[ Edição Nº 33 ] – AVISO À NAVEGAÇÃO!! por Rogério Severino.

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barra-9024644 Edição Nº 33,   17-Ago.98

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AVISO À NAVEGAÇÃO !!
por Rogério Severino (Jornalista do “Jornal de Notícias” e
membro eleito do Conselho Geral do Sindicato dos Jornalistas)

A transparência e a defesa do ambiente
– uma reflexão urgente –

           Depois de estar instalada no nosso país a sensibilidade sobre o Ambiente, é preciso saber se essa condição é directamente proporcional com a transparência. Em Portugal, tal como noutros países da Europa e principalmente nos EUA é preciso lutar para que o ambiente não deixe de ser uma convicção para passar a ser um negócio. Por exemplo, não gostaríamos de ver o movimento ‘Greenpeace’ patrocinado por empresas que vendem produtos químicos, tal como não gostamos de ver ecologistas assumidos a servirem de suporte a empresas que têm interesses directos em actividades que podem o ambiente em causa.           Essencialmente a partir da década de oitenta, e após novas pastas do ambiente serem entregues a dois jovens Secretários de Estado, primeiro Carlos Pimenta e depois Macário Correia, ambos marcaram a defesa do ambiente, da ecologia e dos recursos naturais no nosso país, pelo que falar da defesa do meio ambiente não se pode dissociar daqueles nomes que, pela positiva e muitas vezes contra as posições do próprio Governo que integravam, mostraram-se corajosos e foram os iniciadores daquela sensibilidade.           Também nos anos oitenta nasceram no nosso País muitos movimentos de defesa do ambiente nomeadamente a Quercus, o Geota, a Liga de Protecção da Natureza, os Verdes e tantos outros que influenciaram decisivamente a mentalidade do povo e hoje, desde o Ensino Básico até ao Superior a juventude portuguesa tem uma noção do ambiente que não tiveram os pais.           O principal movimento a nível nacional, a Quercus, curiosamente teve os seus três presidentes nacionais todos de Setúbal. Viriato Soromenho Marques, José Manuel Palma e Francisco Ferreira, o actual, começaram a sua ligação à defesa do ambiente através do Projecto ‘Setúbal Verde’, de que a cidade tem boa memória.           Como é fácil de deduzir, todas as indústrias poluidoras são inimigas do ambiente; desde as que deitam para a atmosfera resíduos sólidos até àquelas que lançam efluentes nos rios, bem como as mais diversas fábricas que dantes funcionavam de toda a maneira e deitavam os resíduos em qualquer lado, actualmente não é assim; há os Estudos de Impacte Ambiental, os pareceres, as consultas públicas e mesmo que a Ministra da pasta não tenha muita sensibilidade para o ambiente, os nossos ecologistas, aparte algum radicalismo que tem que ser refreado conseguem conciliar a ecologia com a defesa do ambiente, numa perspectiva de progresso já que este não é inimigo do ambiente. Os ecologistas têm que demonstrar uma posição de imparcialidade, de independência e sobretudo de transparência, e só com estes predicados se pode sair vitorioso de uma luta que é de defesa da qualidade de vida. Mas o pior é quando os grandes empresários, inimigos naturais dos ambientalistas, os começam a aliciar, a contratar, a pagar serviços e a conseguir alguns resultados. Sem querermos fazer qualquer processo de intenções consideramos que um defensor do ambiente não pode, pelo menos por respeito por aquilo que diz defender, estar ligado a uma empresa que necessita de um projecto para agredir o ambiente; essa ligação, por contornos técnicos, leva sempre a um parecer que vai minimizar os efeitos pois se um ecologista for funcionário de uma dessas empresas e se lhe for encomendado um parecer, na maior parte das vezes o resultado é favorável à empresa e com prejuízo do ambiente.

          Para aqueles que não sabem, esta ‘guerra’ está em discussão no interior de diversas organizações ecologistas que consideram que há que lutar pela transparência já que os seus membros não podem ser defensores indirectos dos interesses das grandes companhias. O caso mais recente veio a lume quando a Quercus condena e co-incineração de resíduos perigosos na Secil, empresa cimenteira localizada no Parque Natural da Arrábida e um antigo presidente desta organização ambientalista, através de um estudo para uma empresa interessada, concluiu que a co-incineração não afecta o meio ambiente nem a Serra. Como dissemos, não fazemos processos de intenções, mas o problema é que situações destas afectam a credibilidade das organizações ecologistas e, por isso, de uma vez por todas deve ser equacionado o papel dos responsáveis pelas associações ecologistas e definir se estes devem ou não, enquanto ambientalistas, poder trabalhar em empresas que tenham interesses em projectos ambientais. É um problema que exige definição urgente a bem da credibilidade dos defensores do ambiente e sobretudo pela necessidade permanente de transparência de processos. Não aceitamos que uma qualquer empresa que pretenda levar a cabo um qualquer empreendimento que afecte o ambiente, só por contratar um ecologista, faça com que esse projecto possa ser aprovado. Isto é a inversão total de um conceito que queremos cada vez mais verdadeiro e por isso uma reflexão que deixamos a todos que acedem ao “Setúbal na Rede”. Se as associações ecologistas servirem de trampolim para empregos em empresas com interesses no ambiente, é a subversão, é o descrédito e, sobretudo um mau exemplo para as crianças que cada vez mais estão a assimilar os comportamentos correctos para uma melhor qualidade de vida.

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