[ Edição Nº 12 ] – Joaquim Marcelino tem dúvidas sobre a viabilidade do concelho de Azeitão.

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Marcelino tem dúvidas sobre a viabilidade do concelho

          Joaquim Marcelino, presidente da Junta de Freguesia de S. Simão, é favorável à restauração do concelho de Azeitão, sobretudo por uma questão sentimental. Em termos práticos não deixa de levantar algumas dúvidas sobre a viabilidade do projecto.           Acusando o executivo da Câmara Municipal de Setúbal de desprezo pela região e de ser o primeiro culpado desta ansiedade dos azeitonenses, o autarca não deixa também de falar de discriminação em relação à sua freguesia e de acusar os elementos do PS responsáveis pelo projecto de criação do concelho de desconhecimento da realidade de Azeitão.



          Setúbal na Rede – Qual a sua opinião sobre o projecto do PS para a restauração do concelho de Azeitão?
          Joaquim Marcelino
– A nível nacional todos os partidos têm agido da mesma maneira quando o Partido Comunista faz uma proposta. Primeiro votam contra mas quatro ou cinco anos depois vêm apresentar uma proposta similar. Foi o que aconteceu quando o PCP apresentou a proposta para a restauração do concelho de Azeitão, em 1985, e agora, à última da hora, sem consultar a população, sem consultar as Juntas de Freguesia interessadas, o PS aparece com um projecto que dá a impressão de ter andado a esconder para que os outros partidos não soubessem o que se estava a preparar. Em relação à restauração do concelho, nós somos a favor mas temos dúvidas. Somos a favor porque há uma parte da população, aquela que nasceu e foi criada em Azeitão e que se lembra de ouvir falar do concelho, que pretende voltar a ter o concelho por uma questão mais sentimental. Depois há outra parte, que neste momento será a maioria, que não sendo originários de Azeitão, têm sentido o desprezo e o abandono a que a Câmara de Setúbal, nestes últimos anos, tem votado esta região e, por isso, sentem necessidade de alterar esta situação, nomeadamente a população que vive na zona de Brejos, onde a situação é catastrófica e onde não tem sido feito nada, e que vão também, por isso, defender a restauração do concelho. Pessoalmente, eu tenho dúvidas sobre como o processo decorreu, de uma forma fechada, sem discussão com a população, e tudo isto a acrescentar ao facto de os proponentes do projecto do PS não serem pessoas que conheçam Azeitão, pois apenas uma delas é natural daqui e mesmo assim só conhece Vila Nogueira. Ora, a área de Azeitão é muito grande e as maiores carências não estão, certamente, em Vila Nogueira. Depois, quando foi feita a apresentação deste projecto, foi convidado a presidente da Junta de Freguesia de S. Lourenço mas a de S. Simão não foi convidada. Não entendemos de forma nenhuma, nem aceitamos, que se entre num processo de constituição de um concelho, quando uma das juntas de freguesia é excluída. Se o PS pensa que está a lidar com o anteriores executivos de junta do próprio Partido Socialista que aceitava todas as ordens superiores, com a actual Junta de Freguesia de S. Simão, que é da CDU, isso não funciona porque não o vamos admitir.
          SR – Enquanto Presidente da Junta de Freguesia de S. Simão qual a posição que vai tomar em relação a este projecto? Conta participar nas reuniões do movimento Azeitão a concelho?
          JM
– Se formos convidados, com certeza que vamos participar, porque a nossa posição é a favor do concelho de Azeitão, por pensarmos que a maioria da população é favorável à restauração do concelho. Mas também não vamos esperar pelo convite para essas reuniões, pois vamos fazer as nossas próprias reuniões com a população desta freguesia. Embora haja a tentativa de fazer crer que Azeitão é só Vila Nogueira, eu também sou de Azeitão porque nasci na freguesia de S. Simão e eu, sendo a favor do concelho de Azeitão, também vou trabalhar nesse sentido. Mas é claro que havendo discriminação em relação a esta freguesia, as pessoas ficam logo de pé atrás.
          SR – Por que razão julga que existe essa discriminação?
          JM
– Isso tem existido sempre. Inclusivamente entre as pessoas que apresentaram a proposta da restauração do concelho, há quem só conheça Vila Nogueira e mesmo tendo cargos públicos em que deviam defender esta população, nunca se preocuparam em conhecer a região e os seus problemas. É por isso que eu ponho em dúvida se a criação do concelho de Azeitão vai realmente alterar este panorama e trazer algum benefício, por exemplo, à zona dos Brejos, que é das mais degradadas das duas freguesias. Isso deixa-me também a pensar que, ou estas pessoas querem auto-promover-se, ou estão a pensar em voos muito altos em termos do concelho de Azeitão ou então chegaram à conclusão que a política do PS a nível de concelho para estas freguesias foi um desastre total. É que o PS destruiu todos os organismos que existiam aqui para poderem trabalhar em conjunto com as juntas de freguesia e para poderem resolver estas situações degradantes, como a que se vive em Brejos de Azeitão.
          SR – Estando a CDU à frente das duas juntas de freguesias de Azeitão, e apesar de já ter apresentado um projecto em 1985, porque é que se deixou ultrapassar agora pelo PS na condução desta questão?
          JM
– Como lhe disse, é sempre assim a nível nacional. Nós alertamos para determinadas situações e há sempre um sinal de anti-comunismo que faz com que as propostas sejam rejeitadas. Veja-se a Lei do Aborto. Fomos os primeiros a apresentar e é o projecto do PS que acaba por ser aprovado na Assembleia da República. Aí nós votámos favoravelmente porque consideramos que mais vale ter esta lei do que não ter nenhuma. É o que vai acabar por acontecer com o projecto relativo ao concelho de Azeitão.
          SR – Considera então irreversível este processo de restauração do concelho?
          JM
– Não tenho dúvidas em relação a isso. Penso que nós vamos votar favoravelmente, embora me esteja a antecipar ao Grupo Parlamentar que é quem deve tomar a decisão. Na CDU de Azeitão, pelo menos, somos todos a favor da restauração, embora existam dúvidas que devem ser discutidas. É que, por outro lado, também pode não interessar à Freguesia de S. Simão estar a separar-se do concelho de Setúbal, para já porque tenho dúvidas em relação à capacidade económica de Azeitão para ser concelho. Não vejo indústria nem vejo nenhuma força económica que nos possa garantir que este seria um concelho viável. Nós continuamos a defender o concelho mais por uma questão de princípio do que por uma questão real. O que fez com que a população de Azeitão sentisse necessidade de levantar esta questão foi, de facto, a falta apoio da Câmara de Setúbal que tem desprezado esta região. A autarquia setubalense não tem ligado à população nem às próprias Juntas de Freguesia, e aí também estão incluídos os eleitos do próprio Partido Socialista que foram completamente desprezados nos anteriores mandatos.
          SR – Nesse sentido a lógica de criação do concelho de Azeitão é uma falsa questão, na medida em que é apenas uma forma de acabar som uma situação da qual se sentem vítimas e que tem a ver com este executivo camarário?
          JM
– Na minha opinião é uma questão que surge apenas como resposta à forma como a Câmara de Setúbal se tem comportado em relação a esta zona, salvaguardando as pessoas que sentem isto como uma questão sentimental, que são as que nasceram aqui. É por isso que eu digo que a maior parte das pessoas que estão à frente deste projecto não conhece Azeitão. Não pretendo ofender nem denegrir ninguém, mas estou apenas a constatar uma realidade, já que, pelo que eu sei, nenhuma das pessoas que estavam na apresentação do projecto é de cá, com excepção do Fernando Sacramento, e mesmo ele só conhece Vila Nogueira. Não conhece Azeitão nem os problemas da região.
          SR – Quais são os principais problemas da freguesia de S. Simão?
          JM
– A maior zona habitacional da freguesia é Brejos de Azeitão, que é onde estão também os maiores problemas, sendo esta a zona que tem também maior tendência para crescer. Nas outras localidades da freguesia o crescimento está limitado pela Serra da Arrábida e pelo Parque Natural da Arrábida. Para estas zonas temos inclusivamente um projecto que gostaríamos de discutir com a Câmara de Setúbal para preservar e beneficiar estas pequenas vilas, mantendo o seu traço tradicional. Em relação a Brejos há muito que fazer, pois falta água nalgumas zonas, faltam esgotos, faltam arruamentos e essa é uma situação que se arrasta há muito tempo. Havia um gabinete técnico em Azeitão, criado no mandato do Francisco Lobo, que dava um certo apoio e colaborava com as juntas de freguesia nestas situações mais críticas e na elaboração de projectos e o executivo do PS acabou com esse gabinete.
          SR – Tendo em conta a componente política inerente à criação de um concelho, parece-lhe que este processo de Azeitão vai decorrer de forma pacífica?
          JM
– O processo é com certeza pacífico pela parte da população que, quer por sentimento quer por necessidade, são favoráveis a restauração do concelho. Em relação aos partidos políticos, a CDU já tinha apresentado um projecto em 1985, por isso não há razão nenhuma para não votarmos favoravelmente este agora apresentado pelo PS. Agora, o que eu gostaria de dizer ao Mata Cáceres é que esta questão não se punha, ou pelo menos pela minha parte teria alguma compreensão pela situação em que agora se encontra, se ele tivesse tido outra atitude com Azeitão, com a população de Azeitão e com os autarcas de Azeitão, incluindo os do partido dele.

Entrevista de Pedro Brinca