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• 26-04-2007 •
Crónica de Opinião
por João Carlos Silva
(Estudante Universitário)


O Eterno Retorno de Salazar


O concurso "Os Grandes Portugueses" parece ter dado que falar a toda a gente. Aliás, pessoas que já deviam estar com um pé na cova ganharam novo alento para lutar contra um arqui-inimigo há muito enterrado.


Relançou-se uma nova paranóia em redor do hipotético regresso dos “sebastianistas” portugueses. A criação/recriação do medo do regresso do Homem das Botas ganhou novo sopro de vida. Com a seguinte explicação: esperaram-se, em tempos, D. Sebastião, D. Miguel e outros, mas a partir do século XX a figura messiânica passou a ser apenas uma. Esse novo Messias da direita seria Salazar. Mesmo quando muitos eleitores ocasionais do PS e até mesmo do PCP me falam, elogiosamente, do velho. A política, e as eleições, não se fazem só com militantes de cartão. De facto, a influência de Salazar (agora influência de uma inofensiva, distante e pouco detalhada figura para além da óbvio e merecida crítica e desprezo) está espalhada por muitos sectores da sociedade portuguesa, e pelos mais diversos quadrantes geográficos, com excepção talvez das grandes cidades. Mas, tendo em conta a validade, o rigor, a importância e, no fundo, a qualidade do referido concurso, o resultado que deu Salazar como “vencedor” não deveria ser de pôr os cabelos em pé. A não ser para um “antifascista”.

 

Millôr Fernandes tinha uma anedota em que um polícia (suponhamos, do Estado Novo) obrigava um homem a entrar para o carro patrulha, detido, acusado de ser comunista. “Mas eu sou anticomunista, dizia o homem. Ao que o polícia replicava: “não me interessa que tipo de comunista você é. Entre logo mas é para o carro”. A piada é subtil, e por isso deve ser lida com atenção. As dicotomias comunista/anticomunista ou fascista/antifascista são muito parecidas. Duas inimizades que, na verdade, vivem uma da outra. Ora, finda a Guerra Fria caíram as paranóias anticomunistas. Caiu o simbólico muro, acabou a luta dos anticomunistas. O aviso de Orwell quase que foi cumprido na totalidade, mas acabou por se desfazer (ainda que a estrutura do Estado soviético tenha sido muito bem aproveitada e adaptada por Vladimir Putin). Porque não, em Portugal – caído o salazarismo, e seu “reflexo marcellista”, há 33 anos –, abandonarmos o medo de referir sequer o nome do homem mesquinho que governou esta terra inóspita e inabitável durante quase meio século?

 

Este é um daqueles casos em que se deve ter alguma pena, por muito desrespeitador que seja esse sentimento, por algumas pessoas. Por aqueles espíritos que se encontram eternamente presos num combate esotérico e inexistente entre fascismo e comunismo.

 

Em que se receia, não uma ditadura ou uma renovada admiração pelo poder autoritário, mas sim o medo do “rival”. Neste caso: Salazar, rival e nemesis da história do Partido Comunista Português. Isto porque considero que não há mais do que um tipo de liberdade. E mesmo havendo várias liberdades possíveis, certamente não seria um regime de Salazar a oferecê-las, mas também nunca um de Cunhal. Nisso, na verdade, são iguais.

 

Por tenra idade, nunca conheci fascismo nem comunismo de perto. Felizmente. Reconheço essa diferença abissal em relação a um “antifascista” (e faço aqui a minha devida vénia a quem combateu o Estado Novo, sobretudo àqueles que viam como sublime missão o derrube do homem e do regime e não a importação do modelo soviético). Não vivi, ou sobrevivi, no período de ditadura. O que talvez, paradoxalmente, me tenha permitido ter as estruturas racionais para pensar em ambos os tipos de regime. Discerni-los e dissecá-los, sem a parte emocional que me seduziria para a extrema-esquerda, sem dúvida, se vivesse nos conturbados tempos de luta antifascista.

 

Mas a ideia do combate ao “fascismo português” já devia estar ultrapassada. O museu de Salazar, que reconhecidamente os pobres habitantes de Santa Comba Dão gostariam de ver erigido em nome da sua terra, foi imediatamente condenado por gente com pouco que fazer. Muitas das vozes que se levantaram, claro está, foram dos “antifascistas”, que é um eufemismo para “comunistas”. Facto: o PCP tem como ídolos uma elite de burocratas que empalharam Lenine e o espetaram no meio da Praça Vermelha à espera de beijinhos e devidas orações. Deus estava morto há muito, mas Lenine nunca morreria. Dissera Estaline e, certamente, disseram muitos comunistas portugueses por respeito ao exemplo soviético. Deviam, talvez, ter cuidado com a própria história quando criticam o apreço dos rurais à memória de uma das únicas figuras conhecidas da aldeia. Mesmo que pelas piores razões.

 

Porque não, então, fornecer a ajuda necessária para que o museu não seja uma declaração de amor ao homem nem uma prova de acusação contra o ditador, mas sim uma instituição de reconhecida probidade histórica, patrocinada pelo Estado e cuidadosamente sujeita ao escrutínio e debate de historiadores (nunca imparciais, claro, que um “imparcial” não é gente decente) dos diversos quadrantes políticos? Um museu como qualquer outro. Que o homem já bem merece, com tanta azáfama em seu redor.

 

Como brinde, enfie-se lá um boneco de cera como os do museu da Madame Toussaud – já que Salazar já não está em estado de receber feno e maquilhagem para adoração pública – e temos algo bem composto. Um museu histórico que agrada, certamente, a todos.

 

A memória desapaixonada será inevitável, mais tarde ou mais cedo. Salazar, pessoa medíocre e governante cego, não será, dentro de décadas, mais do que um ditador perdido na memória dos portugueses (com sorte, o último). Tal como o são o Marquês de Pombal ou Afonso Costa. Assim, com o museu de Salazar teríamos mais um ponto de apoio à cultura de um povo que não gosta de ler e se esmera nos concursos de televisão em fazer pirraça aos “antifascistas”. Teríamos no museu algo diferente dos disparates e lugares-comuns que se repetem às crianças nas escolas para que se odeie Salazar sem compreender o que era o Estado Novo. Goze-se lá com o Velho das Botas, dê-se-lhe um segundo funeral, mas não se esqueça quem ele foi. Não se esqueça que este tipo de sujeitos terá sempre admiradores e saudosistas, amantes do punho de ferro.

 

É que troçar de ditadores já mortos é sinal de uma democracia descomplexada. Gritar histericamente ao ouvir o nome de Salazar é que já não é.


João Carlos Silva - 26-04-2007 10:19

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