[ Edição Nº 32 ] – Sousa e Silva, presidente do Vitória de Setúbal.

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          Setúbal na Rede – O que é que o levou a candidatar-se à presidência do Vitória?
          José Sousa e Silva
– Cada um de nós é ele próprio a sua circunstância e a minha circunstância é ser setubalense e ser vitoriano. E no quadro actual, ter amigos em todas as facções das tensões existentes. Foram razões afectivas que me levaram a aceitar a candidatura porque o Vitória de Setúbal é uma das minhas raízes culturais. Para os setubalenses da minha geração, quando mergulhamos no fundo de nós mesmos em busca das nossas raízes, lá encontramos o Vitória de Setúbal.
          SR – A composição da sua lista terá sido importante para a captação de votos. Quem foram os responsáveis por esta formação que integra um grande número de pessoas ligas ao Vitória e, alguns deles, com experiência na gestão de diversas áreas do clube?
          JSS
– Eu preferia não falar em nomes porque não ia ser justo com todos os outros que também trabalharam para isso. Portanto, eu preferia dizer que houve aqui um movimento colectivo de pessoas que até nem estão na lista.
          SR – Há elementos da anterior direcção com responsabilidades na feitura da sua lista?
          JSS
– Na lista não, o que houve foi em relação à minha pessoa, onde se verificou uma grande aceitação. Eu disse que tenho amigos em todos os campos, no Vitória, isso inclui os amigos da anterior direcção e os meus amigos não vou renegar. No entanto, no meu discurso de apresentação da candidatura, eu disse que uma das traves mestras do meu trabalho será o rigor. Por conseguinte não haverá caça às bruxas, mas por outro lado também não há ‘panos quentes’ e tudo o que vier a ser apurado no decorrer normal do nosso trabalho, se estiver bem estará bem, mas tudo o que estiver mal estará mal.
          SR – Tornou-se sócio do Vitória poucos dias antes de se poder candidatar à presidência?
          JSS
– Quando era rapaz, tinha três referências na minha vida: o Clube Naval, o Clube Setubalense e o Vitória. Fui sócio dos três clubes, em jovem, mas depois fui correr mundo e deixei de pagar as quotas. E quando voltei a Setúbal, a minha preocupação foi a de recuperar o meu número de sócio destes clubes. No Naval e no Clube Setubalense foi muito rápido mas no Vitória isso não aconteceu e, até agora, ainda não percebi como é que não me resolveram esse problema. Então, estes meus amigos que me convidaram para liderar a lista, arranjaram como expediente fazerem-me sócio de véspera até que esteja resolvida a questão do número de sócio que me compete desde 1954, altura em que me tornei sócio.
          SR – Acredita ser a pessoa indicada para a presidência do Vitória de Setúbal?
          JSS
– Acho que não porque eu estou na actividade empresarial há 18 anos, depois de ter estado outros tantos na Marinha. No entanto, ao longo desses 36 anos, há uma coisa que eu sempre fui, fortemente empenhado no movimento associativo. As pessoas dirão que terei estado mais ligado a coisas da cultura, pouco em coisas ligadas ao desporto e nunca em coisas ligadas ao futebol. Mas o fio condutor de tudo isso é o movimento associativo e, tendo consciência que é uma falta minha não estar ligado às coisas do futebol, acredito que vou aprender depressa. Pelo menos vou fazer os possíveis.
          SR – Porque é que não se concretizou o acordo firmado com a lista desistente, liderada por Humberto Daniel, de integrar dois elementos daquela lista na sua?
          JSS
– No último dia para a entrega da lista não estive em Setúbal, por razões profissionais, mas fiz um contacto telefónico com Humberto Daniel porque chegou ao meu conhecimento que ele iria desistir quando soube da minha candidatura. Na altura disse-lhe que gostaria muito que integrasse a minha lista como presidente da Assembleia Geral. Ele agradeceu o meu convite e respondeu que não podia, por razões pessoais, mas disse-me que gostaria de incluir dois nomes da lista dele na minha. Eu concordei e, pelo facto de estar fora de Setúbal, pedi-lhe para falar com as pessoas que estavam a proceder à feitura da minha lista. Isto aconteceu a poucas horas do final do prazo para a entrega das listas e o que se verificou foi a chamada ‘ditadura o relógio’. Ou seja, o espaço de tempo foi muito curto para negociar com pessoas que já estavam convidadas para a minha lista, porque a questão que se colocou aos meus amigos que estavam na feitura da lista era delicada pois, para entrarem uns teriam que sair outros. E se seria desleal não entrarem os elementos da outra lista, também era desleal fazer sair pessoas que já lá estavam. Perante este drama, o que prevaleceu foi deixar os que já estavam. Mas isto aconteceu devido à vertigem com que o processo decorreu, à ausência de tempo e nunca a falta de boa vontade.
          SR – A sua lista surgiu no último dia de prazo para a entrega de candidaturas e acabou por levar à desistência da lista de Humberto Daniel, o que deixou a impressão de que esta não tinha a força que o Vitória precisava. Concorda com a ideia que presidiu à sua candidatura de que esta lista seria de consenso e que, de certa forma seria a ´salvadora’ do Vitória?
          JSS
– De certa forma, a lista de Humberto Daniel não correspondia às expectativas. Era cheia de boa vontade, isso não está em causa, mas o elenco que ele apresentou não correspondia às expectativas da grande maioria dos sócios. Efectivamente, a minha lista parece ter ido ao encontro dessas mesmas expectativas, o que me parece ter sido comprovado pelo recorde de votação que se verificou no dia das eleições. Terá sido a maior votação de sempre, no Vitória, em eleições com lista única.

          “A SAD nasceu torta”

          SR – Os representantes do Vitória na Sociedade Anónima Desportiva, SAD, puseram o lugar à disposição. A nova direcção do clube já tem nomes para os substituir?
          JSS
– Justo Tomaz e João Gonçalves já o fizeram anteriormente e Carlos Pésinho fê-lo no Sábado, numa atitude de elevado sentido de ética e de vitorianismo que eu gostaria de elogiar. Entretanto, já indicámos os novos representantes e a presidência estará a cargo de Frederico Nascimento, sendo que os dois outros elementos são Silvério Jones e Dias Pereira. Isto demora um pouco porque há que cumprir formalidades, mas se conseguirmos reunir a totalidade dos accionistas que são o Vitória, a Câmara e os três sócios que subscreveram a figura de fiéis depositários das acções destinadas aos associados do clube, ou seja a universalidade do capital, nós podemos fazer de imediato a Assembleia Geral da SAD e nomear o novo Conselho de Administração, que será composto pelos três nomes que indiquei e o senhor Paulo Santos, que é o representante dos sócios fiéis depositários, para além de Paula Costa que continua a ser a representante da Câmara na SAD. Por outro lado, se nós não conseguirmos fazer a tal reunião do total do capital, a lei obriga-nos a convocar uma Assembleia Geral de accionistas da SAD, e só ao fim deste complicado processo é que podemos nomear os nossos representantes. Em relação aos fiéis depositários, sei que dois já concordaram na entrega das acções, mas há um terceiro que não sei quem é e que ainda não se pronunciou. Se ele quiser dificultar o processo, sai de circulação e obriga-nos a uma complicação enorme. No entanto há as tais formas legais que já falei, da convocação de uma Assembleia Geral, o que é aborrecido porque leva, pelo menos, 40 dias.
          SR – Desde que foi eleita, esta direcção já reuniu diversas vezes. Dessas reuniões terá saído uma lista de prioridades para os próximos meses de gestão do Vitória?
          JSS
– A primeira era o apaziguamento e esse parece-me que já terá começado. Ao sermos eleitos ficámos com um crédito de confiança e isto tem de ser bem administrado. As linhas gerais do nosso programa são as que apresentámos na conferência de imprensa de divulgação da lista e as que reiterámos em comunicado à imprensa, depois da reunião de direcção, ocorrida no Sábado.
          SR – Na apresentação da sua candidatura, referiu a importância de clarificar a situação da SAD. Como é que esse trabalho irá ser feito?
          JSS
– O trabalho será desenvolvido em três planos. Primeiro o plano institucional, onde se irá estudar o figurino do aumento, ou não, do capital. Analisaremos a eventual troca, por parte da Câmara, da obrigação de acompanhar o aumento de capital ou de se situar de outra maneira. Ou seja, a SAD tem um capital de 200 mil contos que poderá subir até 750 mil. A Câmara tem 40%, 30% é do Vitória e 30% estão reservados aos sócios. A questão que se coloca é se é bom manter estas proporções ou se não será preferível reduzir a participação da Câmara (no que até iremos ao encontro da opinião da generalidade dos partidos na Assembleia Municipal) e para isso bastava que não acorresse aos futuros aumentos de capital. Isto porque nós entendemos que esta participação da Câmara no Vitória é um bom negócio para a Câmara e um mau negócio para o clube. A partir do momento em que a autarquia subscreve o capital da SAD não dá mais nada ao Vitória. E se nós olharmos para trás, verificamos que a Câmara sempre deu mais ao clube, por ano, do que a subscrição de capital que fez. Então, podemos tirar mais benefícios do não aumento de capital da autarquia e em contrapartida celebrar contratos-programa com a Câmara para o desenvolvimento de projectos específicos.
          SR – A haver aumento de capital e num quadro de não acompanhamento desse aumento por parte da Câmara, haveria que encontrar novos parceiros. Admite abrir este espaço ao tecido empresarial da região?
          JSS
– Ou os outros dois accionistas (o Vitória e os sócios) aumentam as suas percentagens ou se tem de encontrar uma outra figura, isso ainda não está equacionado. Está tudo em aberto, mas a abertura ao tecido empresarial é uma possibilidade.
          SR – A remodelação da SAD será feita noutras vertentes?
          JSS
– A SAD nasceu torta, por isso, no plano económico-financeiro há que fazer um estudo de viabilidade que nunca foi feito, há que proceder à feitura de mapas de origem e aplicação de fundos, que também nunca foi feito. Ainda não foi feita também a aprovação das contas de 1997. Mesmo com o bingo, que agora vai voltar para o Vitória, a SAD não tem tido receitas para pagar as suas despesas. Tem vivido da primeira tranche do capital e de sucessivos empréstimos que o Vitória lhe tem feito. Se calhar, o que vai acontecer quando o bingo voltar para o Vitória é que esses empréstimos serão maiores. Isto porque ela nasceu torta e, neste momento, o que há a fazer é torná-la numa empresa atractiva ao investidor. Quanto ao plano desportivo, viemos encontrar uma equipa técnica e um plantel que têm a nossa confiança. Estamos atentos às carreiras dos jogadores e às eventuais necessidades.

          750 mil contos de passivo

          SR – Uma dessas necessidades seria o pagamento dos três meses de ordenado em atraso.
          JSS
– É uma solução a tomar de imediato, antes que comece o campeonato, porque é preciso criar estabilidade.
          SR – Mas o problema dos jogadores é o reflexo dos problemas financeiros do Vitória, cujo passivo ascende a cerca de 750 mil contos. Como é que esta direcção vai resolver o caso do passivo?
          JSS
– Pensa-se que o passivo rondará os 750 mil contos e que desta verba, cerca de 100 mil contos estarão ‘destapados’, quer dizer que terão de ser pagos de imediato. Por seu lado, as dívidas à Segurança Social e às Finanças estão negociadas. Mas vamos usar a palavra certa, trata-se de uma crise financeira. E neste momento só há uma solução visível que é o recurso à generosidade dos sócios e, em particular dos membros dos corpos gerentes. Quer dizer que as pessoas vão ter de pôr dinheiro das suas economias e, neste momento, a direcção está consciente disso.
          SR – A intenção de reactivar o projecto de Vale de Cobro, poderá ajudar na resolução desses problemas?
          JSS
– Esses terrenos foram atribuídos ao Vitória pela Câmara, há uns anos, e eram destinados a equipamentos desportivos (um pavilhão e campos de treino) geridos pelo clube mas direccionados para toda a cidade. Parece que ele dá para muito mais que isso. E do ponto de vista jurídico temos que ver como é que podemos mudar o destino do terreno que sobra, de modo a que seja rentabilizado e o Vitória possa pagar boa parte do seu passivo. Mas esse processo de venda leva muito tempo, porque passa pela alteração do Plano Director Municipal e do próprio Plano de Pormenor, e as soluções para o problema do Vitória terão de ser imediatas, não a médio prazo.
          SR – Ao nível das modalidades amadoras, há a intenção de as reavivar?
          JSS
– Sim, nós elegemos o andebol como segunda modalidade do clube e os responsáveis por esta área estão a preparar um estudo a apresentar à direcção com objectivos definidos. Se nós queremos o andebol na segunda divisão tem um custo e se o queremos na primeira divisão tem outro. Esta é uma decisão que temos de tomar a curto prazo. A contenção também passa por aí e temos que ver se há condições, nomeadamente materiais imediatas, para o fazer. Isto é mais uma questão de tempo, se leva mais ou menos tempo a readquirir o prestígio do andebol do Vitória, nomeadamente disputar a primeira divisão. É uma questão de tempo e de possibilidades financeiras.
          SR – Como é que pretende angariar novos sócios e captar os apoios que pretende do tecido económico e social da região?
          JSS
– Aqui, a pedra basilar é inspirar confiança, nós temos de ser credíveis. Ninguém compra acções de uma empresa falida e sem credibilidade. Portanto há aqui um grande problema, nós não podemos andar a vida inteira de mão estendida à caridade apelando à generosidade das pessoas. Temos é que fazer todo um trabalho que leva as pessoas a pensar que investir no Vitória é um bom investimento. Portanto, há aqui um processo que começa de dentro para fora e acho que já demos um passo no apaziguamento, na credibilidade, como já disse, no crédito de confiança que nos deram. Mas na prática há que trabalhar em decisões de gestão e de administração. Temos que tomar decisões muito acertadas do ponto de vista objectivo e do ponto de vista subjectivo, para que as pessoas digam que o Vitória é uma empresa que está a ser bem gerida. E por conseguinte, o marketing não se vai dirigir apenas aos afectos pelo Vitória (que são muitos), será dirigido principalmente àqueles que não têm ligação ao Vitória que terão de ficar persuadidos de que esta empresa está a ser bem gerida e que vale a pena apostar nela.

Entrevista de Etelvina Baía     

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