[ Edição Nº 48 ] – CRÓNICA DE OPINIÃO por Jorge Pires.

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barra-5468278 Edição Nº 48,   30-Nov.98

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CRÓNICA DE OPINIÃO
por Jorge Pires (membro da Direcção da Organização Regional
de Setúbal do Partido Comunista Português)

Cresce o descontentamento e o protesto.
É preciso construir a alternativa.

           Apesar de estarmos muito perto do final da actual legislatura, ainda está fresco na memória dos portugueses o discurso produzido na campanha eleitoral para as legislativas de 95, não só pelo actual primeiro ministro, como por outros dirigentes do PS e actuais membros do governo. Nessa altura e com a única preocupação de conquistar o voto dos portugueses, diziam numa gritaria persistente e em tom solene, que quando fossem governo, quer nas suas opções políticas, quer nas suas preocupações, estariam sempre e em primeiro lugar as pessoas, procurando desta forma humanizar o discurso.           Para os mais atentos e tendo em conta que o PS nos habituou, ou a fechar princípios na gaveta, ou a dizer uma coisa na oposição e a fazer outra no governo, aquela discurso fazia lembrar a publicidade enganosa que procura vender gato por lebre embrulhando na mentira a na demagogia um produto que já se sabe não prestar.           É certo que os resultados eleitorais acabaram por mostrar que uma parte significativa do eleitorado, farto de 10 anos de governos de Cavaco Silva, e desejosos duma alternativa política, não acompanharam esta leitura e legitimaram nas urnas a política deste governo, mas também o é que hoje, passados que estão 3 anos desde que o governo entrou em funções, uma parte destes estão hoje nas ruas e nos locais de trabalho a manifestarem de uma forma inequívoca o seu descontentamento e o seu protesto.           É que hoje está claro que afinal, e ao contrário do que diziam os candidatos do PS, não fazem parte dum núcleo muito restrito de pessoas que de facto estão no centro das preocupações deste governo. Neste grupo muito restrito estão os Mellos, os Belmiros de Azevedo, os Jardins Gonçalves e outros que neste país vão concentrando nas suas mãos, a parte de leão da riqueza nacional.           Sempre que este governo, em questões fundamentais, tem de decidir entre os interesses nacionais e os interesses particulares dos grupos económicos, não hesita na sua opção pelos segundos. Aqui no distrito de Setúbal são vários os exemplos que confirmam a regra. Basta recordarmo-nos dos processos de privatização da Quimigal, da Siderurgia Nacional, das sucessivas restruturações da Lisnave e, mais recentemente, o processo Torralta. Tudo isto, naturalmente, em conformidade com uma opção de classe que este governo tomou.           É que ao contrário da tese que os ideólogos de direita procuram fazer passar, as sociedades dividem-se em classes e por detrás duma opção política está sempre uma opção de classe e este governo tomou a sua apesar da uma parte significativa da sua base eleitoral de apoio objectivamente não se rever nessa opção.           Veja-se por exemplo o O.G.E. em discussão na Assembleia da República. É ou não verdade que este orçamento está todo ele construído numa lógica de obediência aos critérios da Moeda Única e do Pacto de Estabilidade, que conduzem à acumulação de fortunas e a ganhos escandalosos à custa da exploração dos trabalhadores e da sangria de sectores produtivos? Só na Banca os lucros subiram em 97 mais de 35%, passando de 181 para 246 milhões de contos, depois de terem crescido em 96 15,2%. Mesmo assim continua o escandaloso aumento dos benefícios fiscais a favor do capital financeiro.           Se este governo estivesse efectivamente preocupado com o país e os portugueses apresentaria um 0.G.E. tendo por base uma política de reequilibro na distribuição da riqueza nacional, através da melhoria dos salários e pensões, sobretudo os de níveis mais baixos, na redução de preços de bens essenciais, como os da energia eléctrica e das chamadas telefónicas, as mais elevadas da União Europeia, mais investimento público nas áreas sociais e no desenvolvimento económico do país, o que permitiria, no actual quadro, atenuar profundas desigualdades sociais e regionais.           Mais do que constatar, é fundamental que os portugueses tomem consciência da situação, das suas causas, dos previsíveis desenvolvimentos e, sobretudo, não fiquem de braços cruzados. É necessário começar a construir uma verdadeira alternativa a este governo e a estas políticas, resistindo à pressão bipolarizadora e do voto útil no PS que se vai desenvolver com o nascimento da AD. As soluções para os problemas nacionais não estão na alternância entre o PS e o PSD ou entre o PS e a AD, em que tudo se manterá rigorosamente na mesma, à excepção das caras dos governantes.           Num contexto pré-eleitoral que se aproxima, tanto o PS como o PSD e o PP procurarão acentuar um discurso demagógico sobre os problemas sociais, na tentativa de escamotearem as suas reais responsabilidades e convergências na política de direita seguida nesta legislatura.

          A verdadeira oposição, a oposição de esquerda a esta política está no PCP. Pode-se ler na resolução política saída da última reunião do Comité Central do PCP, que ganha uma acrescida importância o papel do Partido como oposição de esquerda ao governo do PS e a afirmação na sociedade portuguesa da necessidade da construção de uma alternativa de esquerda e que o reforço do PCP é decisivo para a realização deste objectivo democrático.

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