[ Edição Nº 77] – Brázio Romeiro, presidente da Junta de Freguesia de Corroios.

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Para melhorar os benefícios do combóio na ponte
Corroios quer o metro de superfície

           Brázio Romeiro, presidente da Junta de Freguesia de Corroios, no Seixal, considera importante a instalação do combóio na ponte 25 de Abril e refere a importância da estação construída na freguesia. No entanto, acredita que, por si só, esta não será a solução para todos os problemas relacionados com os transportes, uma vez que essa solução passa pelo metro de superfície e pelas respectivas acessibilidades.

          Setúbal na Rede – Qual é a importância, para a freguesia de Corroios, do combóio na ponte 25 de Abril?
          Brázio Romeiro
– A ligação ferroviária Lisboa/Pragal/Pinhal Novo tem uma importância vital, em termos de acessibilidades, para a freguesia de Corroios. Representa uma qualidade acrescida no desenvolvimento desta terra que em 1970 teria cerca de 5 mil habitantes e que hoje tem mais de 55 mil e que se afirma cada vez mais como um grande pólo de centralidade nesta área onde está inserida, nomeadamente entre os concelhos de Almada e do Seixal.

          SR – Acredita que o combóio vai mesmo ser utilizado?
          BR
– Acredito que o combóio vai ser mesmo muito utilizado pela população da freguesia e pela população das freguesias limítrofes, nomeadamente da Sobreda e da Charneca da Caparica, e do próprio Laranjeiro, já que, em termos de vias de comunicação, Corroios fica num eixo de fácil acesso e isso vai fazer com que as pessoas se dirijam aqui para apanhar o combóio. Há, contudo, um pormenor que considero muito importante para que a fluidez de tráfego se faça com a maior celeridade, que é a construção do metro de superfície que tem prevista a ligação ao combóio precisamente aqui em Corroios. E isso fará com que, de uma forma mais natural, as pessoas se dirijam a esta zona para apanharem o combóio.
          SR – Enquanto o metro de superfície não é construído, os acessos à estação parecem-lhe incentivadores da utilização do combóio?
          BR
– Talvez não, se tivermos em conta que, desde 1966, altura em que foi construída a auto-estrada, não foram feitos mais acessos entre a parte norte e a parte sul da via. E, principalmente em Corroios, é fundamental que se façam novas vias de comunicação por forma a facilitar a ligação da população que reside na zona central da freguesia à parte sul da auto-estrada, nomeadamente Vale de Milhaços, Alto do Moinho e Marisol, para além das freguesias da Sobreda e da Charneca da Caparica.           Por isso, defendemos que, para que as pessoas se possam dirigir com facilidade à estação do combóio e aos parques de estacionamento junto à estação, é fundamental que se façam mais e melhores vias de acesso. E neste momento defendemos uma passagem superior sobre a auto-estrada, ligando a Estrada Nacional 10 à Quinta da Marialva e que a passagem inferior da auto-estrada seja alargada, ligando a zona central de Corroios a Vale de Milhaços. Ou seja, defendemos o alargamento da estrada de Vale de Milhaços por forma a permitir duas faixas em cada sentido.

          SR – A Junta já fez sentir essa necessidade junto das entidades competentes?
          BR
– Já sensibilizámos a REFER, a Fertagus e a Câmara Municipal do Seixal para esta necessidade que consideramos fundamental em termos das acessibilidades relativas à estação do combóio. A Fertagus concordou com o nosso ponto de vista e informou-nos que, também ela, já tinha feito sentir essa necessidade à Direcção Geral dos Transportes Terrestres, nomeadamente no que diz respeito ao alargamento da estrada de Vale de Milhaços, por forma a que seja feita mais outra passagem inferior ao lado da que já existe, o que permitiria a existência de duas faixas em cada um dos sentidos.

          SR – Os estacionamentos e a própria estação foram construídos de acordo com as necessidades desta freguesia?
          BR
– Neste momento acho que sim porque a estação do combóio corresponde às actuais necessidades da população e, em termos de desenvolvimento futuro, penso que está devidamente dimensionada para isso. Quanto aos parques de estacionamento, considero que têm capacidade suficiente para receberem as viaturas dos utentes do combóio. A nossa principal preocupação tem a ver com a necessidade da utilização do transporte colectivo em detrimento do transporte próprio, e o transporte colectivo que trará o utentes é o metro de superfície, que irá corresponder às actuais necessidades.
          SR – Durante a construção da estação registaram-se problemas entre as autarquias e a REFER a propósito das obras realizadas. Esses problemas já foram resolvidos?
          BR
– Na freguesia, alguns deles foram resolvidos, outros estão em fase de resolução e outros, infelizmente, não vejo solução para eles. Um desses problemas tem a ver com a necessidade de compensar os moradores do bairro da Quinta da Mata com zonas de estacionamento automóvel, visto que, por força da construção da estação, acabaram por ficar sem os estacionamentos que detinham. A Junta já alertou a REFER e a Fertagus no sentido de compensar estes moradores com espaços para estacionamento automóvel, nomeadamente no período da noite.           Um outro problema diz respeito ao desvio da vala real da Sobreda, que ainda não foi solucionado. Esta vala foi deslocada do seu leito natural para a colocação das fundações do tabuleiro e até hoje não resolveram o assunto. E isso deixa-nos bastante preocupados porque, em parte, esse desvio foi responsável pelas inundações na baixa de Corroios em Novembro de 1997. Uma outra coisa que nos preocupa é a ligação do parque de estacionamento a sul da auto-estrada à estação do combóio. Inicialmente, previa-se que esta ligação para peões seria feita através de um tapete rolante por cima da auto-estrada. Posteriormente essa solução foi abandonada e optou-se por uma passagem sob a auto-estrada, mas a obra não foi, sequer, iniciada. Ora, se a inauguração da ligação ferroviária está prevista para o dia 25 de Julho e a obra nem sequer começou, este atraso traz-nos muitas preocupações, já que poderá acontecer que a passagem não esteja concluída a tempo. Isto na melhor das hipóteses porque não quero, sequer, pensar que essa solução foi abandonada.

          SR – Tendo em conta todos esses problemas, pode dizer-se que as relações entre a Junta e a REFER têm sido conflituosas?
          BR
– De maneira nenhuma. Nós temos tido relações puramente institucionais sobre tudo aquilo que consideramos fundamental para o desenvolvimento do processo de construção da estação do combóio e de todo um conjunto de acessibilidades que vão influenciar o novo ordenamento da zona central de Corroios. Temos encontrado algumas dificuldades no que diz respeito à satisfação de algumas reivindicações da autarquia mas isso não significa que tenhamos encontrado dificuldades nesta relação institucional. Temos tido algumas dificuldades em ver plenamente satisfeitas as reivindicações que apresentamos, mas também entendemos que isso é perfeitamente natural. Esta é uma obra de grande qualidade que representa uma mais valia importantíssima para o desenvolvimento da freguesia.

          Mas se for feita de acordo com algumas sugestões apresentadas pela autarquia, Corroios sairá muito mais beneficiado do que foi até aqui. Dizemos isto desta forma, porque entendemos que algumas das reivindicações não foram plenamente satisfeitas. E refiro-me concretamente às acessibilidades à Escola Secundária João de Barros, à existência de alguns espaços envolventes à escola, que na nossa opinião, deveriam ter integrado o domínio da própria escola. Esses espaços deveriam ser aproveitados para a construção de um pavilhão gimnodesportivo que a própria Câmara se disponibilizou a co-financiar. Um outro problema diz respeito à necessidade de encontrar zonas de estacionamento automóvel para os professores e auxiliares de acção educativa daquela escola, porque o parque que tinham foi reduzido por força da construção das redes viárias.

          SR – O combóio e o metro de superfície são a solução para os problemas de mobilidade e de transporte na freguesia?
          BR
– Não, porque o desenvolvimento sustentado de Corroios tem, também, necessidade de mais e melhores vias de comunicação. O combóio é uma mais valia extremamente importante mas, para que o combóio constitua uma solução tem que haver o metro de superfície. Da mesma forma que consideramos que a construção da via alternativa à Estrada Nacional 10 é, neste momento, uma necessidade absoluta, e que os acessos à auto-estrada do sul construídos no âmbito da Expo’98, e que nunca foram utilizados, devem ser abertos ao trânsito. E para começar, seria importantíssimo abrir a saída da auto-estrada em Corroios porque, para quem vem de Lisboa para o sul, as filas de trânsito para sair no centro-sul começam na zona das portagens. Isto quando verificamos que, se calhar, 40% desse trânsito se dirige mais para sul, eventualmente para Corroios, para Sobreda e para a Charneca da Caparica. É também importante abrir a entrada da autro-estrada em Corroios. Por diversas vezes sensibilizámos a BRISA para o problema mas a resposta não surgiu. Inclusivamente a RTP1 fez uma reportagem sobre este assunto e não conseguiu qualquer resposta. Outra obra fundamental em termos de acessibilidades, é a ligação de Almada, no nó das Casas Velhas, à Circular Regional Interna da Península de Setúbal (CRIPS), o chamado anel de Coina. A obra está interrompida na Charneca da Caparica porque, para continuar, é necessário o financiamento da administração central.

          SR – Tendo em conta que o combóio trará a Corroios muitas pessoas de passagem, a freguesia corre o risco de ficar descaracterizada?
          BR
– Corroios caminha, a passos largos, para um grande pólo cultural, social, económico e laboral. Os planos de urbanização em curso, ou projectados, prevêem que nos próximos anos 10 anos a freguesia venha a ter mais cerca de 30 mil habitantes. Isto significa que nos próximos anos, Corroios se irá afirmar como um grande pólo centralizador. Entendemos que este desenvolvimento demográfico deve ser devidamente acompanhado da construção de mais equipamentos de usufruto colectivo, nomeadamente um cartório notarial, o registo civil, uma repartição de finanças, um complexo desportivo e piscinas municipais. Assim, estes equipamentos devidamente conjugados com zonas de desenvolvimento industrial, como é o caso do chamado pólo industrial de Santa Marta de Corroios, contribuirão para aquilo que consideramos ser o desenvolvimento sustentado da freguesia.           Hoje, Corroios é auto-suficiente em cerca de 54%, e naturalmente que, nos próximos anos este desenvolvimento será ainda mais visível. Esta é uma das freguesias do concelho do Seixal com maiores índices de desenvolvimento ao nível económico, cultural e social. Segundo dados do Ministério do Planeamento e Administração do Território, o Seixal é o concelho do país com maior índice de desenvolvimento social, mas curiosamente é na freguesia de Corroios que esses índices são mais visíveis. Isso acontece na cultura, no ensino, no saneamento básico e na protecção do ambiente.

Entrevista de Pedro Brinca     
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