[ Edição Nº 48 ] – É COMO DIZ O OUTRO por Fernando Cameira.

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barra-2573234 Edição Nº 48,   30-Nov.98

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É COMO DIZ O OUTRO
por Fernando Cameira (artista plástico e músico do grupo In-Situ)

Vida e morte de um gajo

          (não recomendado a pessoas depressivas ou que necessitem de boa-disposição nas próximas horas)           Dizia-me ele, depois de vários copos, já terminado o jantar, naquela fase em que a bebida e o ambiente acolhedor de um jantar íntimo de amigos nos dá para filosofar:

          – A vida e a morte, meu caro, são as duas questões mais problemáticas para quem questiona a existência e, curiosamente, podem resumir-se num silogismo um pouco desconcertante. Repara bem – enfatizava ele as palavras que se seguiriam, colocando-me a mão no braço, sobre a mesa, sinal de uma revelação eminente:

          “A vida é o medo da morte           A morte é algo que ninguém conhece           Então a vida é o medo permanente de algo que não se conhece”

          É ou não é verdade?

          Não pude deixar de achar piada ao enunciado mas achei que estava nitidamente viciado.

          – Dizer que a vida é o medo da morte é um pouco uma figura de estilo, meu amigo. As pessoas não passam os dias a pensar propriamente na morte. Pelo contrário, quase que apostaria que a maioria até parece desafiá-la a toda a hora com toda a espécie de excessos e irracionalidades…

          – Claro! – atalhou ele – Claro que as pessoas não andam a pensar nisso, mas é mais que óbvio que almoças e jantas… para viver! Ou haverá outra razão?
          – Pelo prazer!
          – Sim, sim… experimenta passar dois dias sem comer e depois eu ponho-te à frente um bocado de pão duro para ver se tu dizes que não gostas… Só comes pelo prazer enquanto puderes escolher a comida, meu amigo. O que não é o caso de muita gente. Tens que aprender a olhar por baixo das embalagens sofisticadas que disfarçam os nossos instintos. Eh! Pá… O homem continua a comer para sobreviver, a vestir-se e a recolher-se em quatro paredes para se proteger do meio, a tomar banho para se livrar de parasitas e bactérias, a dormir para recuperar a energia perdida, enfim… muito das nossas rotinas diárias continuam a ter como objectivo evitar a morte.
          – Está bem, mas não andamos a pensar nisso. Felizmente! Já não estamos na idade das cavernas. Nessa altura a tua primeira premissa estaria correcta.
          – Pois, pois, é que tudo isso está já tão banalizado, tão facilitado e tão deturpado por camadas e camadas de acessórios supérfluos que nos esquecemos dessa fatalidade opressiva, que pensamos que tudo fazemos por mero prazer. Por isso o teu filho diz que não gosta de sopa ou de tomate. Porque ele vê quase sempre o jantar como uma obrigação social, pensa bem no contra-senso, ah! ah! ah!
          Ouve, pá, no fundo, quer pensemos nisso ou não, é da própria lógica inerente ao sistema vital que estamos a falar: o instinto de sobrevivência. Não o podes negar. Esse instinto só é possível porque temos medo da morte, caso contrário ser-nos-ia indiferente e corríamos o risco… sei lá… olha! De morrer por nos esquecermos de comer.
          
– Está bem, reconheço que tens razão. Viver é de facto um medo, ainda que na maior parte das vezes não explicitado, de morrer.
          – Claro, é evidente! E também não podes negar a minha segunda premissa: que ninguém sabe o que é a morte.
          – Sabemos que é o fim da vida.
          – Como o sabes?
          – Porque vemos os outros morrerem. Plaf! Não mexe mais.
          – Vês do lado de quem fica, do lado dos que não acompanham o processo. Em verdade, só aquele que estica o pernil poderia dizer o que se está a passar, não achas?
          – Mas nunca o dirá, pelo simples facto de que a máquina já não funciona, de que a bateria acabou, de que, faças o que fizeres, ele não voltará a acender o botão de “Power”. Sabemos, portanto, objectivamente, o que é a morte: o fim da vida.
          – Alto aí ! Sabemos que é o fim da vida tal como nós, os vivos, a conhecemos! Até aí nada tenho a contrapor. Mas não é isso que estamos a discutir. Não estou a tentar provar que não se trata do fim da vida mas sim que não sabemos o-que-ela-é! – acentuava bem, o meu amigo, cada palavra, enchendo mais uma vez os nossos copos.
          – Ah, entendo! Queres dizer que pode ser o início de outra coisa, outra realidade, outra forma de existência.
          – Talvez sim… talvez não…. não sabemos. E é desse desconhecido que temos medo.
          – Nem sempre será assim. Também eu tenho o instinto de sobrevivência e no entanto não acredito em nenhum além desconhecido. Portanto, lá por se ter um medo natural de pifar não significa que seja pelo medo do desconhecido. É mas é a pena de não voltar a olhar para umas boas pernas, de não voltar a ouvir uns magníficos cd’s dos Dead Can Dance ou do Bach.
          – Caramba, Dead Can Dance é música para mortos? Ah! Ah! Ah!           Aproveitámos a piada para relaxar um pouco da conversa tão mórbida. Trocámos umas frases soltas a propósito da comida… pedimos um queijinho seco para acabar o vinho e, no meu caso, para ver se me passava uma ligeira sensação de azia que já me estava a aborrecer.

          – Pois é – recomecei eu, que não me conseguira abstrair do tema – mas já sei qual é o vício do teu silogismo e proponho um outro mais objectivo:

          “A vida é o medo da morte           A morte é o fim da vida

          As pessoas passam a vida a ter medo do fim da vida”

          Parece-me bem mais simples e universal, sem diferença de crenças e de filosofias de vida. É o elementar instinto de sobrevivência.

          – Bem, já não estou em condições de pensar muito para discordar de ti. Aliás, talvez tenhas tanta razão como eu. Seja! Para uns é o medo do fim da vida, para outros o medo do desconhecido. É o meu caso, aliás. Confesso. Às vezes pergunto-me: será que deixamos de poder beber um bom copo? Ah! Ah! Ah! – riu ele e logo de seguida ficou pensativo, de olhos fixos no copo que ia rodando entre os dedos e espalhando na toalha da mesa os seus reflexos rubros em agradáveis ondas. Estivemos calados alguns segundos. Depois recomeçou.

          – Sabes, há dias ia caminhando e divagando, conversando comigo próprio… faço isso a toda a hora. Pergunto, repondo, argumento, contraponho… às vezes elaboro teorias mirabolantes mas depois esqueço-me porque o pensamento é um turbilhão e salto de uns assuntos para os outros… a conversa é como as cerejas… e quando dou por mim estou no escritório a trabalhar e a falar com pessoas e já me esqueci de tudo o que tinha pensado registar… bom, dizia eu que numa dessas dissertações ocorreu-me se não poderia existir também um instinto de preservação da morte, à semelhança do da vida…

          – Como? – perguntei eu completamente desconcertado com o que pensei tratar-se de um erro de audição ou talvez um efeito do vinho no discernimento do meu amigo– Instinto de preservação da morte?!?
          – Sim! Não sentimos todos nós, em certas situações, a atracção do abismo? E as vertigens? E os suicídios?
          – Eh, lá…. Isto está a ficar muito mórbido…que ideia a tua…!           Nesta altura confesso que senti um arrepio na base da nuca e até uma certa náusea. Hesitei em ir aos lavabos tentar vomitar.

          – Não tenhas medo que não penso suicidar-me. – sorriu ele – Estou apenas a reflectir.

          Diz-me lá o que te parece mais natural: a inércia ou a actividade? Quer dizer, qual te parece ser o estado natural para que tendem as coisas? Para andarem aos saltos de um lado para o outro para estarem paradinhas, em repouso?
          – Bem… depende… mas normalmente creio que tudo tem tendência a parar, porque para haver acção, movimento, tem que haver um impulso, uma força aplicada, dispêndio de energia. – Respondi eu tentando meditar numa questão que nunca me tinha ocorrido.
          – Então a vida não será apenas uma perturbação, um acidente da morte? A morte seria então o estado natural das coisas e se assim é, por analogia, não desenvolveria esta um instinto de sobrevivência como a vida?           Neste ponto da conversa achei que, decididamente o meu amigo ou estava a passar-se para um nirvana de trazer por casa ou andava a pensar de mais… ou tinha algum problema grave que estava a contornar… ou simplesmente não se conseguiria levantar da cadeira quando quiséssemos sair. Fiquei a olhar para ele sem lhe responder, sem saber o que dizer. Mas ele ainda continuou.

          – Pois, é uma parvoíce… mas não há dúvida que seria uma óptima justificação para o estranho êxtase do vazio, a busca do Nada absoluto dos orientais, para o fascínio do fim, o desejo de regresso ao ventre materno, a esperança do descanso eterno perturbado pela vida. Afinal todas as religiões não é disto que falam? A vida sempre como um vale de lágrimas e a morte como o regresso ao paraíso perdido e ansiado?

          Não consegui senão tentar rematar a conversa de uma vez pois cada vez me sentia mais mal disposto com o ambiente que se criara.

          – Acho, sinceramente, que pensas demais. O que me parece é que a morte é apenas um nome para a ausência de vida e não algo em si mesmo, como a vida.

          E ficámos mais ou menos por aqui porque o meu amigo calou-se e quase adormeceu sobre a mesa.           Recordo com saudade e tristeza este jantar em que pela última vez vi o meu amigo pois agora já não lhe poderei dizer que afinal concordo com ele, que ele tinha razão.           Ele comera um suculento bife da vazia e eu uma bela carpa.           Nunca imaginei que, por ironia do destino, falando de comer para sobreviver, um peixe contaminado com uma elevada dose de mercúrio e a incúria dos médicos no hospital viessem a ser a causa da minha morte no dia seguinte. Tanto quanto sei, esse meu amigo anda agora entusiasmadíssimo com o estudo da programação para o recém-inaugurado Centro Cultural de Setúbal, no novíssimo e moderno edifício construído no largo em frente às ruínas do ex-Convento de Jesus.

          É como diz o outro: ninguém sabe o dia de amanhã…

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