[ Edição Nº 17 ] – Maratona das Bibliotecas 98, junta quatro escritores.

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barra-3442913 Edição Nº 17,   27-Abr.98

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Conversas na catedral
Dois dias, quatro escritores

           Integrado na Maratona das Bibliotecas 98, Setúbal e Palmela deram voz a quatro escritores. No dia 22, Setúbal marcou encontro com João Aguiar acerca das aventuras do ‘Bando dos Quatro’, colecção de livros de aventuras para jovens. Palmela convidou Fernando Dacosta a apresentar o seu último livro, ‘Máscaras de Salazar’. O Dia Mundial do Livro, 23 de Abril, ficou marcado pelas presenças de Matilde Rosa Araújo e Rita Ferro em Setúbal. Uma digna homenagem àquelas que são consideradas as catedrais do livro.


          João Aguiar, um dos raros autores portugueses que, após ter abandonado o jornalismo, vive exclusivamente da escrita, explicou aos mais jovens que “a inspiração é a capacidade de colocar a imaginação a trabalhar os estímulos que recebemos, e pode surgir nas formas mais variadas. Um rosto, uma frase, uma situação podem levar-nos a pensar e a analisar o mundo em redor”. O escritor, numa tentativa de cativar os estudantes que o escutavam para as matérias escolares, apelou para a necessidade da leitura enquanto meio de formar um cidadão culto, crítico e esclarecido. “Quando eu era da vossa idade fiquei doente, o que me obrigou ao repouso. Para me distrair comecei a ler e desde então não parei. A escrita veio por acréscimo”, explicou João Aguiar a uns leitores para os quais nunca pensou vir a escrever, “pois os jovens são um público muito difícil”.

          Este autor, que em criança quis ser actor, médico e realizador de cinema, hoje não se consegue imaginar noutra profissão que não a de escritor. Segundo ele “só a morte ou a ausência definitiva de inspiração me fariam parar de escrever”.
          Explicando que a vida de jornalista influenciou o seu tipo de escrita, ao auxiliar o uso da linguagem, João Aguiar acrescentou que “no entanto, o jornalismo é um trabalho tão absorvente que rouba o tempo à escrita de ficção”.           Admirador de Luís de Camões, Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco, e dos contemporâneos Maria Teresa Horta, Mário de Carvalho e Helena Marques, o escritor João Aguiar sublinhou que o livro da sua vida é sempre o que está por vir. E adiantou, a propósito, que o seu próximo romance tem lançamento previsto para o final deste ano e terá Macau por pano de fundo.


          Fernando Dacosta, escritor, jornalista e dramaturgo, apresentou-se no Cine Teatro São João em Palmela na companhia do historiador António Valdemar. O autor de ‘Máscaras de Salazar’, obra que veio dar a conhecer ao público da região, afirmou que “somos todos filhos de Salazar, pois este político influenciou as nossas vidas, directa ou indirectamente. Não podemos viver como se Salazar nunca tivesse passado pela História de Portugal”.

          Sensibilizado para a amnésia que parece estar a afectar a camada mais jovem da população, o escritor alertou para o risco desta perda de memória. “Devemos lutar para manter as recordações vivas, quer individual, quer colectivamente, e tentar reaver os factos históricos que se perderam”, explicou o autor, acrescentando que, “devemos encarar o melhor e o pior da nossa História com naturalidade, sem culpas e como uma fonte de aprendizagem. Até porque, se queremos caminhar para o futuro, temos que atravessar o passado”.
          O historiador António Valdemar, a quem, segundo palavras do próprio, a repulsa por António Salazar impediria de escrever o livro de Dacosta, admitiu no entanto que o estadista “foi, em determinado momento, necessário ao percurso histórico do País”.
          Escritor e historiador concordaram num outro ponto debatido neste serão: a actuação dos media na formação de uma mentalidade sócio-cultural. Na perspectiva de ambos, “os quatro canais televisivos de que dispomos não passam em horário nobre um só programa de origem portuguesa, o que revela uma falta de apego ao que é nacional e justifica que muitas pessoas conheçam melhor o que vem do estrangeiro”. Do mesmo modo lamentaram que, embora as periferias tenham, actualmente, um grande número de actividades culturais, os meios de comunicação social não divulguem convenientemente estas iniciativas.


          Matilde Rosa Araújo que tem dedicado a sua vida à actividade docente e à escrita, para adultos mas sobretudo para crianças, revelou uma imaginação prodigiosa ao conversar com o seu ‘pequeno público’ na Biblioteca. Considerada uma autoridade em literatura infantil, a autora tem enriquecido o mundo das crianças com contos e livros de poesia.

          “Quando era jovem concorri a um prémio literário, com uma novela. Ganhar esse concurso foi a melhor motivação para o início da minha carreira na escrita”, contou a autora de livros como ‘A Canção da Tila’, agora reeditado numa versão musicada, em tempos realizada por Fernando Lopes Graça.
          No ver da escritora, “o livro é um amigo mágico que guarda segredos e nos fala de cada vez que o abrimos. É um apelo à paz e à imaginação, que nos alarga os horizontes e transmite uma sabedoria sempre necessária para enfrentar a vida e os seus percalços”.
          Outro meio de adquirir conhecimentos é, segundo Matilde Rosa Araújo, o contacto regular e profundo com as crianças, “pois elas dão amor e poesia ao que as rodeia e têm a capacidade de transformar tudo em sonho”.
          A escritora que diz sentir-se agraciada pela preferência que muitos leitores concedem aos seus títulos, sente-se feliz por ajudar na valorização da literatura infantil. Hans C. Andersen, Ana de Castro Osório, Aquilino Ribeiro, António Sérgio e Virgínia de Castro são alguns dos autores que Matilde R. Araújo recorda da infância. Para as crianças de todo o mundo tem um desejo: “Que estas vejam os seus direitos cumpridos e possam viver em Amor e Paz”.


          Rita Ferro partilhou com Setúbal o serão do Dia Mundial do Livro. Apresentando o seu mais recente trabalho, “Uma Mulher Não Chora”, a mais nova representante de três gerações de escritores, afirmou-se pela liberdade feminina.

          Para esta autora, “escrever é uma forma de seduzir, inspirada pelos extremos de dor e infortúnio e de intensa paixão e felicidade”.
          Na perspectiva desta escritora, “os livros são para estar vivos, para tratar com intimidade, ler na cama e não para manter numa prateleira, com distanciamento e deferência”.
          Quanto aos baixos índices de leitura existentes em Portugal, Rita Ferro opina que “as pessoas já têm pouco tempo para ler, se começam por pegar em livros densos e de grande complexidade acabam por os abandonar logo nas primeiras páginas”.
          “O poder de quem domina as letras é incalculável, mas muitos autores ao exercer esse poder fazem-no com uma certa pose cultural, o que leva os leitores a sentirem-se culturalmente perdidos.A classe cultural portuguesa está repleta de intelectuais brilhantes que, quando lhes tiram da frente os livros e as citações, são incapazes de uma ideia própria”, afirmou.           Enquanto mãe, Rita Ferro contou ter notado quanto é difícil interessar uma criança pelos livros ou demais aspectos da cultura, pois segundo ela, é necessária uma grande criatividade para fazer compreender a uma criança que a cultura está associada a algo de lúdico e não de triste ou penoso.

Helena de Sousa Freitas/ Sem Mais Jornal     
Fotos de Luís Tavares e José Crespo     

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