crítica em nome da boa imagem do governo. "Deixem-nos trabalhar", é, no fundo, o que Sócrates quer dizer quando não se critica (na RTP) o que por ele é dito, e quando a maioria dos jornalistas se vêem limitados a ser funcionários, não do Estado, mas do governo.
Sou só eu que fico incomodado com a forma que o governo do PS escolheu para a sua imagem ou há mais pessoas cépticas? Tenho visto multiplicarem-se, no último ano de governação socialista, os elogios à eficácia com que José Sócrates, e demais executivo socialista, manipula a sua bancada parlamentar (em clara maioria, mais visivelmente pressionada pela sombra da “paz podre”, ou da “lei do consenso”, do primeiro-ministro e, como tal, obediente – atitude compreensível num país em que o desemprego continua a crescer), limita a liberdade de crítica e de desmistificação e, consequentemente, a liberdade de expressão (basta lembrar os poderes da Entidade Reguladora para a Comunicação Social – ERC), passa ao lado dos pedidos de esclarecimento mais pertinentes com meros folhetos de uma confusa oferta de um Paraíso Perdido (seja este um país altamente dotado da tecnologia mais moderna ou uma economia que irá crescer dentro de alguns anos mas cujo crescimento ainda, tenhamos calma, não é possível ver) e, sobretudo, abdica de todo um programa eleitoral para pisar o eleitorado que lá colocou o PS, os socialistas que confiaram num governo efectivamente “socialista” ou, pelo menos, “à esquerda” – em suma, trai quem nele confiou o poder e quem aceitou as suas ditas propostas.
Mas um dos órgãos mais importantes deste novo método de governar, ainda que subtil, tem sido a televisão. Sócrates teve a visão: o governo tem tanta necessidade e legitimidade de usar a comunicação social para seu proveito como a oposição. Engano.
Um governo eleito para um mandato representativo não pode, ou pelo menos não deve, fazer política enganando o público (porque a política é, hoje, em grande medida, isso mesmo) usando um dos organismos estatais mais financiados pelos “dinheiros públicos”: a RTP. Caso contrário, acontece-nos a nós o mesmo que acontece na Venezuela actual, em que um ditador foi eleito para acabar com a liberdade e, sobretudo, aproveitou para criar uma poderosa arma de governação: a comunicação social, e em especial as suas aparições para “discursar” às famílias venezuelanas, explicando o quão benevolente e “amigo do povo” é o seu governo, qual David contra o Golias americano. Não temos o venezuelan way of life, nem um governo com aspirações a ditadura, mas o canal do Estado não está longe de ser o pacificador e “educador” que é o canal oficial de Hugo Chávez. Aliás, José Pacheco Pereira, entre nós, já apelidou de “momentos-Chávez”, de forma lucidamente aberta e sem reservas, as acções da RTP em prol da governação socialista, no tempo de antena a que nós, ainda há cerca de dois anos, chamávamos simplesmente “Telejornal da Um”.
Repare-se, sobretudo, no subtil saneamento do pobre crescimento em Portugal. Se a média de crescimento na área euro é de 2,3% e Portugal teve, em 2006 (segundo o Instituto Nacional de Estatística) um crescimento de 1,3% – contrastando com os 3% prometidos por Sócrates – porque é que na RTP só se mostra a reacção, a explicação e os “esforços” no governo nesse sentido? Da carga fiscal cada vez mais elevada e do crescimento imparável dos níveis de desemprego, então, nem poderemos falar, tal a desgraça que significam para os portugueses, ao mesmo tempo que contrariam as principais bandeiras do PS na campanha eleitoral.
Num plano geral, lanço um desafio: tentem lembrar-se das imagens de pobreza, de barracas, de gente a viver na miséria, que têm visto na RTP no último ano. Arrisco: já não se vê pobres no telejornal da RTP. Mas acabou a pobreza em Portugal com este governo? O país já não tem pobres? Enriqueceu? Pelo contrário, se sensatamente aceitarmos as estatísticas oficiais.
Daqui devemos, no entanto, excluir as notícias dos problemas exclusivos das “terríveis gestões” das Câmaras de Lisboa e do Porto, ambas ganhas pelo PSD, e que nos mostram capitais descontentes, quer seja com as “políticas de habitação” de Rui Rio quer com o túnel do Marquês ou o “escândalo” da corrupção na equipa de Carmona Rodrigues. Para além disto, algum problema da responsabilidade do governo nas cidades mais importantes do país? Nunca. Nem pensar.
À margem de tudo isto, os portugueses têm tido outras opções. Muito habituadas a ver os telejornais (eu incluído), as pessoas estão gravemente sujeitas à “desinformação” que a RTP nos oferece, muitas vezes (o que é algo subtil, já que a “desinformação” e a “informação” estão muito próximas, divididas apenas por factos mais aprofundados que são omitidos no caso da primeira).
A solução está, talvez, nas colunas de opinião de gente que se assume politicamente ou, mais importante, frontalmente, de quem sabemos o que esperar. Ou, mais importante ainda, num novo meio essencial para a troca e conflito de ideias em Portugal: a blogosfera. Um exemplo da liberdade de opinião aí permitida (à margem da estalinista ERC) é a atenção dada à questão da propaganda governamental da RTP. Bruno Alves, por exemplo, no blog/site Desesperada Esperança, é um dos que tem alertado para a “governamentalização” (não confundir com “estatização”) dos canais do Estado. Por exemplo, em Dezembro do ano passado, escrevia: “O telejornal da RTP abre com a notícia de que o Governo havia chegado a acordo com os parceiros sociais quanto a um aumento progressivo do salário mínimo até 2011. O anúncio de aumentos do salário mínimo é sempre popular, e o Governo sabe-o. Esse anúncio torna-se ainda mais eficaz quando, vinte minutos depois, o telejornal regressa ao assunto, para transmitir em directo uma declaração do primeiro-ministro, vangloriando-se do feito, e em que a única pergunta feita pelo jornalista da televisão estatal é feita num tímido tom servil, com uma referências ao novo slogan "flexisegurança", contribuindo assim para o esforço propagandístico do Governo”.
Já Pacheco Pereira sublinha, em artigo no Público de 10 de Março último, que “é no controlo dos efeitos negativos das notícias que se percebe melhor a governamentalização”. Resta-nos, pois, contornar as armadilhas da “informação seleccionada” e encontrar fontes de informação críticas e minimamente fiáveis na comparação de jornais e notícias, colunistas e blogs.
Assim, ao mesmo tempo em que as manifestações contra as políticas do governo (com destaque para as que tinham o objectivo de protestar contra o encerramento de urgências), incêndios, pobreza, fraco crescimento económico, desemprego são assuntos que merecem pouco tempo de antena, os discursos e declarações oficiais de gente do governo são transmitidos com uma elegância e naturalidade que, não fossem completamente prejudiciais para a informação dos portugueses, seriam de elogiar, pela sua eficácia.
Se só houvesse RTP, de Sócrates eu só saberia que é um homem consciente e “com uma visão de futuro”. Se só houvesse RTP, dos protestos em Valença do Minho eu só conheceria o ridículo de meia dúzia de homens a empurrar uma maca de hospital contra uma barreira policial. Enfim, se só houvesse RTP, eu só poderia estar solidário com um governo seguro e confiante no crescimento e no desenvolvimento que tem de enfrentar a rudeza das “gentes ignorantes”. Como há outros canais, como há liberdade de informação (que resistirá à ERC e, sem dúvida alguma, à própria RTP), apenas posso estar solidário com quem se quer manter informado. Quando muito, estarei solidário com António Vitorino, que ao dizer (no dia da vitória socialista nas legislativas) que este não seria “um governo da comunicação social nem para a comunicação social”, contrariou a tendência que, afinal, hoje se verifica. Estou solidário com ele porque, com o seu erro, ao dizer aquela frase sem significado, mostrou estar em total dissonância com o PS de José Sócrates. Isto é, contrariou José Sócrates. Porque este é, de facto, um governo da comunicação social.
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