[ Edição Nº 13 ] – Maurício Costa, presidente da LASA.

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A identidade da região passa pela elevação cultural das pessoas

          Maurício Costa, o homem que recuperou o prestígio da LASA, esquecido durante mais de duas décadas, garante, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, que a instituição veio para ficar, com a intenção de agir como grupo de pressão a favor do património e da Natureza.           Defensor das raízes de Setúbal, Maurício Costa representa um grupo de cidadãos interessados na projecção do concelho e das suas potencialidades, apostando na inteligência e na promoção cultural das populações, a começar por uma maior ligação à história de Setúbal.



          Setúbal na Rede – A Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão existe há cerca de quarenta anos. Porque é que, só agora começa a ser reconhecida?
          Maurício Costa
– A LASA nasceu em 1955 para servir de elo de ligação entre organismos da altura, como a Junta de Turismo, a Junta Distrital, a Câmara, o Governo Civil e o Museu de Setúbal. Através dessa ligação canalizavam-se para o Museu de Setúbal todos os subsídios dados à LASA, isto porque as leis daquela época não permitiam subsídios directos aos museus. Depois, com o 25 de Abril de 1974, toda esta estrutura foi alterada e a LASA entrou em «hibernação». Devo dizer que ainda ando à procura de arquivos da LASA que terão desaparecido não sei por que razão. No entanto, vamos continuar à procura desses documentos porque fazem parte da história da instituição. O período de «hibernação» da LASA durou até 1980, altura em que o Coronel Tavares de Carvalho foi eleito presidente e aí foi dado um novo impulso à instituição. Pela LASA passaram grandes nomes da história recente da região e cujas intervenções permitiram editar um livro denominado “Setúbal na História”.           Nascemos com um determinado estatuto que acabou por ficar desajustado ao tempo presente e, hoje graças à alteração desses mesmos estatutos, a LASA é uma instituição regional sem fins lucrativos que defende o património edificado e natural, sendo já considerada pelo Ministério do Ambiente como uma associação ambientalista. De facto, essa preocupação faz agora parte dos nossos objectivos, tal como a hipótese de ligações a outras associações para constituir federações ao nível da protecção do ambiente.

          SR – Enquanto presidente da LASA, como é que vê as aspirações do movimento para a restauração do concelho de Azeitão?
          MC
– Acho que Setúbal tem estado, durante muitos anos, de costas voltadas para Azeitão, e a própria LASA enferma desse problema. Eu assumo isso, de facto, mas a verdade é que, quando constituímos a direcção tivemos a preocupação de lá colocar um elemento de Azeitão e o que aconteceu é que apareceu à primeira reunião e nunca mais voltou. É um facto que temos tido dificuldade para fazer coisas em Azeitão. Devo dizer, no entanto, que temos tido a boa colaboração do presidente da Junta de Freguesia de São Lourenço, em acções como a defesa e preservação do Pinhal de Negreiros. Quanto à questão do concelho, acho que direcção da LASA, que até tem pessoas com ideias totalmente diferentes no que respeita a esta matéria, não se deve pronunciar abertamente sobre o assunto. Isto porque se entende que teria de ser uma assembleia geral a dar uma força e uma posição para a direcção assumir uma decisão. Mas enquanto presidente, tenho uma opinião pessoal. Ou melhor, a minha opinião seria esclarecida em virtude das respostas a algumas perguntas. E eu perguntaria ao promotores da restauração do concelho, quais são as vantagens concretas dessa mudança para a população. As vantagens concretas, não as políticas, e só a partir daí é que eu emitiria opinião.

          SR – Se, de facto, a vila de Azeitão ascender a concelho, o que é que vai acontecer à LASA?
          MC
– Se essa for a vontade da população, e a vontade da população é soberana, nós teremos é que aplaudir essa decisão. E a própria LASA continuaria a defender os interesses dos dois concelhos. Nem é preciso mudar o nome porque com toda esta tendência de globalização as fronteiras estão esbatidas e já quase nada significam. A LASA continuaria a fazer tudo pelas pessoas, pelo património, pela região, com ou sem concelho, porque o mais importante é o espirito de um projecto e das pessoas que fazem parte de uma instituição.

          A defesa do património contra a perda da identidade

          SR – Ao longo dos últimos anos, a LASA tem conseguido levar a cabo algumas acções no sentido de preservar o património da região. Quais foram as vitórias mais significativas?
          MC
– A questão da Pedra Furada, por exemplo. Este problema começou para a LASA em Maio de 1996, altura em que esta direcção tomou posse. O tema fez parte do nosso plano de acção, assim como outros de interesse para a região, por exemplo o caso da recuperação e conservação do Museu de Jesus, a placa alusiva a Sebastião da Gama, na Arrábida, e outros que têm vindo a ser resolvidos e, porque não dizer, muitos outros que têm vindo a ser adiados e esquecidos. No caso da Pedra Furada, despoletado no início dos anos oitenta pelo professor Galopim de Carvalho, director do Museu Nacional de História Natural, sinto-me de certo modo responsável na procura da melhor solução porque a Pedra Furada faz parte da memória cultural da nossa terra. Devo dizer que, quando a Câmara propôs à Assembleia Municipal a classificação da Pedra Furada como monumento de interesse municipal, eu elogiei publicamente essa posição considerando-a uma atitude importante e de grande dignidade. Mas disse também que não bastava ficar pelas intenções e que era preciso a concretização. E o meu amigo Galopim de Carvalho, que eu conheço desde os bancos da universidade, pelos seus conhecimentos e pela sua importância como director do Museu de História Natural, veio a revelar-se um elemento fundamental no sentido de dar um maior impulso a esta preocupação da LASA e, tenho a certeza, de toda a população, inclusivamente da própria Câmara. Refiro mais uma vez que em todos estes problemas não é a autarquia a única responsável até porque a comunidade tem a obrigação de se integrar, juntamente com uma acção colaboradora da Câmara, no sentido de resolver estas questões. Não quero dizer com isto que seja uma acção do «sim senhor presidente», pelo contrário, tem de ser uma acção de crítica construtiva com sentido de oportunidade e disponível. É essa a posição da LASA e espero que também a comunidade tenha esse mesmo espírito. Depois de se ter solicitado o título de monumento de interesse municipal, Galopim de Carvalho disse que era necessário avançar mais na defesa do monumento e classificá-lo como monumento natural. Mais uma vez a Câmara deu o aval e agora caminha-se para a criação de um museu em volta da Pedra Furada, com a ajuda do Museu de História Natural, o que implica a conservação e a preservação do geomonumento.
          SR – Como é que a LASA sobrevive?
          MC
– Nós apostamos no capital da criatividade e da massa cinzenta. Isto porque não somos subsidiodependentes, ou seja, não recebemos subsídios de qualquer instituição. Vivemos das quotas dos cerca de quatrocentos sócios e o que propomos às instituições é a realização de actividades que, em parceria, poderão ser apoiadas. É preciso Ter ideias e criatividade, é preciso querer. Nós queremos que todos os setubalenses que queiram viver e sentir pela terra, trabalhem connosco. Sejam ou não sócios da LASA, tenham a religião ou o credo político que tiverem. O que importa é trabalhar pela região. Agora, por exemplo estamos a trabalhar com a associação de comerciantes da baixa no sentido de melhorar a baixa comercial da cidade, o ano passado trabalhámos com a Freguesia de São Lourenço e para este ano, ainda, temos previstas colaborações com as juntas de Santa Maria e de São Sebastião, ao nível do levantamento património existente nestas freguesias, para além de todo o património arquitectónico de Azeitão. E digo mais, o que gostaria de fazer, no mais curto espaço de tempo, era de facto um vídeo sobre a Serra da Arrábida e Sebastião da Gama.
          SR – A LASA dispõe de poucos sócios e de pouca gente para trabalhar. Sente que a população, no geral, continua alheada dos problemas da região?
          MC
– Infelizmente é verdade. Há como que um adormecimento da sociedade civil. Talvez pela descaracterização provocada pela heterogeneidade da população, as pessoas não sentem isto como se fosse a sua terra, muitas pessoas não são de cá. Mas não é o ser de cá, é o sentir e cheirar a região, gostar e amar esta terra. Parece-me que muitas pessoas passam por aqui como meteoritos, passam, deixam a sua cratera, se possível, e vão-se embora. E o que dá mais valia a uma terra é a formação cultural das pessoas, o gosto comum pela preservação, pela conservação, pela cultura. É preciso apostar na massa cinzenta, na promoção cultural, na promoção do conhecimento. E, neste caso, dou razão ao professor José Hermano Saraiva que, há cerca de dois meses num programa de televisão sobre a história e o património da cidade, afirmou peremptoriamente que “Setúbal está parada no tempo”.

Entrevista de Etelvina Baía