[ Edição Nº 76 ] – Presidente da Junta de Freguesia do Pragal concorda com comboio na ponte mas com acessibilidades.

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Presidente da Junta de Freguesia do Pragal garante
Combóio na ponte é positivo, mas com acessibilidades

           O presidente da Junta de Freguesia do Pragal, no concelho de Almada, onde irá ficar situada a estação principal do combóio que atravessará a ponte 25 de Abril, considera importante a implementação deste meio de comunicação com Lisboa. No entanto adverte que terá de ser acompanhado de um conjunto de medidas que passam por mais acessibilidades, transportes públicos, estacionamentos e tarifas mais baratas do que as previstas. Caso contrário, garante que os utentes rejeitarão o combóio e o fluxo de trânsito automóvel continuará a congestionar a ponte 25 de Abril.

          Setúbal na Rede – Qual é a importância, para a freguesia do Pragal, da circulação do combóio na ponte 25 de Abril?
          Carlos Mourinho
– A importância é mais ampla porque a implantação do combóio é muito importante para o concelho de Almada e para os concelhos que são abrangidos pela Fertagus. O Pragal é o fulcro porque é aqui que a estação principal se situa e é daqui que, futuramente, se farão os interfaces em termos rodoviários e ferroviários. Assim, a importância do Pragal tem de ser vista numa perspectiva muito mais ampla. A travessia ferroviária é muito importante, devia ter sido implementada há mais tempo e espero que, a breve prazo, possa vir a solucionar a questão fundamental para os almadenses, nomeadamente as acessibilidades à cidade de Lisboa. E aqui, a dúvida que se coloca relaciona-se com aspectos económicos. Por isso é necessário fazer um estudo com as pessoas que utilizam o habitual meio fluvial, saber os valores dos passes e compará-los com aquilo que a Fertagus apresenta. Ao compararem os preços, as pessoas vão ter algumas surpresas, e logicamente, vão optar pelo mais económico.

          SR – Acredita que, com os preços previstos, os utentes irão utilizar o combóio?
          CM
– Por aquilo que é conhecido, ficarão a perder dependendo de um aspecto fundamental que é, por onde é que as pessoas se deslocam? Ou seja, a primeira fase fica em Entrecampos e, se trabalhar na zona Oriental da cidade talvez utilize a Carris ou outro transporte. E para ir até ao Pragal é outro transporte também. Aliás, a Fertagus também vai fazer transporte rodoviário. Faz a Fertagus e fazem os Transportes Sul do Tejo (TST), ou seja, serão concorrentes e isso é salutar. Portanto, só depois de um primeiro período de funcionamento é que a Fertagus entenderá qual é a sua política de preços. E aqui fica um apelo porque, embora se saiba que as empresas não podem perder, também se sabe que os preços têm de ser competitivos e têm de ter em conta aquilo que se pratica.
          SR – Sendo a zona tão fustigada com os engarrafamentos na ponte, esta será a esperança na resolução do problema?
          CM
– É um primeiro passo porque tudo isto tem de ser conjugado com outras medidas, como o estacionamento e a implementação do metro de superfície. Isto é fundamental porque há que não sobrecarregar a cidade com transportes particulares que surgem dos diversos concelhos a sul da península. Mas há que tomar ainda outras medidas, como a implementação do transporte rodoviário da Fertagus, trabalhando também na zona mais rural que continua a ser muito mal servida. No entanto, embora seja importante, esta não me parece ser a questão essencial porque a principal questão está na ponte Vasco da Gama que não desafogou o trânsito na 25 de Abril. É que, com esta localização, as pessoas que vivem em Almada começam a pensar que o tempo que levam para chegar à Vasco da Gama, acaba por justificar meia hora na ponte 25 de Abril.           Ou seja, o problema da nova ponte é que está longe da zona de maior concentração de utentes, e neste caso, a solução teria sido a localização Santa Apolónia/Barreiro. Agora, o que vai acontecer é que, quando a CP utilizar a ponte 25 de Abril, terá umas dezenas de quilómetros de via férrea pela frente, ou seja, vai passar por zonas densamente povoadas e isso quer dizer que muita gente vai ter de vender os seus terrenos para o combóio passar. Eu não digo que futuramente a opção não seja outra, aliás já se fala nisso porque o ministro João Cravinho, já referiu a necessidade de uma terceira ponte. Portanto, isto só mostra que a opção Vasco da Gama não foi correcta porque primeiro devia ter sido construída a do Barreiro. Para além disso, quem vem do norte do país e não quiser passar por Lisboa não precisa desta ponte, contrariamente ao que diziam os que decidiram esta localização. Basta ver o número de veículos que passam e verificar que, quem está a pagar a ponte Vasco da Gama são os utentes da ponte 25 de Abril.

          SR – Depois de se equacionar a utilização do combóio ligeiro com ligação ao metro de Lisboa, optou-se por uma estrutura mais pesada. Parece-lhe uma boa opção?
          CM
– Este tipo de combóio não é considerado uma estrutura pesada e por isso é que funciona de maneira diferente da CP. Este combóio tem composições relativamente pequenas, com primeiro e segundo andar, de boa qualidade, e em termos de exploração é o indicado porque não pode ser muito comprido já que as paragens são frequentes. Portanto, tem características similares às que se indicavam para um metro de superfície. Agora, o que nos parece é que vamos implementar um metro de superfície que vai parar quando chegar ao Pragal e, sendo assim, poderia ir até Entrecampos e isso evitaria mais um explorador e pagamentos diferenciados. O que também se devia fazer é como se faz em Londres, onde se pode ter um passe para todos os transportes com um preço unitário sem que as pessoas tenham de se preocupar com essas questões. E depois, seriam as próprias empresas a discutir como é que fariam a compensação entre si.

          SR – Com a entrada em funcionamento do combóio, está previsto o aumento das portagens na ponte. Considera esta medida correcta?
          CM
– A questão que se põe aqui é a da equidade porque as leis são para todos. E as pessoas perguntam porque é que neste país há cidadãos que pagam portagens e outros que não pagam. O que vai acontecer é que vai haver um aumento das portagens e isso vai reflectir-se na vida dos cidadãos que têm de utilizar a ponte. Por isso, os responsáveis deveriam pensar no que é que, efectivamente, cabe à exploração da ponte 25 de Abril. Se isso fosse feito, estou convencido de que a portagem baixava. Quanto à intenção do aumento funcionar como um desincentivador da utilização da ponte, acho que haverá sempre um bom conjunto de cidadãos que utilizará sempre os transportes próprios. E se isto acontece, não vamos penalizar as pessoas, mas sim criar alternativas à ponte.
          SR – O facto da estação do Pragal estar distante do centro urbano, poderá funcionar também como um desincentivador da utilização do combóio?
          CM
– Nesta primeira fase acho que sim porque, para entrar na parte urbana de Almada existem apenas três grandes eixos: o que vem da via rápida da Costa, o que passa junto ao Hospital Garcia de Orta e o que faz alternativa à Estrada Nacional 10. Portanto, o que irá acontecer é que, se as pessoas começarem a utilizar o transporte ferroviário haverá ainda maior fluxo de trânsito a um local que hoje já está muito congestionado. Sendo assim, há uma grande necessidade de reforçar as acessibilidades à cidade, seja com a duplicação da ponte do Pragal seja com a construção de um segundo viaduto. E isto tem que ser resolvido rapidamente, não só através do transporte rodoviário mas, como tenho dito, através de uma solução integrada que inclui o metro de superfície.           No entanto, sabemos que ainda vai levar uns anos até que se construa o metro de superfície, e isso deve-se, essencialmente, à teimosia dos nossos governantes porque isto há muito que começou, através dos concelhos de Almada, Seixal, Barreiro e Moita. No tempo do ministro Ferreira do Amaral as coisas andavam bem, estavam a preparar o lançamento do concurso internacional, depois veio este Governo que tanto mexeu que teve de começar tudo de novo.

          SR – Até ao início da utilização do metro de superfície os utentes terão acessos suficientes e condições para estacionar junto à estação do Pragal?
          CM
– Já hoje as coisas são difíceis, portanto com o combóio ainda serão piores. A solução aqui são os transportes públicos porque, se as pessoas continuarem a utilizar transporte próprio para virem até aqui, a solução será muito complicada. Se se conseguir estacionamentos suficientes na parte ocidental, onde já existem alguns, e construir novos na parte oriental, para além de novas acessibilidades em alternativa à ponte do Pragal, as coisas melhorarão. Mas se continuarem como estão, a única hipótese é o transporte rodoviário.

          SR – Quanto a novas acessibilidades como a da construção de um novo viaduto sobre a auto-estrada, é apenas uma possibilidade ou está em vias de ser realizada?
          CM
– A responsabilidade é da Junta Autónoma de Estradas e é obvio que eles sabem aquilo que nós sabemos. Ou seja, também sabem que tem de haver uma solução para este problema. E, por diversas vezes a Câmara e a Junta têm feito sentir essa necessidade, até agora sem resultados.
          SR – Tendo em conta a quantidade de gente que por aqui passa diariamente, em direcção a Lisboa, a freguesia do Pragal corre o risco de ficar descaracterizada?
          CM
– Descaracterizada não, quando muito poderíamos chamar-lhe desarrumada mas nem isso me parece. Trata-se de uma das freguesias mais novas do concelho porque saiu da área da freguesia de Almada há 14 anos. E dado que ainda era a zona com mais espaço para construção, começou a ser muito procurada pelas pessoas para aqui viverem. Há aqui uma convivência salutar, particularmente na zona do núcleo histórico da freguesia, onde as pessoas se conhecem bem e fazem os seus convívios. Depois temos a parte oriental, que tem algumas dificuldades. É a chamada zona do PIA, Plano Integrado de Almada, cujo ordenamento foi tirado à Câmara Municipal e passou a ser feito pelo IGAPHE, Instituto de Gestão e Alienação do Património Habitacional do Estado. Portanto, aqui não há, nem pode haver, planeamento porque isso está nas mãos do IGAPHE.           Não sabemos o que lá fazem mas sabemos que há lacunas, como é o caso das escolas primárias que não são em número suficiente, embora disponham de terrenos doados pela autarquia. Mas os cidadãos, quando têm problemas dirigem-se à Junta e, apesar de não podermos fazer nada, dizem que foi em nós que votaram e que nós é que temos de resolver os problemas. De qualquer modo, esta freguesia é fulcral, porque é onde os que se deslocam diariamente a Lisboa deixam o transporte particular para irem apanhar o transporte público. Depois, porque o Hospital Garcia de Orta situa-se na freguesia, a estação central dos Correios também e o mesmo vai acontecer com a divisão da PSP de Almada e com o futuro Palácio da Justiça. Embora seja uma das freguesias mais pequenas, torna-se muito importante porque é um eixo de passagem e o local onde estão concentrados os serviços fundamentais para o cidadão. Portanto, o Pragal é uma zona qualificada, apetecível para viver e sem grandes problemas.

Entrevista de Pedro Brinca     
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