[ Edição Nº 29 ] – Festival de Teatro de Almada bateu recorde de público.

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barra-5169555 Edição Nº 29,   20-Jul.98

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Festival de Almada bateu recorde de público
Sem estrelas nem vedetismos

           Ao segundo dia esgotavam-se as assinaturas. Nessa mesma noite começava a dança das cadeiras: filas suplementares a serem montadas, de emergência, à boca de cena. E o que se previa aconteceu. O Festival de Almada batia, uma vez mais, o seu próprio recorde de afluência de público.

          Mas o que é que faz correr esta gente toda, que vem, alguns quase religiosamente, de sítios tão díspares como Atenas, Cacilhas, ou Rio de Janeiro?! Respondia-me o Alain Mebirouk, encenador belga e representante governamental do departamento de cultura francófona, enquanto saboreávamos uma imperial na noite da esplanada: “É que aqui não há estrelas, não há vedetas. Aqui o teatro assume o seu papel de ponto de encontro de pessoas, opiniões e sensibilidades”. É o espírito do velho Festival de Nancy, diz Joaquim Benite, o director do FITA.

          Mas ele houve. Houve estrelas e houve “fitas”. Peter Brook e a companhia Bouffes du Nord foram sem dúvida as cabeças de cartaz. Um investimento de peso que limpou quase metade do orçamento deste ano e que certa imprensa só muito discretamente e à pressa se preocupou em referir que estava em Lisboa a convite do Festival de Almada. Houve os brasileiros da Caravana, que trouxeram uma versão “light” do “Carteiro de Pablo Neruda” de António Skármeta e que receberam honras de flash de tudo o que era revista de Caras e Coroas, só porque no elenco traziam o Paulo Goulart das “Mulheres de Areia” e o Marcus Wilker do “Corpo Dourado”. Saravá, povo irmão!           E houve fitas, como aqueles três joviais e promissores comediantes que se baldaram à última hora, por razões que nem se dignaram vir justificar ao amável público. “O Público” de Lorca era a peça para estes finalistas da Escola Superior de Teatro e Cinema. O público ficou sem espectáculo. As explicações ficaram por conta do resto da equipa que não embarcou no “happening”.           Dos espectáculos, ele houve para todos os gostos e desgostos.           Surpreendente a montagem de “Vampyria” pelos espanhóis do Teatro Corsário. Marionetas em tamanho quase real. Góticas, cruéis, luxuriosas, mágicas.           Surpreendente (aqui por outras razões) a versão do “Marinheiro” pelo Lente – Teatro de Aumentar. Eles que me desculpem, são malta nova e bem intencionada, mas o Pessoa já é seca que baste, sem necessidade de o tornarmos ainda mais intragável. E não creio que seja com música do Fura dels Baus e projecção de diaporamas à la Pink Floyd do Syd Barret que se chegue lá, ao Quinto Império!…           Ponham os olhos nos La Republica, que se atiraram ao Dr. Fausto como gato a bofe. Texto denso (Goethe, Valery, Marlowe, os Envangelhos e até… Fernando Pessoa!!!) mas de que se safaram com inteligência numa encenação limpa e “off” q.b. sem pirotecnias electrónicas.           Sorte a minha não ser crítico de teatro, senão não me podia dar ao luxo de dizer estas coisas. Ou, a dizê-las, haveria de embrulhar a prosa em explicações obscuras e catedráticas. Assim, vou onde me leva o coração. E o meu foi, sem reservas até essa negra África branca e esquecida dos pobres sul africanos trazida à cena por Tone Brulin – um eterno pesquisador da linguagem teatral, um adepto fervoroso da mestiçagem (a começar pela própria companhia, as Realizations Nouvelles, composta por actores das quatro partidas do mundo) com “Abjater”, a história de uma mulher branca e pobre da África do Sul. A sua eterna dança com a morte num cenário despojado de ilusões e cheio de esperança num mundo sem fronteiras.           E o meu mergulhou nessa cela sombria de “Pedro e o Capitão”, pelo Teatro del Noctâmbulo. Um torturador e sua vítima . O poder do torturado sobre o seu carrasco. Uma visão descarnada das relações entre dois homens. Uma viagem ao fundo da própria humanidade. Cinco estrelas.           E o meu sobressaltou-se logo na primeira noite com esse universo vertiginoso de La Zaranda. “Cuando la vida eterna se acabe” , ou de como, dizia André Breton, a vida humana começa do outro lado do desespero.

          Mas chega de desgraças. Deliciosa foi a viagem do Úroc pelo século de ouro do teatro espanhol. Uma colagem mais que perfeita de excertos dos “grandes e intocáveis”, numa história rocambolesca que acaba por reflectir as próprias angústias e desventuras do teatro independente contemporâneo. Mas, como dizia Juan Margallo, o encenador: “Que és una mierda! Que és una mierda! Hombre, encuanto tengas una copa de vino e amigos por ese mundo… crées que el teatro és una mierda?! Hombre, joder!”.

          Para um humor mais refinado ficou a proposta dos “Stan”, companhia belga que funciona sem director nem encenador . Duas peça num só espectáculo. Duas faces da mesma realidade: o vazio de comunicação entre duas pessoas. O Amor que o Tempo mata. As palavras que se atropelam, frenéticas, tentado enganar a morte.           Depois os Moumouche. Surpresa total. Cinco irmão argelinos que vieram de Bobigny, subúrbios de Paris. A terceira geração de emigrantes, filhos de uma cidade que empurra, discrimina, distorce. La cité – a cidadela, onde “on se debrouille”. La Téci, nome de código desse território onde “bófias” e outros representantes da sociedade bem pensante são olhados com desconfiança.           Em “La Téci” é a vida do dia que sobe à cena com seus códigos de lealdade e sobrevivência. Com humor, a mais terrível das armas. Com esperança de que um dia todos percam o medo e se encontrem na sua própria, de nós todos, Humanidade.           É esse afinal o velho sonho do teatro e enquanto houver quem sonhe esse dia, enquanto na esplanada do Festival de Almada nos podermos encontrar e conversar uns com outros, sem vedetismos nem poses estudadas… hombre, joder!, viva la vida!!!

Pedro Malaquias     

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