[ Edição Nº 47 ] – Pedro Gonçalves, do Grupo Barreiro Antí-Resíduos.

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barra-4322349 Edição Nº 47,   23-Nov.98

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Estudantes do Barreiro organizam-se
Contra o pré-tratamento de tóxicos na Quimiparque

           Pedro Gonçalves, representante das associações de estudantes do Barreiro e membro do movimento BAR, Barreiro Anti-Resíduos, explica ao “Setúbal na Rede” as razões que levaram os jovens do concelho a organizarem-se contra a instalação da estação de pré-tratamento dos resíduos tóxicos e industriais na Quimiparque. De acordo com Pedro Gonçalves, todos são poucos para mostrar ao Governo que os habitantes do Barreiro não querem mais poluição industrial no concelho.

          Setúbal na Rede – Que tipo de movimento é este?
          Pedro Gonçalves
– Este movimento nasceu das associações de estudantes que tomaram conhecimento em assembleia municipal do projecto da Scoreco sobre uma estação de tratamento de resíduos industriais tóxicos que iria ser localizada na Quimiparque, no Barreiro. Dada a tamanha gravidade do assunto, as associações reuniram internamente, cada uma na sua escola e resolveram organizar um movimento.

          SR – Quem é que este movimento envolve?
          PG
– Envolve as cinco associações de estudantes das escolas secundárias de Santo André, Alto Seixalinho, Santo António, Alfredo da Silva e Casquilhos. Além destas associações, envolveu as escolas primárias, preparatórias e a Câmara Municipal, juntamente com a população do Barreiro.
          SR – Como é que nasceu então este movimento e porquê?
          PG
– Como nós, estudantes, não estávamos muito familiarizados com o assunto, fomos obter informações em Assembleias Municipais, em que todos os partidos se pronunciavam sobre o estado de gravidade, inclusive, engenheiros e ambientalistas. Inteirámo-nos e conseguimos obter o projecto da Scoreco, sobre o qual elaborámos um documento em que reivindicamos as nossas teses, o porquê de estarmos contra. E foi isso que nos levou a criar um movimento pelo Barreiro.
          SR – E porque é que estão contra? O que é que criticam no projecto?
          PG
– Para já criticamos a forma como o projecto foi apresentado. À população do Barreiro não foram feitas perguntas sobre se queriam cá a estação ou não. Está decidido, é para o Barreiro e pronto. E eu penso que isto não é assim. O Barreiro já foi demasiadamente sacrificado, inclusive, já tivemos a UFA, a CUF, a Quimiparque, agora uma estação de tratamento de resíduos industriais, posteriormente uma incineradora e por aí fora, e qualquer dia temos cá uma fábrica de energia atómica. Isto no Barreiro espera-se tudo.
          SR – Mas a decisão ainda não está tomada. Não acreditam que poderá a não vir a ser instalada no Barreiro?
          PG
– Eu tomei conhecimento da posição do presidente da Câmara, na qual ele nos informou que a ministra ainda se encontra com um pouco de reticências face à localização desta estação. Mas eu, na minha modesta opinião, acho que a estação vem para o Barreiro, isto já está decidido. Eu penso que a voz da população do Barreiro é muito mais forte e é isso que nós temos tentado demonstrar com o auxílio da autarquia que é muito importante nestes movimentos, e penso que vamos conseguir ao menos que dê para o Governo pensar que o Barreiro já foi demasiado sacrificado nos nossos antepassados. Dizer de facto que vai para o Barreiro porque o Barreiro já está poluído, como eu ouvi um deputado dizer nos jornais, não pode ser.
          SR – Os vossos objectivos passam pela sensibilização da população?
          PG
– Exacto, os nossos objectivos prioritários quando começámos com este movimento foi tentar arranjar o maior número de pessoas. A população é muito importante, não só os jovens. Mas, por vezes, a população em si, os nossos pais, vêem um jovem na rua, um movimento de jovens e dizem: olhem para aquilo, são uns desordeiros. A classe juvenil está um pouco manchada pelo passado, e agora quando criámos um movimento deste género, as pessoas desinteressam-se por sermos jovens. Neste caso, as pessoas estão sensibilizadas tanto pelos documentos que nós fizemos, como pelos documentos da autarquia. Toda a gente está dentro do assunto. Acho que é um assunto de todos nós e não só dos jovens, os jovens foram a ‘cabeça' do movimento. Mas, agora juntamente com a população penso que somos capazes de fazer um movimento interessante, e penso que, ao menos para o Primeiro-Ministro, isso dará que pensar.
          SR – Querem tentar apagar um pouco a imagem da «geração rasca»?
          PG
– Exacto. A imagem da juventude está denegrida e eu penso que nós vamos conseguir modificá-la. Sinceramente, na nossa manifestação de rua ficou bem demonstrado o espírito cívico, o bom comportamento juvenil.
          SR – Mas há quem diga que por detrás deste movimento estão forças políticas, nomeadamente o PCP?
          PG
– Isso é mentira. Posso dizer que é mentira. Fui uma das pessoas, não está aqui em causa de que partido sou, que me preocupei prioritariamente com esse facto. E então, assim que tomei conhecimento dos partidos se poderem vir a aproveitar desta manifestação, na última assembleia municipal dirigi-me à assembleia, onde li um documento que transmitia a posição dos jovens e deixei bem claro que não tínhamos apoio de partido nenhum. Inclusive, estavam lá todos os partidos e, convidei os deputados a aderirem ao movimento, mas que não se aproveitassem. Tanto eu como os meus homólogos presidentes das outras associações de estudantes, deixámos bem claro, que era um movimento estudantil, era a nossa posição enquanto estudantes moradores no Barreiro face à gravidade do problema. Portanto, eu não vejo qualquer envolvimento político.
          SR – Mesmo contando com o apoio da Câmara, sendo esta do PCP?
          PG
– A câmara tem um presidente comunista, tem quatro vereadores do PCP, quatro do PS e um do PSD. Neste momento poderíamos dizer que quem manda na câmara é o PSD, que é o que desempata a votação. É muito relativo dizer que a câmara é do partido comunista, só por ter o seu presidente e o presidente da assembleia municipal do PCP.
          SR – Quais os vossos principais argumentos contra a instalação da estação de tratamento?
          PG
– O Barreiro não tem estrutura rodoviária para passarem cá diariamente entre 70 a 80 camiões transportando matérias perigosas. Em termos de estrutura ferroviária o Barreiro também não a tem. Na Quimiparque, toda a gente conhece ou deveria saber, a gravidade dos problemas que é os comboios andarem lá e a descarrilarem. O Barreiro não está preparado e a Quimigal encontra-se no meio de 140 mil habitantes, não é como lá fora que aqueles senhores dizem que a incineradora está também no meio dos habitantes. Só que lá fora têm 20 mil e aqui têm 140 mil pessoas à volta. Os camiões têm de passar por dentro da cidade, os comboios passarão por dentro da cidade, tudo isto, desde a poluição sonora, problemas de saúde e outros factores mesmo a nível sócio-económico. Tomemos por exemplo o caso da Quinta dos Fidalguinhos. Qual é a pessoa que sabendo que há uma estação de tratamento de resíduos industriais no Barreiro, vai comprar uma casa naquela localidade? Não é só o problema de a estação ir para ali. Isto vai ter problemas a todos os níveis para o Barreiro e o mais gravoso será a nível sócio-económico. As pessoas vão ter grande dificuldade em valorizarem os seus bens, porque ninguém quer uma estação de tratamento perto de casa.
          SR – Mas uma estação de tratamento não é o mesmo que uma incineradora?
          PG
– Estamos conscientes dessa diferença, mas também estou consciente que deixando fazer cá uma estação de tratamento, a seguir vem a incineradora porque já cá está a estação de tratamento e então não se vai gastar noutro lado e fazer duas: tratamento e incineradora. Já cá está a estação de tratamento faz-se a incineradora ao lado. Dá-se é um tempo de espaço às pessoas para esquecerem e depois vem a incineradora a seguir.
          SR – A vossa posição é contra a localização e não contra o sistema de incineração?
          PG
– Nós não somos contra, nós sabemos que isso tem de ser tratado no nosso país. Estamos contra é onde esta estação está a ser localizada, que é no meio de uma cidade.
          SR – Qual seria então a alternativa? Têm alternativas?
          PG
– Penso que não seremos nós a ter alternativas. Nós a única posição que poderemos tomar é dizer porque é que estamos contra e reivindicar as nossas teses. Agora apresentar alternativas parte do Ministério do Ambiente e do Governo, e não de nós. Nós não somos ninguém. Agora somos é para dizer que isto não vem para aqui.
          SR – E se vier? Que medidas é que vão tomar?
          PG
– Poderemos partir para umas medidas radicais. A esperança é sempre a última a morrer.
          SR – Que medidas radicais?
          PG
– Eu não queria avançar com as medidas radicais. Estão em curso, já temos algumas ideias, mas os órgãos de comunicação social serão informados antecipadamente.
          SR – Vocês entregaram um manifesto à administração da Quimiparque. Qual é o relacionamento que têm com a Quimiparque
          PG
– O nosso relacionamento com a Quimiparque até ao dia da manifestação era nulo. Tive bastante gosto em ser recebido, tanto eu como os meus colegas, pela administração toda da Quimiparque e tomámos lá conhecimento de certos aspectos que desconhecíamos. Como, nomeadamente, a Quimiparque ser estatal. Portanto, a Quimiparque sendo estatal deixa um pouco também os seus administradores sem poder, digamos assim. O Governo decide. Aquilo é do Estado e vai para ali. A administração não tem assim grande poder, inclusive, o administrador até mora no Barreiro e demonstrou ser contra o processo.
          SR – Pensam que se fosse uma empresa privada tomaria outras atitudes?
          PG
– Eu penso que se fosse privada a conversa da administração da Quimiparque teria sido feita de outra maneira. Ali a conversa da parte dos administradores foi sempre enaltecer que aquilo era Estado e que não estava nada ao alcance deles, eles não podiam fazer nada sobre o assunto. Só nos pediram para nós, enquanto movimento, não prejudicarmos a entrada e saída dos camiões. O administrador foi uma das pessoas que foi lá fora visitar uma estação de tratamento, deu-nos alguns conhecimentos que trouxe de lá, que para nós não interessam Se me pagassem para ir lá fora também vinha de lá com boas impressões, naturalmente.
          SR – A população tem aderido ao movimento?
          PG
– Sim, eu penso que a população do Barreiro ao princípio estava um pouco adormecida para a questão. Não estavam sensibilizadas para o problema. E a juventude foi o processo de abertura para a movimentação da população. Neste momento, a população está toda envolvida. Verificou-se no debate público que houve em que esteve lá um grande número de populares.
          SR – Depois de tomada a decisão pelo Governo, o movimento morre?
          PG
– Este movimento não vai morrer e cada vez está com mais força. Ao princípio éramos só 5 associações, neste momento todas as associações do Barreiro sejam elas a nível estudantil ou cultural, estão envolvidas num processo para demonstrar a sua preocupação. Estamos todos empenhados em fazer um movimento forte e único, que agora tem o nome de B. A R.- Barreiro Antí-Resíduos, onde a sua melhor definição é a população.

Entrevista de Susana Prates     

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