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É do conhecimento geral que as datas nas quais se celebra o Domingo de Páscoa oscilam de ano para ano aparentemente sem qualquer sentido. Será assim legítimo que os leitores do “Setúbal na Rede” se interroguem sobre esta aparente anomalia. Na crónica de hoje irei dar uma contribuição para o esclarecimento desta insólita situação que nos afecta anualmente.
A Páscoa é própria das igrejas cristãs e judaica. Sobre os pormenores religiosos não irei falar pois apenas interessam, para esta crónica, a origem e o modo como se calculam as datas do Domingo de Páscoa que depois condicionam o cálculo do Carnaval assim como do Domingo de Ramos e do dia do Corpo de Deus.
A Páscoa era celebrada pelos pastores judeus, antes do desenvolvimento da igreja cristã, e estava ligada ao início da Primavera assim como a uma noite de Lua cheia. Nessa altura do ano o Inverno ia enfraquecendo e o bom tempo voltava. Mesmo com os poucos recurso científicos da época era visível facilmente que os dias começavam ser maiores dos que as noites.
A religião cristã apropriou-se da festa da Páscoa dos judeus dando-lhe um cariz mais religioso, pois ligou a Páscoa à ressurreição de Cristo. A data da Páscoa cristã, nos primeiros tempos do cristianismo, tinha grandes oscilações e de vez em quando até coincidia com a Páscoa dos judeus o que era inconcebível do ponto de vista religioso. No ano de 325 DC, o concílio cristão reunido em Niceia determinou, depois de acalorada discussão, pois as opiniões eram muito divergentes, acertar a data do Domingo de Páscoa para o primeiro Domingo de Lua cheia após o início da Primavera. Mais tarde, quando entrou em funções em 1582 o calendário gregoriano, o actual, o início da Primavera foi fixado no dia 21 de Março.
Para evitar a coincidência de datas com a Páscoa dos judeus e para facilitar o cálculo do dia da Páscoa, foi então criada a figura da lua eclesiástica diferente da Lua astronómica mais difícil de tratar matematicamente.
A Páscoa assim definida pode recair entre o dia 22 de Março e 25 de Abril, inclusive. Para o cálculo da Páscoa há dois processos. O mais antigo, o criado pelos estudiosos cristãos, é o chamado processo das epactas que utiliza tabelas e alguns cálculos simples mas aborrecidos. O processo mais recente é o matemático, do qual há várias variantes, que usa um conjunto de cálculos aritméticos. Este assunto, nos séculos passados, era tão importante que até um matemático com a envergadura do alemão Gauss estudou-o e determinou um processo de cálculo. Actualmente, com as possibilidades de cálculo dos modernos programas de computador, tipo “folha de cálculo”, é muito fácil calcular a data da Páscoa para qualquer série de datas.
A diferença entre o Lua real e a Lua eclesiástica, assim como as limitações para que a Páscoa cristã nunca calhe na data da Páscoa judaica, faz com que chegue a haver alguns dias de diferença entre a Páscoa matemática e a cristã.
O cálculo primitivo da Páscoa era baseado num conjunto de conceitos em parte matemáticos em parte quase místicos como o áureo número, a epacta e a letra dominical que, através de algumas contas relativamente simples mas enfadonhas, lá davam no final o dia da Páscoa. Mais tarde surgiram tabelas, como as do francês Jean Delambre, publicadas no final do século XVIII, que a partir daqueles valores davam logo o dia da Páscoa e dispensavam vários cálculos.
Se calcularmos as data da Páscoa para o período dum século verificamos que as datas são distribuídas de modo muito irregular. Por exemplo este ano a Páscoa foi no dia 23 de Março, uma das datas mais recuadas. No século passado apenas se verificou em 1913, neste século será apenas em 2008 e depois apenas no ano 2228 é que os nossos vindouros terão a Páscoa no dia 23 de Março. Quer dizer, num período de 316 anos apenas há três anos com a Páscoa nesta data. O dia mais recuado, 22 de Março, apenas foi contemplado no ano de 1818 e o próximo será no longínquo ano de 2285. Num período de 468 anos apenas dois anos terão aquela data. Por sua vez a data mais extrema, o 25 de Abril, no século passado calhou no ano de 1943 e o próximo ano será em 2038, em 96 anos acontecerá duas vezes apenas.
Dentro das datas possíveis da Páscoa verifica-se que num século a maior parte das datas podem ocorrer entre quatro e nove vezes mas sem qualquer relação entre si. Curiosamente o número oito, isto é uma data em que há oito anos com a Páscoa num século é a que ocorre mais frequentemente, cerca de 36% do total. A quinzena em que a Páscoa ocorre com mais frequência medeia entre o dia 6 e 21 de Abril em que acontecem cerca de 60 % das datas.
Os leitores que nasceram entre 22 de Março e 25 de Abril poderão,de vez em quando, fazer anos num Domingo de Páscoa. Mesmo que vivam 90 anos no máximo farão quatros vezes anos na Páscoa e de maneira muito irregular. Por exemplo, uma criança que tenha nascido no dia 15 de Abril do 2000, apenas fará anos nos Domingos de Páscoa dos anos 2001, 2063, 2074 e 2085.
Esta irregularidade da Páscoa provoca muitos transtornos no ano escolar uma vez que faz a distinção entre o segundo e o terceiro período. Este ano o segundo período foi mais curto que o habitual mas normalmente o que sucede é o terceiro período ser muito curto em relação ao segundo. Aqui há uns anos atrás um “iluminado” secretário de Estado da Educação, mais um dos inúmeros que por lá passaram, quis fixar as férias da Páscoa num período fixo independente da data da Páscoa. Claro que tão “douta” inovação só durou um ano. Os próprios pais dos alunos encarregaram-se de “puxar as orelhas” ao ilustre membro de Governo e tudo voltou ao sistema tradicional.
Modernamente a Páscoa tem implicações comerciais muito grandes devido à venda de artigos tradicionais e ao elevado número de pessoas que se deslocam em viagens turísticas. Assim, o que começou por ser uma festa de pastores pobres judeus que celebravam o fim do Inverno passou a ser mais um símbolo da sociedade de consumo que tudo transforma em mercadoria até mesmo para aqueles que têm, ou dizem ter, fé religiosa cristã.
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