[ Edição Nº 29 ] – AVISO À NAVEGAÇÃO!! por Rogério Severino.

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barra-5049863 Edição Nº 29,   20-Jul.98

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AVISO À NAVEGAÇÃO !!
por Rogério Severino (Jornalista do “Jornal de Notícias” e
membro eleito do Conselho Geral do Sindicato dos Jornalistas)

A manipulação da informação não foi só na Roménia e na guerra do golfo,

em Setúbal manipula-se diariamente

           Ensina McLhuan, o ‘pai’ da nova informação que os perigos dos meios de comunicação social são tantos como os seus benefícios. Consideramos nós que, se ser informado é condição de ser livre, a manipulação da informação, com os perigos para os quais nos alerta Jacques Séguela, é uma tentativa de fazer retroceder a sociedade. Como jornalista sinto-me envergonhado de como se manipulou a crise romena em 1989 que levou ao assassinato de Nicolau e Elena Ceausescu; a situação de Timisoara foi enganosamente ampliada. Também no caso da Guerra do Golfo os jornalistas não estão de parabéns. Mas agora a manipulação não está lá longe, está aqui ao pé de nós, bate-nos à porta. Aqui mesmo… em Setúbal.           Talvez um simples cidadão que eventualmente liga uma das três rádios locais de Setúbal não se aperceba ou uma vulgar dona de casa que gosta de ouvir música portuguesa mas que, por arrastamento, escuta os noticiários. Não se apercebem, é evidente, de como se manipula uma Estação de Rádio, não com o fim de informar mas sim para enganar, para distorcer a verdade em benefício única e exclusivamente de uma pessoa que é, simultaneamente, propriedade das três Estações de Rádio.           Entendeu que como não tem argumentos válidos para fazer valer as suas ideias pensou (saberá pensar?) que sendo dono das rádios seria ao mesmo tempo dono da verdade. Normalmente os ditadores gostam de ser titulares da verdade única o que constitui um perigo para qualquer sociedade democrática.           Jorge Sampaio, Presidente da República, alertava no sábado, em Tróia, na entrega do prémio da associação Portuguesa de Escritores que é através da escrita, seja ela de ensaio ou romance, que se pode combater o pensamento único. Lamentavelmente em Setúbal existe, nas rádios, a unicidade de pensamento, contra os mais elementares princípios do tratamento da informação. Nas três rádios não se pensa, não se discute, não se dialoga: desde que o patrão ou as suas mulheres-de-mão mandem dar uma notícia a corte dos fiéis servidores só tem um caminho: ou servem os desígnios do dono ou vão para a rua. Não há a mínima contestação nem hipótese e por isso Setúbal, que marcou grande pontos altos na liberdade de imprensa, quer no tempo da I República quer na II República, em que se conseguiu fintar a censura, e mesmo já na III República onde, para defender a liberdade de expressão o jornal ‘Nova Vida’ aqui foi publicado estando a cidade em Estado de Sítio declarado e nesta cidade foi feito o primeiro julgamento de alegado abuso de liberdade de imprensa, sendo o jornalista absolvido.           Quem se lembra do comportamento das três rádios durante as últimas eleições autárquicas, tomando nitidamente a posição do seu proprietário, candidato à presidência da Câmara, se tinha dúvidas, dissipou-as de imediato. Ultrapassaram tudo o que poderia permitido e até os fiéis servidores se excederam a prestar vassalagem ao patrão. (Será que foram retribuídos por terem curvado a cerviz de tal forma que a cabeça batia no chão? Pensamos que não).           Actualmente, e como o proprietário é o ex-presidente do Vitória de Setúbal (mas ainda pensa que dirige o clube e quer através das rádios continuar a influenciar) a situação tem sido degradante e vergonhosa. Em vez de, depois de ter pedido a demissão, se remeter ao silêncio, já que ficou na condição de sócio como qualquer outro, usa as rádios de que é proprietário para, na sombra, fazer passar os seus pontos de vista. E aqui também os seus fiéis servidores, quais tapetes, lá estão, ouvindo somente a parte do interesse do patrão e não fazendo a informação contraditória, ouvindo as partes. Comparamos, aliás, este caso à situação antes da morte de Salazar. O velho ditador, quando caíu da cadeira, no Forte de S. Julião da Barra e ficou afectado do cérebro, continuou a assinar documentação que lhe era dada pensando que ainda continuava em funções quando já Marcello Caetano era Presidente do Conselho de Ministros; no caso presente o ex-presidente do Vitória continua a pensar que ainda é ouvido quando deixou os vitorianos alegres e satisfeitos com a sua saída. E dia 22 de Julho, no Forum Municipal Luísa Todi os sócios terão conhecimento de importantes situações e tomarão as posições convenientes.           Esta manipulação de informação é, quanto a nós, mais grave do que aquelas que citámos e de tantas outras. Porque é em benefício de uma pessoa só e que adquiriu as rádios com o fim de manipular a informação. Já muitos anunciantes se aperceberam disso e estão a retirar a publicidade mas isso é de somenos importância. Cabe à própria cidade consciencializar-se; que não se deixam manipular, sabemos nós, mas é preciso criarem condições para protestar e desligar os rádios que são nesta altura um instrumento nocivo à vida da cidade. Estão monopolizados, manipulados e não têm razão de existir.

          Não podemos terminar esta Crónica sem agradecer à EDP o bem que por vezes faz á cidade. Porquê? Porque de quando em vez falta a energia nas rádios e nessas alturas a atmosfera fica menos poluída. Sugerimos que provoquem falta de energia muitas mais vezes. A cidade agradece pois são momentos em que ninguém escuta as rádios. É bom e dá saúde.

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