[ Edição Nº 31 ] – Governo manda encerrar a SODIA.

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barra-6771470 Edição Nº 31,   03-Ago.98

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Mais desemprego em Setúbal
Governo mandou fechar a Sodia

           No dia 31 de Julho, a Sodia, ex-Renault, fechou as portas por ordem do Governo que, através do IPE, Investimentos e Participações geriu a empresa durante cerca de dois anos. Uma gestão que se deveu ao abandono da fábrica de Setúbal por parte da Renault francesa e que, ao ser assumida pelo Ministério da Economia levou a compromissos de venda da unidade. Essa transacção não se chegou a verificar, por falta de interessados, e dois anos depois os trabalhadores ficam sem certezas de emprego.

          Os 594 trabalhadores que, no dia 31 de Julho saíram da Sodia, ainda não têm certezas quanto ao futuro. Isto apesar de estar em curso um plano elaborado pelo Ministério da Economia, no sentido de enquadrar todos os ex-funcionários da fábrica de Setúbal. Trata-se de um plano a que os dirigentes sindicais ‘torcem o nariz' por considerarem que não dá garantias de emprego mas sim de “trabalho precário”, para além de terem ficado cerca de 100 funcionários de fora, “sem qualquer oferta de colocação”, garantiu ao” Setúbal na Rede” o dirigente da Comissão de Trabalhadores da Sodia, José Pina.

          Em causa, diz o dirigente sindical, está a “promessa do Governo de que não teríamos os postos de trabalho em causa, se a fábrica fechasse”. Uma promessa que para José Pina “acabou por não ser honrada por parte do Governo, aso longo de todo este processo” e que agora os trabalhadores exigem que seja cumprida.           O plano de encaminhamento dos ex-trabalhadores da Sodia prevê a colocação de todos os que tiverem mais de 50 anos na Gestnave, até que tenham idade para solicitar a pré-reforma, sendo esta empresa também responsável pela absorção de quase duzentos postos de trabalho e pela aplicação de formação profissional com vista à reciclagem destes trabalhadores, cuja média de idades ronda os 42 anos. As OGMA, Oficinas Gerais de Material Aeronáutico também se comprometeram a absorver três dezenas de postos de trabalho, verificando-se o mesmo com a Tecopur, uma empresa de reciclagem de pneus a instalar no Montijo em meados do ano que vem. A própria Sodia vai empregar 15 desses trabalhadores até Dezembro para assegurar a manutenção das instalações, sendo que na fábrica vai permanecer um grupo de trabalho formado por dirigentes sindicais com a intenção de encaminhar todos os funcionários para novas opções de saída profissional.

          Na mira do trabalho precário

          Os dirigentes sindicais queixam-se de que as propostas do Governo não dão garantias porque “são propostas a médio prazo, que só deverão concretizar-se na totalidade lá para meados do ano que vem”, para além de “isto significar trabalho e não emprego com garantias como tínhamos na Renault”. José Pina diz ainda que os trabalhadores a colocar noutras empresas “nem sabem que categorias vão ter e, de certeza que irão ganhar menos do que na Renault, porque os nossos salários eram acima da média”.
          Preocupados com os cerca de cem funcionários a quem não foram feitas ofertas de possibilidade de colocação, os dirigentes da Comissão de Trabalhadores da Sodia voltam a avisar o Governo de que “tem de cumprir tudo até ao último trabalhador”. Questionado pelo “Setúbal na Rede” sobre as capacidades reivindicativas desta Comissão de Trabalhadores, agora que a empresa fechou, José Pina garantiu que “continuamos todos unidos e, se for preciso reclamar, reclamamos, porque sabemos que apensar de ter fechado, o processo da Renault está longe de chegar ao fim”. É que os trabalhadores continuam a manter as esperanças numa hipótese de venda da fábrica, por parte do Estado, e por isso preferem manter-se unidos “para que, se for vendida, nós consigamos ter preferência nas candidaturas aos lugares de efectivos”.
          Mas para já, a realidade é outra porque os trabalhadores, a maior parte deles na empresa há dezoito anos (desde que a Renault se instalou em Setúbal) tiveram de rescindir contrato amigavelmente, sob pena de perderem algumas das regalias inerentes à quebra de contrato por mútuo acordo. Assim, estão na rua os 594 que resistiram aos despedimentos dos anos 80, altura em que a fábrica garantia dois mil empregos. E estes tiveram que rescindir contrato em Outubro de 97, levam para casa indemnizações que rondam os quatro mil contos e subsídios de desemprego com a duração de dez meses.

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