[ Edição Nº 47 ] – CRÓNICA DE OPINIÃO por Pedro Conceição.

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barra-6492825 Edição Nº 47,   23-Nov.98

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CRÓNICA DE OPINIÃO
por Pedro Conceição (jornalista, locutor da RDP-África)

Círculo Cultural de Setúbal:
Desabafo sobre o fim anunciado

           Comecei na comunicação social há nove anos em Setúbal. Naquela altura, e não foi há tanto tempo como isso, as hipóteses de escolha eram muito reduzidas para quem queria sair para beber um copo, conversar, ou simplesmente estar com os amigos. Não foi difícil escolher o Círculo Cultural como ponto de encontro obrigatório.           Mesmo profissionalmente, quando ainda éramos um grupo, as nossas “after-hours” tinham poiso certo. Todos passávamos horas e horas a beber, conversar e…estar, pura e simplesmente. Eu adorava aquele ambiente: meio soturno, à média-luz, pseudo-intelectual, ar de tasca, sem esquecer o aperitivo a acompanhar a imperial. Tudo isto sem esquecer as mais variadas “tribos” que frequentavam o Círculo: yuppies, betos, vanguardas, punks, rastas. Todos se misturavam pelo prazer único de, à mesa ou ao balcão, partilharem uma boa cavaqueira. Lembro-me que nessa altura era quase uma honra partilhar o mesmo espaço que algumas figuras de Setúbal, desde poetas, simples pensadores ou músicos, que frequentavam o CCS como um local de culto, uma segunda casa, e sempre bem recebidos pelo Sr.Dimas!           Nas maiores virtudes do Círculo está o apoio dado à criação musical, cedendo incondicionalmente as suas instalações para sala de ensaios. Quem não se lembra de bandas rock como os Lúcifer Fere, por exemplo? A maior parte dos grupos, não tendo o apoio das entidades oficiais, tinha no Círculo Cultural de Setúbal a única possibilidade logística para levar por diante os seus talentos. Não é preciso lembrar aqui o êxito e o respeito que esta banda granjeou no público e na crítica da altura. Sem o apoio do CCS não seria possível.           Que explicação dar para essa espécie de mística que foi criada ao longo do tempo? Não existe, tal como não existe um motivo cabal para o seu desaparecimento. Numa altura em que a cidade praticamente não possui estruturas que estimulem a criatividade de quem quer dar largas à sua imaginação, será possível deixar desaparecer um dos locais que mais se destaca nesse sentido? Não é possível. Se vivêssemos nos anos 60, ou no auge “beatnick” o Círculo seria a catedral. Mas em Setúbal, três décadas depois, prefere-se implementar uma cultura “24 de Julho” , em detrimento do apoio à criação artística. Esta cidade, há já muito tempo que não aparece no mapa. É por isso que é preciso mudar mentalidades.

          É por isso, e à distância de nove anos, que não posso deixar de sentir alguma nostalgia pelo local e pelas recordações que me deixou na memória. Também sinto revolta, mas porque o querem fazer desaparecer. Se o Círculo morrer, parte da história cultural de Setúbal morre também.

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