[ Edição Nº 58 ] – António Silvestre, director da Rádio Mirasado.

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barra-4945798 Edição Nº 58,   08-Fev.99

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Apesar das dificuldades em progredir
Mirasado assume-se como a rádio local de Alcácer

           António Silvestre, presidente da direcção e fundador da Rádio Mirasado, de Alcácer do Sal, garante que a existência das rádios locais só faz sentido se forem, de facto, locais e estiverem ao serviço das populações. Defende a carolice e o ‘amor à camisola' e garante que, sem isso, não há rádio local que resista. Afirma que a Mirasado está bem implantada na região mas que precisa de ajuda para se desenvolver. Por isso veria com bons olhos mais apoios da autarquia e da Secretaria de Estado da Comunicação Social, através da criação de protocolos com a EDP, à semelhança do que já é feito com a Telecom.

          Setúbal na Rede – Como é que nasceu a Rádio Mirasado?
          António Silvestre
– A rádio foi fundada em 1987, na altura das ‘piratarias' a nível nacional e sobreviveu até ao momento em que as entidades oficiais mandaram fechar as rádios para que as coisas começassem de novo. Aí candidatámo-nos e tudo correu bem. Quanto à história da sua fundação, tudo nasceu com grande carolice e da vontade de fazer um projecto cultural, que na altura se impunha e era necessário em Alcácer do Sal para fazer eco da riqueza cultural deste concelho. Até porque, mais de vinte anos antes, Alcácer tinha tido uma rádio que era feita por uma pessoa só e chamava-se Rádio Clube de Alcácer, A Voz da Planície Alentejana. Era transmitida em Onda Média e durou pouco tempo, no entanto conseguimos recuperar alguns registos de som que em breve tencionamos colocar na Internet, como é o caso de uma entrevista a Joselito.
          SR – O que é que a rádio significa para as população de Alcácer do Sal e dos concelhos limítrofes?
          AS
– A Mirasado é bem aceite e a prova está na relação que as câmaras municipais da região têm connosco. Todas elas nos enviam informações culturais e desportivas, e contactam-nos para fazermos a cobertura dos acontecimentos. Não tiramos audiências a outras rádios mas temos o nosso público que participa activamente. Privilegiamos as actividades do concelho e damos grande destaque à informação porque a Mirasado é uma rádio essencialmente de informação local.
          SR – É difícil manter uma rádio num concelho como este, virado para o Alentejo e longe dos centros urbanos e de decisão?
          AS
– É muito difícil e exige muito boa vontade. Exige que as pessoas que apostaram na sua fundação gastem todos os seus momentos livres na rádio porque as exigências actuais assim o obrigam. E na Mirasado temos um grupo de pessoas com muito valor, que vêem dar aqui um pouco daquilo que são a título profissional. E isso facilita-nos a vida porque seria impensável pedir a reparação de equipamentos de outra forma.
          SR – Então, num meio pequeno, como é que uma rádio local progride e se equilibra do ponto de vista financeiro?
          AS
– É uma questão de ginástica financeira. Nós sabemos que as despesas e as receitas de cada ano têm de ser iguais. Ou seja, não podemos gastar mais do que aquilo que recebemos. E para este equilíbrio temos de nos ‘alimentar' de publicidade em alguns períodos do ano e assim aproveitamos algumas épocas mais fortes das actividades culturais do concelho, como é o caso da PIMEL, a feira do pinhão e do mel, e da Feira Nova de Outubro. São momentos em que as pessoas estão mais libertas para as questões da publicidade e, nessa altura aproveitamos para tentarmos equilibrar as coisas durante o resto do ano.
          SR – É difícil ser responsável por uma rádio num concelho onde todos se conhecem?
          AS
– Tem os seus aspectos agradáveis e alguns desagradáveis. Como responsável pela rádio recebo muitas críticas mas também me dizem coisas agradáveis. Daí vale a pena tirar conclusões, quer das críticas que acabam por nos ajudar a corrigir algumas coisas menos boas, quer dos elogios que nos incentivam a trabalhar melhor.
          SR – Esse relacionamento tão próximo não os impede de informar de forma isenta?
          AS
– Não temos problemas em relação a isso porque a forma de sobrevivermos é não deixar de ser rádio local. Não deixar de ser local é permitir que a população nos telefone e coloque os seus problemas. E quando há problemas, a Mirasado não se intitula dona da verdade e ouve todas as partes interessadas. Portanto, não há qualquer tipo de branqueamento da informação.
          SR – Qual é o relacionamento da Mirasado com os agentes de desenvolvimento da região?
          AS
– São óptimas e dou-lhe o exemplo da Sociedade Filarmónica Visconde de Alcácer que, quando ocorreu a viagem dos galeões de sal a Espanha, decidiu pagar as despesas do nosso repórter. E o mesmo acontece com outras entidades culturais do concelho, como é o caso dos clubes desportivos.
          SR – E isso não tem influência no resultado final da reportagem?
          AS
– Não tem qualquer tipo de influência porque temos regras muito claras sobre essa matéria e não permitimos esse tipo de situação. Todos os nossos colaboradores estão muito atentos a essas questões porque sabem, de antemão, que isso poderia ocasionar o aparecimento de algumas tendências.
          SR – Em relação à Câmara, também têm este tipo de distanciamento?
          AS
– A RDP é uma rádio estatal e, como tal, recebe apoios do Estado. Ao nível local, a Secretaria de Estado da Comunicação Social apresentou um projecto, que acabou por ser chumbado, sobre a possibilidade das autarquias locais apoiarem devidamente os órgãos de comunicação social locais. E de certa forma isso seria bom porque dava-nos a certeza de que as coisas iriam correr melhor. E se calhar, os carolas que estão à frente da rádio poderiam pensar noutras coisas e dimensionar o seu crescimento de uma outra forma. A nossa relação com a Câmara de Alcácer do Sal é de instituição para instituição, ou seja, é uma relação igual à que terá com qualquer outro fornecedor de serviços. Temos um protocolo com a autarquia no sentido de publicitar as suas iniciativas ao longo do ano e a Câmara paga-nos para que esse serviço seja feito. Relativamente às questões informativas, nós sabemos que a Câmara é o maior produtor de informação ao nível do concelho, no entanto isso não implica que os nossos blocos informativos sejam exclusivos da Câmara. Pelo contrário, pelo facto de termos dificuldades na informação local, abrimos o nosso leque de abrangência à informação regional.
          SR – A que é que se devem as dificuldades relativas à informação local?
          AS
– Aqui não há muitas actividades. Ou seja, é por ocasiões porque há alturas em que três repórteres não chegam para cobrir os acontecimentos de um só dia, e em contrapartida, na maior parte dos dias um repórter é demais.
          SR – Qual é o vínculo contratual entre a rádio e os funcionários?
          AS
– Temos mais de vinte colaboradores, muitos deles cooperantes, e não ganham nada por colaborar connosco. Temos quatro funcionários, dois animadores de emissão e dois jornalistas, estão a recibo verde porque ainda não há quadro de pessoal. Até agora as coisas não têm sido fáceis e a prioridade era manter a Mirasado viva. No entanto a criação de um quadro de pessoal é, de facto, uma das nossas prioridades, mas só depois de encontrar novas instalações porque essa é, na verdade, a maior urgência. Estamos à espera que a Câmara disponibilize o terreno que já nos prometeu, para depois construirmos as novas instalações. São passos que temos de dar com tempo porque, neste quadro são poucas as rádios que têm sobrevivido. Nós tentamos sobreviver sem dependermos de ninguém e isso é muito complicado e difícil.
          SR – A vossa sobrevivência passará também pela transformação da cooperativa em sociedade?
          AS
– É uma das questões a considerar nos próximos meses. Penso que será sugerido a todos os cooperantes transformar a Mirasado numa empresa. Como em qualquer cooperativa aparecem quatro para trabalhar e os outros têm mais que fazer. É um pouco isso que se passa aqui, somos sempre os mesmos e todos sabemos que é assim, por isso nem sequer estranhamos.
          SR – Quais são os projectos prioritários da Rádio Mirasado?
          AS
– A nossa grande prioridade diz respeito às novas instalações porque a nível técnico não estamos tão mal como isso. Pela primeira vez, vamos tentar candidatar-nos a financiamentos da Secretaria de Estado de Comunicação Social ao abrigo dos incentivos à modernização tecnológica.
          SR – Este incentivo contempla 50% do total do custo do projecto. Onde é que vai buscar os outros 50%?
          AS
– Nessa altura as coisas só serão possíveis através de empréstimos à banca porque não temos dúvidas de que, para crescer temos de investir. É um risco que se corre mas é um risco calculado porque a Mirasado tem raízes na terra e estamos conscientes de que, com 12 anos, estamos na idade certa para começarmos a crescer.
          SR – Acha que os subsídios oficiais são suficientes?
          AS
– Os apoios devem existir mas não se devem lançar projectos a pensar nos apoios. Porque, se isso acontece, poderá ser, desde logo, um projecto falido. Se calhar precisamos é do apoio suficiente para continuarmos a preocupar-nos com aquilo que temos de fazer pela rádio. Aderimos ao protocolo com a Telecom, que é bom para a Mirasado, e penso que isso poderia ser alargado mas em termos de prestações de serviços. Por exemplo, poderia ser feito um protocolo com a EDP, porque as despesas com a electricidade são, de facto, muitas.
          SR – Como é que vê as rádios da região?
          AS
– Pela sua localização, umas têm menos dificuldades que outras. A Mirasado é das que tem mais dificuldades porque Alcácer do Sal poderá estar, neste momento, a renascer em termos de desenvolvimento e de investimento, mas até há uns anos a esta parte, isso não acontecia. E assim, o mercado publicitário torna-se ainda mais complicado.
          SR – Então, porque é que a rádio não se estende até aos concelhos onde o mercado é mais propício?
          AS
– Esse é um dos grandes objectivos quando tivermos novas instalações, numa localização diferente da actual. Ou seja, se agora apontamos a emissão para sul porque, com as actuais condições é difícil atingir o norte do distrito, num futuro próximo vamos ficar num ponto mais alto, colocar a torre numa localização mais propícia e atingir o mercado do norte do distrito.
          SR – A Mirasado está aberta às novas tecnologias?
          AS
– Sim, recentemente criámos um site na Internet. Isso passa um pouco pela minha paixão pela informática e pelo facto de ter muitos amigos com os quais posso contar para este trabalho. Considerando as potencialidades da Internet, que nos leva a todo o mundo, a grande aposta da Mirasado é que o site seja um complemento da nossa emissão e, ao mesmo tempo, queremos dar a conhecer aos nossos emigrantes tudo o que se passa em Alcácer do Sal. Por isso, a página é actualizada diariamente com todos os blocos informativos e as efemérides diárias do concelho.
          SR – Qual vai ser o futuro da vossa página?
          AS
– Queremos consolidar a página e fazê-la crescer. Temos um projecto que pretende colocar no site as fotografias de todos os que a fazem e, para além disso, pretendemos dar a conhecer todas as nossas associações e colectividades, com a sua história, as suas imagens e, principalmente, o som da bandas de música de Alcácer do Sal. Um projecto deste tipo dá muito trabalho mas temos uma equipa de gente que reparte tarefas e que trabalha por ‘amor à camisola'.
          SR – Então, quer a rádio quer o site funcionam devido ao ‘amor à camisola' de alguns dos seus colaboradores?
          AS
– Julgo que para que um projecto cresça, têm de existir pessoas com amor a esse projecto. E se não for assim, é impossível que as coisas aconteçam. Por isso temos de jogar com duas situações: contar com aqueles que continuam a amar o projecto e com aqueles de que precisamos para que o projecto cresça. Então, a estes temos de dar condições para que trabalhem dentro do espírito que ainda nos anima, enquanto fundadores da Rádio Mirasado.

Entrevista de Etelvina Baía     

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