[ Edição Nº 47 ] – É COMO DIZ O OUTRO por Fernando Cameira.

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barra-4633985 Edição Nº 47,   23-Nov.98

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É COMO DIZ O OUTRO
por Fernando Cameira (artista plástico e músico do grupo In-Situ)

Respirar é preciso ou Nova Setúbal

           A mulher continuava andando em círculos no meio da sala. De vez em quando olhava para o televisor e logo de seguida para a mala de metal. Às vezes parava. Sentia todo o corpo já dorido, como se um cavalo dentro dela batesse continuamente com os cascos para se libertar. Mas ela estava indecisa. Tinha medo. Tinha vontade de o fazer, sim, de dar liberdade e de transmutar naquele cavalo branco prisioneiro no interior das suas pernas, do seu peito, da sua cabeça, mas tinha medo. Não só medo de sofrer mas medo da dúvida. Não tinha a certeza de estar com a razão.
          A custo, sentou-se e fixou a atenção no écran. Ele continuava a falar.

          – “Naquela época, esta zona da cidade não existia. Tudo isto fazia parte da velha Serra da Arrábida. Estava ainda tudo coberta com os últimos vestígios de certas espécies vegetais pré-históricas e as grandes unidades empresariais eram praticamente inexistentes. É inacreditável, não é verdade? Como é que um local com esta importância geo-económica podia estar assim completamente subaproveitado?
          Isto só era possível porque naquele tempo as comunidades locais defendiam a absurda ideia de que era mais importante preservar a serra do que incentivar o progresso, imagine-se. Até a simples unidade cimenteira que aqui existia então, uma unidade minúscula, na época, cerca de uma quinta parte da actual, até isso era visto como um atentado à serra. Não deixa de ser estranho como o homem pôde ter, no passado, uma tamanha falta de esclarecimento. É inconcebível para nós como se podia dar mais importância ao próprio terreno do que ao que se podia obter a partir dele, do que o terreno podia proporcionar, directa e indirectamente”
.

          Ela já saíra de casa e estava agora a chegar ao recinto da Praça. Iria assistir ao resto do discurso mais de perto. O rosto daquele homem não lhe saía do pensamento. Não, não iria desistir dele. Decidira que teria mesmo que ser seu.

          – “Sabemos que, em grande parte, esta maneira irracional de ver as coisas, era aproveitada e fomentada pelos chamados movimentos ecologistas, grupos de indivíduos fundamentalistas que, depois de perceberem que não poderiam contrariar a marcha da História, se refugiaram em Reservas em Parques.
          Pois é meus amigos! Foram tempos difíceis aqueles… Como se fosse possível progredir, enriquecer, existir, em resumo, sem alterar o ambiente!! Mas as pessoas acreditavam nisso. E assim a antiga cidade de Setúbal, lá em baixo, vivia miseravelmente, sem tirar partido da riqueza, como um pobre que ignora o ouro que tem no seu próprio quintal, deixando que o mato selvagem aqui crescesse livre e improdutivamente em nome dum ideal passadista, reaccionário, poético até, de preservar intacta a serra da Arrábida. Chamavam-lhe, pomposamente, Parque Natural. Que quereriam dizer com isso? Mistérios do passado. Parque Industrial, sei o que é, agora Parque Natural? É caso para perguntar: seria isto um parque infantil de passeios e diversões?”

           (Gargalhadas dos membros da comitiva espalhados pelo palco)           A mulher percebeu que aquela tirada tinha sido um improviso do orador, pois era típica do seu fraco sentido de humor. O sol estava cada vez mais quente mas as pessoas permaneciam impavidamente imóveis, em pé. O ar estava pesado como sempre. Os ruídos das máquinas no autódromo, a 1 km dali, misturados como os do kartódromo, a pouco mais de cem metros, davam um efeito estranho às palavras do orador, se se reparasse no facto. Normalmente isso não acontecia pois todos esses sons já faziam parte da vivência normal, por tal se tornando inaudíveis.

          – “Claro que este tipo de ideias absolutamente inconsistentes e reaccionárias acabaram por ser vencidas pela verdade histórica, como sempre acontece com as teorias anacrónicas e por isso hoje podemos admirar todo o maravilhoso trabalho das gerações seguintes de cidadãos empreendedores, virados para o futuro e para o desenvolvimento, livres dessa visão imobilista”.

          Estava agora quase em frente ao palco, mas ainda na segunda fila de assistentes. Olhou para a sua mala, como a confirmar que tudo estava bem, como que para recuperar a confiança na sua decisão.

          – “Pergunto: acaso sentimos a falta da antiga serra? Acaso gostaríamos de ver o mato invadir as nossas ruas, os nossos jardins? Não estamos melhor agora? Não temos uma cidade limpa e desenvolvida, repleta de complexos turísticos de primeira qualidade que tanta riqueza nos trazem, com uma panorâmica magnífica sobre Troia-Center e os seus casinos iluminados, com uma qualidade de vida invejável, enfim? Acaso o ar é menos respirável, nesta Nova-Setubal, por causa da Megaci-Mentos-Limpus, da Web-Incinera, da Parte-Pedra-Ncuanto-Euver, da Químico-Fumoverde e de todas as demais empresas industriais que aqui prosperam? Seria, sim, menos respirável, se não tivéssemos progredido, se ainda não tivéssemos inventado os sistemas respira-móvel(*) e nos limitássemos a respirar directamente pelo nariz e pela boca, como nos tempos arcaicos em que esses ideias ecologistas dominavam. Acaso não são igualmente vegetação os eucaliptais com que se reflorestou uma boa parte da antiga serra e que criaram mais de trinta postos de trabalho na Sado-Celulosite, SARL? Claro que os antigos diriam que não. Até a espuma dos resíduos da pasta de papel que são lançados na praia seriam motivo de crítica cerrada pois para eles era mais importante tomar banho na praia, preguiçosamente, que trabalhar.
          Bom… mas felizmente esses tudo isso já lá vai. Interessa agora esquecer definitivamente esses tempos difíceis e seguir em frente, continuando a nossa obra de progresso para a região”
.

          O candidato ainda discursou durante cerca de meia-hora, apresentando as suas promessas para o próximo mandato. A assistência permaneceu até ao fim, à sombra das árvores esculpidas em cimento nobre, da região, espalhadas por toda a Praça do Euro. Terminado o discurso ouviram-se os aplausos em uníssono, magistralmente dirigidos pelo maestro convidado para este espectáculo. Em seguida a assistência aplaudiu os seus próprios aplausos anteriores pois haviam sido optimamente executados, enquanto o deputado e comitiva aplaudiam o seu próprio discurso, congratulando-se reciprocamente.           À ordem de dispersar todos se dirigiram em fila, como era hábito após todas as sessões da campanha, à tenda da Organização onde podiam levantar o seu novo respira-móvel, último modelo, agora com “abertura fácil” para introdução de alimentos.           Ela olhou o deputado nos olhos embora ele nem tivesse reparado nela. Os seus dedos procuraram nervosamente o fecho da mala. Depois observou toda aquela gente em fila, em que ela também se incorporara. Chegara a sua vez. Retirou o respira-móvel, abriu a mala e, lentamente, depositou o kit de sobrevivência lá dentro, mesmo em cima do explosivo ainda por activar.           Soube, nesse momento, que não conseguiria fazê-lo. Sabia, no íntimo, que não valeria a pena, que nada se iria alterar. Como dizia uma certa música, “o que passou nunca mais será!”. Para se auto-consolar pensou que, pelo menos, iria votar contra.           Ansiou por chegar a casa para retirar a máscara e respirar o ar puro do seu gerador.

           (*) – sistema de respiração descartável, funcionando por aderência à pele do rosto.
          Inventado em 1 de Março de 2012 passou a uso generalizado em 15 do mesmo mês, dada a enorme procura.

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