[ Edição Nº 82] – CRÓNICAS DA BEIRA MAR por Raul Oliveira.

0
Rate this post

          Dos vários mitos ou estereótipos ligados ao Alentejo e ao povo alentejano o mais acintoso talvez seja o que pretende associá-lo à pouca produtividade, à indolência, em suma à inutilidade.

Nada mais falso e que é desmentido a todo o passo.

Recentemente uma entidade acima de toda a suspeita, o INE/ Instituto Nacional de Estatística, divulgou que “… a produtividade global aumentou cerca de dez por cento entre 1995 e 1997, sendo os valores deste último ano estimativas. O maior aumento de produtividade registou-se no Alentejo o que de acordo com o INE, se deve “à ocorrência de indústrias capital – intensivas e de elevado valor acrescentado”” (Público – 17/07/99).

Se acrescentarmos a esta autêntica desmistificação da “indolência” alentejana outra informação anterior, de que proporcionalmente no Alentejo se pagam mais impostos que noutras regiões do país (o que indicia menos fugas ao fisco), é caso para questionar se não será altura de rever certas ideias feitas e de exigir moralização nas decisões governamentais.

Se nos lembrarmos ainda que as benesses comunitárias (que vieram substituir o ouro do Brasil, os cafés minérios e outras “ninharias” coloniais africanas), têm sido prodigamente esbanjadas na área da capital, esquecendo o Alentejo e o interior do país. Se nos lembrarmos também que tardam em ser aproveitadas as indesmentíveis potencialidades deste importante rincão do espaço vital do país (perdidos que estão e ainda bem, diga-se de passagem, os vastos territórios coloniais), é tempo de nos questionarmos, nós os alentejanos, se não chegou a altura de exigir o respeito que nos é devido, que termine a “colonização” a que temos sido subjugados ao longo dos tempos.

Que outra coisa se pode dizer de vermos as nossas principais riquezas: a cortiça, os minérios, e os mármores irem proporcionar mais valias noutras regiões, onde são transformadas, e não servirem para arrancar o Alentejo do marasmo económico que o caracteriza há décadas.

Por muito que me custe admiti-lo tenho que reconhecer que os responsáveis por esse marasmo económico, não estão todos fora do Alentejo ou nos sucessivos governos que têm esquecido o Alentejo, também os há cá dentro e muito principalmente nos que tendo saído do Alentejo, nada fizeram para que o seu atraso económico fosse atenuado ou mesmo anulado.

Bom seria que o arreigado amor que o alentejano dedica à sua terra natal encontrasse formas concretas de reivindicar o que o Alentejo precisa para estancar o êxodo dos seus filhos, desenvolvimento sustentado, porque potencialidades não lhe faltam.