[ Edição Nº 20 ] – Futuro de tróia passa pela defesa do ambiente.

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barra-6771304 Edição Nº 20,   18-Mai.98

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Futuro de Tróia passa pela defesa do ambiente
E por manter viva a alma da região

           Apesar das dificuldades por que têm passado nos últimos anos, os empreendimentos da Torralta em Tróia conseguiram esgotar a sua capacidade de alojamento durante os meses em que vai decorrer a Expo’98. Este pode ser um bom pretexto para iniciar o relançamento da estância turística, tendo sido já aproveitado para implementar algumas remodelações estruturais que não comprometam a implementação do projecto de desenvolvimento da região. Este projecto deverá ficar definitivamente delineado no início do próximo ano, logo após a aprovação do plano de pormenor pela Câmara Municipal de Grândola.
          Fernando Castro, administrador da Torralta, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, explicou quais as mudanças que já foram implementadas, aproveitando para desmentir quase todas as versões que têm circulado sobre o projecto que a Sonae pretende aplicar em Tróia.

          Setúbal na Rede – O que é que a Torralta preparou como atractivo para acolher os turistas que vêm especificamente por causa da Expo’98?
          Fernando Castro
– Temos as nossas infra-estruturas tradicionais que foram obviamente melhoradas. Fizemos um conjunto de obras de melhoramento das instalações existentes, tendo em vista dotá-las de algumas condições que não possuíam e que eram fundamentais, nomeadamente ao nível das coisas que não se vêem mas que são muito importantes. Isto é, adequámos as unidades hoteleiras que temos aqui aos dispositivos legais, nomeadamente de segurança contra incêndios. Os investimentos foram de natureza compulsiva e que têm a ver com a adequação à legislação turística que a Torralta não estava a cumprir, já que todas as instalações existentes estavam ilegais. Por outro lado fizemos também uma renovação completa da torre Rosamar e algumas melhorias nas outras torres. Depois renovámos um pólo de restauração e animação na zona junto à praia, chamada a zona Tróiamar, que foi completamente remodelada e onde passámos a ter um bar que funcionará desde as dez da manhã e até à meia-noite, ampliámos e remodelámos completamente os restaurantes, para além de termos construído um novo, e criámos uma área de animação nocturna onde haverá música ao vivo. Tentámos ainda racionalizar a exploração das diversas estruturas da Torralta concentrando as actividades recreativas num pólo junto à praia, recuperámos um outro pólo na zona das piscinas e proporcionámos uma maior tranquilidade interna, preservando o empreendimento à devassa dos veículos automóveis, com a criação de um limite dos automóveis imposto com a aprovação da Câmara Municipal de Grândola. Para isso, criámos parques de estacionamento exteriores onde as pessoas poderão colocar as suas viaturas e depois deslocarem-se livremente, e dentro das preocupações ambientais, até às praias e usufruírem de toda a oferta turística existente.
          SR – Para além das melhorias de condições no terreno, que tipo de atractivo é que a Torralta disponibiliza para rentabilizar estes turistas que vêm a pretexto da Expo’98?
          FC
– Os investimentos que fizemos nos últimos três meses foram na ordem do milhão e trezentos mil contos. Portanto são investimentos profundos de melhoria da oferta turística e de requalificação do empreendimento. A Expo’98 constituiu um motivo importante para nós, mas não o motivo decisivo. Provavelmente a oferta turística da zona da grande Lisboa é que será afectada directamente Expo, na medida em que as pessoas vem por dois ou três dias para a exposição e vão-se embora. Nós posicionamo-nos de maneira diferente, pretendendo que as pessoas venham para cá para um estadia turística, proporcionando a possibilidade de se deslocarem à Expo um ou dois dias. Para isso disponibilizamos transporte privativo, sem necessidade de passar pelas filas de trânsito e pelos previsíveis engarrafamentos. Este é portanto mais um aliciante no programa de férias das famílias que optarem por Tróia para as suas férias.
          SR – Está confiante que a Torralta vai deixar uma boa imagem aos turistas que por aqui passarem durante este Verão?
          FC
– Sim, até porque temos tido uma óptima colaboração das entidades públicas, nomeadamente do Governador Civil, do presidente da Câmara Municipal de Grândola ou dos Bombeiros. Havia, por exemplo, um outro problema de segurança com que se vivia aqui, que era o de não haver um corpo de bombeiros. Os bombeiros mais próximos são os de Grândola, que estavam a cerca de uma hora de distância. Com a colaboração destas entidades conseguimos criar aqui um corpo permanente de bombeiros que darão assistência vinte e quatro horas por dia. Construímos também um novo posto médico, que terá atendimento de vinte e quatro horas por dia para os nossos clientes. Por isso, entendo que temos as melhores condições que foram possíveis criar em dois ou três meses, por forma a que as pessoas saiam satisfeitas e tenham um serviço de qualidade.
          SR – Os problemas que ainda hoje afectam a Torralta não poderão prejudicar essa oferta?
          FC
– Sinceramente não sei que problemas é que neste momento afectam a Torralta. Se calhar o problema da Torralta neste momento é um problema de tempo, ou seja, nós não tivemos muito tempo para delinear o projecto de reconversão global da Torralta, e esse é um processo que vai demorar algum tempo ainda, e portanto, dentro do que tínhamos previsto, cumprimos já a primeira etapa, que foi a requalificação da oferta a curto prazo.
          SR – De entre os problemas, salientava a instabilidade laboral. Isto é, vão ou não haver despedimentos, os salários vão ou não ser actualizados?
          FC
– Não temos nenhuma instabilidade laboral e isso são duas questões completamente diferentes. Despedimentos não houve, nem há-de haver, ou seja, até agora saíram da Torralta cerca de 92 ou 93 pessoas que saíram por acordo e portanto não há recurso a despedimentos. As coisas fazem-se por acordo e numa base consensual.
          SR – E vão continuar a sair pessoas?
          FC
– Há um plano de viabilização da Torralta, que passa, entre outras coisas, pela racionalização imediata dos postos de trabalho. É evidente que se virmos numa perspectiva de três ou quatro anos, a Torralta será provavelmente o maior empregador da região de Setúbal, porque com os projectos de desenvolvimento desta zona, iremos certamente multiplicar a capacidade de trabalho. Neste momento, como é sabido, a Torralta precisa de um esforço de viabilização financeira ou de saneamento financeiro em várias vertentes, uma das quais, naturalmente, é a redução de encargos com pessoal. Em virtude da sucessiva desqualificação da Torralta e da paralisação do seu projecto empresarial, há postos de trabalho que não se justificam neste momento. Portanto, estamos a resolver esta situação com o máximo de consenso e não prevejo que haja algum problema de maior.
          SR – E quanto à actualização salarial?
          FC
– Desconheço. A única coisa que há é o processo normal de negociação do Acordo de Empresa, mas estou perfeitamente seguro que os sindicatos conhecem este processo, os sindicatos são entidades conscientes e que acima de tudo defendem e preservam de uma maneira institucional os postos de trabalho e isso significa não pôr em risco a estabilidade financeira da empresa. Portanto não vejo que haja aí algum problema. Vamos com toda a calma e sem dramatismos iniciar a negociação do Acordo de Empresa.
          SR – O que falta para ser posto em prática o projecto de reconversão da Torralta?
          FC
– Falta tudo e não falta nada. Falta planeamento e falta descobrir o que é o projecto. Abrimos concurso a diversas empresas de arquitectura para a elaboração do plano geral da Torralta, esse concurso terminou há duas semanas e estamos agora a estudar as propostas que nos foram apresentadas. A breve prazo vamos escolher aquela que nos parecer melhor e a partir daí a equipa vencedora será encarregada de elaborar o plano geral. É tudo o que lhe posso dizer porque também não sei mais nada.
          SR – De tudo o que se tem falado sobre as alterações previstas para esta zona de Tróia, o que é que pode ser avançado como decisões concretas?
          FC
– Tudo o que se tem falado são especulações sem fundamento. Desde que a Sonae começou a negociar com o Estado a aquisição dos créditos sobre a Torralta e até ao momento, noventa por cento das notícias que apareceram são especulativas. O tempo veio confirmar que eram mentira. A única coisa que posso dizer é que temos uma equipa à qual vai ser adjudicado o desenvolvimento do projecto de investimento da Torralta, se quiser, o plano geral de Tróia, e enquanto esse estudo não estiver concluído e aprovado, não passa de um estudo e tudo não passa de conjecturas.
          SR – Quando se vai saber em definitivo o que vai acontecer a esta região de Tróia?
          FC
– O projecto definitivo depende também da forma como o nosso plano geral possa ser integrado no plano de pormenor que está a ser elaborado pela Câmara e portanto diria que talvez daqui por um ano teremos fumo branco. Antes disso não vai haver rigorosamente nada .
          SR – Uma das questões que mais se tem levantado e que mais tem preocupado a população, principalmente a de Setúbal, tem que ver com o acesso das pessoas às praias de Tróia, que é um hábito histórico dos setubalenses. De que forma esse projecto poderá impedir a continuação desse costume?
          FC
– Relativamente ao projecto futuro, como disse, não posso adiantar nada sobre a forma de como ele se vai desenvolver. Posso contudo garantir que é ponto assente e que nem a política actual, nem a política futura vai alterar isso. É que não cabe na cabeça de ninguém dissociar Tróia de Setúbal, antes pelo contrário. Todo o nosso interesse vai no sentido do reforço da articulação dos fluxos entre Setúbal e Tróia. Setúbal é uma das portas de entrada em Tróia, bem sei que se trata de uma estrada fluvial mas que a torna até mais interessante, e portanto, toda a nossa estratégia vai no sentido de reforçar esses laços. Não há nenhuma acção, nem podia haver, no sentido de proibir, cercear ou não facilitar o acesso das pessoas. Nós trabalhamos com turistas, independentemente do seu local de origem, que pode ser Setúbal, Grândola, Inglaterra ou Estados Unidos. É indiferente. Isso que seja perfeitamente claro. Todos esses espantalhos que foram agitados propositadamente no sentido de mistificar situações ou de levantar falsos testemunhos ou mesmo de criar fantasmas com propósitos indecifráveis, são absolutamente mentira.
          SR – Mas é verdade ou não que se pretende para esta seja uma zona de turismo de luxo, o que logo à partida se torna inacessível para a maioria dos setubalenses?
          FC
– Isso é perfeitamente mentira. Nem esta zona, pela sua dimensão, é uma zona que possa ser caracterizada como turismo de luxo, nem toda a península de Tróia pode ser para turismo de luxo. Nem sei se vai haver turismo de luxo, não faço a mínima ideia. O que sei é que vai haver turismo de melhor qualidade porque, e peço desculpa por esta expressão, isto estava entregue aos bichos. Se esta zona pudesse ser propriedade privada, era terra de ninguém. Agora não é mais terra de ninguém, mas tendo um proprietário não muda nada na sua utilização por parte da população. O que tem que haver é alguma disciplina normal e exigível a qualquer cidadão na utilização de espaços comuns. De resto, o acesso à praia, a possibilidade de acesso a todas as infra-estruturas que existem na Torralta, será não só facilitada, mas irá mesmo ser encorajada, porque temos interesse nisso.
          SR – Mas confirma-se que o terminal dos barcos vai passar para uma zona mais afastada?
          FC
– Uma coisa não tem rigorosamente a ver com a outra, pelo contrário. O que achamos, e isso é pacífico, é que estar a esventrar permanentemente um sítio de apetência turística com camiões, autocarros e automóveis é contraditório com um princípio de estância turística. Por isso, entendemos que o tráfego, pesado e poluídor deve ser afastado desta ponta da península. É possível desviar esse tráfego para montante e a partir daí seguirem para sul, o que não impede que depois não possam vir até aqui. Que seja perfeitamente claro que não há nenhuma limitação nesse sentido. Outra coisa é o acesso de pessoas sem veículo automóvel e nesse sentido a Torralta vai ter uma carreira regular de passageiros entre Setúbal e esta ponta, o que significa que em vez de demorarem cerca de vinte minutos, transportados em ferry-boats ou em barcos com poucas condições, vão passar a ser transportados em boas condições e em barcos rápidos, o que melhora até a acessibilidade a esta zona. Nessa altura julgo que será possível fazer esta travessia em cerca de cinco a oito minutos, o que faz com que uma pessoa tão depressa esteja em Setúbal como em Tróia. Ora, como não vamos ter aqui equipamentos de animação de massa, é evidente que temos interesse em que exista um fluxo regular, o que faz com que sejam abstrusas, para não dizer intencionalmente deturpadoras, todas as ideias que têm sido vinculadas mais ou menos constantemente em relação à limitação de acesso das pessoas a Tróia. É um disparate total e completo.
          SR – Outra questão que tem levantado alguma preocupação é a recuperação e protecção das ruínas romanas de Tróia. A Torralta tem alguma medida prevista nesse sentido?
          FC
– De facto aquilo é uma coisa que tem estado perfeitamente ao abandono e que se transformou quase num monte de lixo sem interesse algum. Mas um dos nossos interesses passa por desenvolver vertentes de turismo ambiental e arqueológico ou patrimonial. Nesse sentido, achamos que Tróia não pode deixar de lado a sua verdadeira alma e a alma do empreendimento tem a ver com as suas origens que são romanas e fenícias. Esta região tem, por isso, um património arqueológico que há que preservar, não deixando ao abandono e utilizando, que é a melhor de preservar. Temos um compromisso que consta do contrato que é a reanimação de toda aquela zona arqueológica, criando ali um pólo cultural. É isso que pretendemos fazer, esperando que da parte do Instituto Português do Património Arquitectónico, IPPAR haja colaboração nesta matéria, porque sem essa colaboração não podemos fazer nada e o que é certo é que até agora o IPPAR não fez nada. Vedaram aquilo, as ervas continuam a crescer e se não for a Torralta a deitar-lhe a mão, continuará naquele terrível estado. Mas nós queremos reanimar aquela zona, criar ali um pólo arqueológico, cultural e ambiental e que as pessoas visitem aquilo sem estragar e vejam o magnifico património que ali está.
          SR – Quanto ao futuro da zona da Caldeira, que há muito se diz que vai ser transformada numa marina, isso é verdade ou não e o que vai acontecer às festas religiosas que lá se realizam anualmente?
          FC
– Isso que se diz é mais disparate. É mais uma mistificação e uma intoxicação que se anda por aí a fazer, não sei com que intuitos. A Caldeira é uma zona de interesse ambiental e portanto será uma zona que terá de ser tratada de acordo com o seu verdadeiro interesse. Quanto às festas, são uma tradição que eu nunca presenciei mas já tive uma reunião com a Comissão das Festas e pelos testemunhos que me deram, sei que de há uns anos a esta parte, apesar de alguns cuidados colocados na preservação daquela zona, provocam sempre degradações ambientais e alguns efeitos perversos. Mas têm também uma vertente cultural importante que devemos preservar e desenvolver. Paralelamente podem também constituir um elemento importante de animação desta zona e dar-lhe alma. Nesse sentido, comuniquei à Comissão das Festas nessa reunião que tivemos, o nosso interesse e total disponibilidade para que aquilo funcione bem e para que as festas continuem dentro do cariz que têm tido e do mesmo tipicismo. No entanto, já acordámos alguns primeiros princípios que deverão ser observados no sentido de minimizar os impactos negativos naquela zona e vamos consegui-lo, obviamente, fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance para que as festas corram sempre muito bem.
          SR – Parte do projecto da Torralta vai contemplar a construção de empreendimentos para habitação, havendo já acusações por parte dos ambientalistas de que esta empresa está mais apostada no negócio imobiliário do que no turismo. Aliás, os ambientalistas são quem mais tem manifestado preocupações quanto ao futuro desta região. De que forma a Torralta pode garantir que as questões ecológicas serão acauteladas na aplicação do projecto de desenvolvimento desta zona?
          FC
– Aí está outro exemplo de mais um disparate ou de mais uma atoarda dita. Não há ninguém que possa, com pertinência e honestidade, dizer essas coisas porque nem nós sabemos qual é o projecto de desenvolvimento que vai ser implementado para a Torralta. Se nós não sabemos, como é que há pessoas que podem dizer coisas que não existem nem ao nível da cogitações estão ainda assentes. Portanto, isso é um disparate total. Já disse que um dos eixos do processo de desenvolvimento da Torralta, passa por uma oferta turística ligada ao ambiente, que passa pelos princípios de preservação ambiental. Isso será um princípio máximo que respeitaremos sempre. Dizer se vamos construir ou não vamos construir e onde vamos construir, isso não posso dizer pelos motivos que já apresentei anteriormente. Mas a vertente ambiental será sempre preservada porque é uma condição importante para que este seja um destino turístico de qualidade. Não será feito nada contra o ambiente e será feito tudo pelo ambiente.

Entrevista de Pedro Brinca     

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