Director do “Setúbal na Rede”
Completa-se hoje, dia 5 de Janeiro de 2008, uma década sobre o nascimento do “Setúbal na Rede”, o primeiro jornal digital do país. Dez anos claramente divididos em duas fases distintas: a do surpreendente sucesso, tendo em conta as dificuldades próprias do pioneirismo; e a da crise, conjugando os problemas económicos do país e da região com um conjunto de estranhos preconceitos e equívocos. Por isso, se por um lado hoje é motivo de regozijo para o Portal do Distrito ter atingido esta idade, por outro, é com mágoa que assinala tão simbólico momento sem o brilho de outrora.
Há dez anos vivia-se ainda a pré-história da Internet. A informação sobre o distrito de Setúbal era praticamente inexistente. A comunicação social desta região pautava-se por critérios de reduzidíssima exigência. Estes foram os factores principais que levaram ao nascimento do “Setúbal na Rede”. Sem expectativas muito altas, consciente dos obstáculos que ia encontrar, mas com um projecto ambicioso. Assim se explica que no dia 5 de Janeiro de 1998, para além das notícias da actualidade, fizessem manchete as entrevistas com D. Manuel Martins, bispo de Setúbal, Alberto Antunes, governador civil, e Mata Cáceres, presidente da câmara de Setúbal. O nascimento ficava ainda marcado por uma mensagem do secretário de Estado da Comunicação Social, Arons de Carvalho.
A comunicação social, sobretudo a nacional, fez eco deste nascimento e a receptividade foi inesperada. Nesse primeiro dia, o servidor sentiu as dificuldades de um número inesperado de visitantes. No dia seguinte, uma equipa da RTP filmava uma reportagem. Nas semanas sequentes foram publicadas entrevistas com os restantes presidentes das câmaras que compõem o distrito, assim como outras personalidades da realidade regional. E foi-se desenhando o estilo editorial do “Setúbal na Rede”, assente em premissas de grande rigor.
Foram também começando a surgir os primeiros conflitos. Era um estilo novo de jornalismo na região. Activo, empenhado, logo incomodativo para quem estava habituado a outro tipo de atitude e de subserviência. Em dez anos de actividade e com muitos milhares de notícias publicadas, o “Setúbal na Rede” orgulha-se de sempre ter cumprido a sua regra de ouro: não publicar comunicados; incluir citações, colhidas de viva voz, em todas as notícias; confrontar os vários protagonistas envolvidos.
Isto quando, ainda antes do uso da Internet se generalizar, já era corrente na imprensa de Setúbal o recurso permanente ao corta e cola da informação institucional. Quando todos reproduziam fielmente os comunicados de imprensa, foi difícil para os colaboradores do “Setúbal na Rede” reivindicar o direito de questionar, de aprofundar os temas, de obter esclarecimentos, de confrontar os protagonistas, requisitos essenciais para a actividade jornalística.
Mas apesar dos conflitos gerados, também se foi conquistando o respeito de quem via no “Setúbal na Rede” um projecto independente, sério e exigente. Isso ficou especialmente patente quando, em 1999, recebeu o Prémio Gazeta de Imprensa Regional, o maior prémio de jornalismo em Portugal, atribuído pelo Clube de Jornalistas. Distinção que quase coincidiu com a nomeação do seu promotor para o Prémio Jovem Empreendedor, da Associação Nacional de Jovens Empresários.
Aquilo que nascera como um projecto caseiro, amador, depressa deixara de caber do espaço da sala de estar, passando a ocupar um escritório num ninho de empresas, o CEISET, cujo director em boa hora ofereceu o seu apoio. Começaram os encargos com instalações, com aquisição de material e equipamentos e com a contratação de pessoas. Em pouco tempo eram já sete pessoas no quadro, com remunerações bem acima da média, porque a exigência do trabalho assim o impunha.
As ideias fervilhavam. A ousadia e o arrojo tornaram-se imagem de marca. Novas secções abriam permanentemente. De semanário passava a portal com actualização constante. Começavam as iniciativas presenciais, com a realização de debates, seminários e tertúlias. A edição de livros, com trabalhos de vulto sobre a região. O pioneirismo continuava presente, ao mostrar que um projecto digital não tem que se confinar ao monitor de um computador e ao assumir que o papel não é um suporte ultrapassado.
Em 2002, quando a crise começou a bater à porta, já o “Setúbal na Rede” tinha experimentado de tudo. Até o som nas notícias, até o vídeo. Os espaços de participação cívica e os leilões. As parcerias com as instituições regionais e o jornalismo de causas. Estava na vanguarda.
Foi então que se deu a viragem. Instalou-se a crise. A situação financeira das autarquias, principais agentes económicos nos diferentes concelhos, entrou em colapso. As empresas deixaram de ter liquidez para honrar os seus compromissos. A isto juntou-se um investimento tecnológico na empresa, a edição do segundo volume do livro “Memórias da Revolução no distrito de Setúbal” e outros ‘azares’ relacionados com atitudes menos dignas de pessoas ligadas ao projecto.
De um momento para o outro invertia-se o percurso. Tentou-se segurar o barco enquanto se pôde, mas em Abril de 2003 o diário Público noticiava: “Primeiro jornal digital português em risco de acabar”. Não acabou, mas tem apenas sobrevivido. Até há pouco tempo sem sequer beliscar significativamente a qualidade do produto final, mas apenas assegurando pouco mais do que os serviços mínimos. Mesmo assim, longe dos tempos de glória, cumprindo a sua missão e mantendo-se como referência e líder de audiência.
Mas onde está hoje, afinal, o maior obstáculo ao desenvolvimento? Essa é a parte curiosa. A maior luta, sempre, do “Setúbal na Rede”, foi contra as mentalidades instaladas. Há quem diga que esta região é especialmente difícil nesse campo, falta-lhe massa crítica, não tem identidade regional, é o efeito magnético da grande capital aqui ao lado. Pois, talvez por isso se diz também que é uma região madrasta.
No início, já se sabia, era preciso romper o preconceito negativo sobre a Internet. Só se falava dela para denunciar redes de pedofilia ou terrorismo e para procurar sexo. Mesmo assim, esse foi o obstáculo mais fácil de ultrapassar, pois a partir do momento que dispusemos de um portátil, bastava mostrar ao interlocutor o trabalho desenvolvido. Depois veio o fascínio e todos achavam que, ao invés de se associarem ao “Setúbal na Rede”, o melhor era fazerem o seu próprio jornal digital, ficando assim com a totalidade dos lucros.
Nasceram vários jornais digitais, viu-se de tudo um pouco. Afinal não era a árvore das patacas e a capacidade de esforço não estava à altura das exigências. Não se tratava de lucro fácil e o sucesso não vinha com o estalar de dedos. Foram morrendo, mas enquanto existiam lançavam a confusão. Inclusivamente, praticando preços inconcebíveis nos anúncios, pois se também não têm encargos inerentes à actividade. Trata-se, apenas e sempre, de fazer corta e cola.
Agora, desde há uns anos, vive-se um descrédito estranho sobre o suporte digital. Estranho porque em nada fundamentado. Todos utilizam agora a Internet. Todos reconhecem a sua importância. Mas ainda se ouvem frases do género: “é o futuro”.
Ainda se ouve dizer que “não chega a toda a gente”. Mesmo quando os números mostram que o “Setúbal na Rede” tem 2,5 milhares de visitas por dia, 75 mil por mês. Nenhum jornal de papel tem números similares, embora estejam disponíveis para todos nos escaparates dos quiosques e com os exemplares excedentes a avolumarem-se.
Mas curiosamente, têm-se sucedido as campanhas, de empresas e de instituições da nossa região, mesmo agora no último Natal, que são inseridas em todos os jornais de papel, mas não chegam ao “Setúbal na Rede”. E a justificação é que, sendo necessário cortar nas despesas das campanhas publicitárias, decidiram não fazer nos meios on-line. Ridículo, quando somos líderes de audiência, mesmo quando comparados à imprensa de papel. Ridículo, quando muitas vezes o público-alvo das campanhas tem mais a ver com o leitor do “Setúbal na Rede” do que com o de outros meios.
Isto é especialmente pertinente se tivermos em conta que a comunicação social tem como única fonte de receitas a venda de espaço publicitário. Com excepção do ínfimo valor de venda em banca de alguns jornais e daqueles órgãos que possam ser financiados para promover outros objectivos. Mas quando se insiste em ser independente, só resta mesmo a venda de publicidade. E é aqui que a independência começa também a pesar.
É estranho, mas as principais imagens de marca do “Setúbal na Rede”, a sua independência, a sua seriedade e o seu rigor, são também o seu maior obstáculo ao desenvolvimento e mesmo à sobrevivência. Porque há instituições que se habituaram à atitude passiva da comunicação social e a manipular o que é publicado. Hoje, não há nenhuma entidade que não tenha um gabinete de comunicação a produzir os seus comunicados à imprensa. E é disto que se alimentam os jornais, transformados em meros veículos de propaganda. Paradoxalmente, os jornalistas passaram das redacções dos jornais para os gabinetes de comunicação, pois é lá que as notícias são escritas.
No “Setúbal na Rede” queremos ter jornalistas incómodos, daqueles que fazem perguntas, que gostam de esclarecer dúvidas, de saber mais, para informar melhor. Por isso, ironicamente, não somos bem vindos. E foram já vários os contratos de publicidade que perdemos por isso. Dito sem hesitações: “cancelamos o anúncio porque o “Setúbal na Rede” não publica as nossas notícias”. É também interessante saber como se gasta o dinheiro, muitas vezes de instituições públicas, que preferem pagar a quem está subserviente, mesmo que ninguém leia, do que a um órgão de grande audiência que ousa ser independente e não manipulado.
Por isso, a comemoração dos dez anos de existência, sendo um momento de regozijo, é também um tempo de angústia. Porque na década cumprida, acabou por ser mais longo o período de sacrifício do que o de crescimento. Porque embora todos os factores estejam a favor do “Setúbal na Rede”, as expectativas não são as melhores a avaliar pelos últimos anos. Anos de esforço pela saída da crise, em que as dificuldades só geram maiores dificuldades. Porque quando uma empresa está debilitada, a banca aproveita para engordar. Porque o sistema fiscal continua a penalizar as pequenas empresas. O país continua deslumbrado com o jogo da Bolsa, das OPA’s e da especulação financeira. E a recusar ver o papel social fundamental das micro-empresas.
Em situação de sufoco financeiro permanente, com os bancos e as Finanças a encontrarem sempre mais um motivo para uma cobrança inesperada, não se consegue remunerar devidamente os colaboradores. Em consequência, não há estabilidade nem crescimento. Além disso, apesar dos índices de desemprego, não se encontra mão-de-obra qualificada, ou pelo menos humilde o suficiente para se apresentar com disponibilidade para aprender. É um ciclo vicioso que nos entontece e que marca esta data que devia ser festiva.
Acabar era a saída óbvia e natural. Mas os mais atentos também já perceberam que está envolvida igualmente muita persistência e teimosia. Porque se é difícil continuar, mais doloroso será certamente recuar com o peso na consciência de não se ter ido mais além. Porque há um percurso trilhado, porque há um património de marca, de prestígio, de acervo. Porque há a recusa em admitir que a região não merece um projecto assim. Porque há palavras de incentivo, como as que publicamos na secção dedicada aos dez anos, que nos impelem a continuar.
Neste momento, é igualmente importante agradecer a quem tem colaborado com o “Setúbal na Rede”, e são muitas dezenas de pessoas que já deram o seu contributo. Assim como prestar o reconhecimento às empresas e entidades que têm visto no “Setúbal na Rede” um parceiro de percurso. Ao serviço da região. Mesmo que, a partir de agora, tenhamos que pensar em deixar cair a nossa regra de ouro, inviolável em dez anos. Fazer como os outros, aprender a jogar com as regras, mesmo com a consciência de que não era isto que queríamos fazer e que não é isto que devia ser feito.
Assim, e enquanto não encontramos os apoios suficientes e a aposta clara neste projecto de uma parte mais significativa dos agentes da região, alimentamo-nos de outro tipo de dividendo: as palavras de carinho e a consciência da importância do nosso trabalho. Por isso, gostávamos de receber também o seu testemunho, o seu contributo e apoio.
Muito obrigado a todos.