[ Edição Nº 88] – Manifestação de operários da Lisnave.

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Edição Nº 8806/09/1999
25abril2-4000763

MEMÓRIAS DA REVOLUÇÃO
25 anos depois

(Manifestação de operários da Lisnave)

Sob a ameaça das armas e dos carros de assalto

Trabalhadores da Lisnave ‘invadiram’ Lisboa

          No dia 12 de Setembro de 1974 mais de cinco mil trabalhadores dos estaleiros da Lisnave, em Almada, marcharam em direcção a Lisboa para se juntaram aos colegas dos estaleiros da Rocha. O objectivo era a realização de uma manifestação junto ao Ministério do Trabalho. Mas para lá chegarem, os trabalhadores da Lisnave tiveram de enfrentar centenas de militares armados ‘até aos dentes’, que lhes barraram o caminho com chaimites e carros de assalto. Francisco Tomás, um dos impulsionadores da primeira manifestação operária pós 25 de Abril, revive os momentos históricos que marcaram toda a luta operária em Portugal.


Setúbal na Rede – Onde é que estava no dia 12 de Setembro de 1974?

Francisco Tomás

– Estava na Lisnave, onde trabalhava como serralheiro, na reparação naval. Nesse dia, participei na célebre manifestação dos trabalhadores da Lisnave, onde mais de 5000 pessoas atravessaram o Tejo para se manifestarem em Lisboa. Exigíamos a aplicação de diversas medidas, entre elas a melhoria das condições de trabalho, melhores salários, o direito à greve e o saneamento da rede de agentes e informadores da PIDE e da Legião Portuguesa.

SR

– O que é que levou os trabalhadores da Lisnave a realizarem a manifestação?

FT

– Na altura eu ainda não estava ligado à Comissão de Trabalhadores, mas como muitos outros, participei na comissão organizadora da manifestação e nas decisões tomadas pelos trabalhadores após o 25 de Abril. Há muito tempo que nos queixávamos de falta de condições de trabalho e a manifestação de 12 de Setembro foi a consequência de muitos anos de lutas, greves e reivindicações por satisfazer. Desde 1961, altura em que a empresa foi formada, que as pessoas sofriam pelo facto deste trabalho ser extremamente desgastante e perigoso sem que, entretanto, tivessem sido criadas as necessárias condições de segurança. Portanto, o 12 de Setembro vem culminar toda uma história de luta dos trabalhadores da Lisnave, que inclusivamente levou à realização de greves muito antes do 25 de Abril. Todas elas foram reprimidas e muitos dos trabalhadores despedidos. Isto porque, devido ao nosso carácter reivindicativo, tinha sido criada na Lisnave uma grande rede de informadores da PIDE e da Legião Portuguesa que sabiam quem reivindicava e quem participava nas lutas. Os trabalhadores estavam todos identificados e eram espiados constantemente, pelo que, quando ocorria uma greve os responsáveis ou participantes eram logo despedidos.

SR

– Pode dizer-se que o ‘rastilho’ para a manifestação de Setembro terá sido a greve de Maio de 1974?

FT

– A greve de Maio culminou com a apresentação de um caderno reivindicativo, o primeiro a ser negociado entre a administração e os trabalhadores, e uma das grandes reivindicações era, precisamente, a readmissão dos que foram despedidos por terem participado nas greves anteriores, bem como o saneamento dos informadores. Embora algumas reivindicações tenham sido satisfeitas, muitas outras ficaram por satisfazer, como foi o caso dos saneamentos e da instituição do direito à greve, e isso levou à manifestação de 12 de Setembro. Depois de Maio, sentiu-se a vontade expressa dos trabalhadores em que a luta da Lisnave não se restringisse aos muros da fábrica, por isso decidimos realizar uma grande manifestação, uma vez que todos queríamos que o nosso grito de liberdade, de democracia e de direito de expressão chegasse a todos os outros trabalhadores do país.

SR

– Houve entraves à realização da manifestação?

FT

– Houve e muitos, porque o poder político instituído não estava disposto a permitir que isso acontecesse. A nossa decisão tinha sido tomada dias antes e, como não fizemos segredo disso, já toda a gente sabia das nossas intenções. Portanto, na manhã de 12 de Setembro, demos com um cerco militar ao estaleiro, composto por centenas de comandos, páraquestistas e fuzileiros com armas e centenas de carros de combate. Era um enorme acto de intimidação porque o morro que dominava a Margueira foi ocupado pelos páraquedistas e a estrada entre a Cova da Piedade e Cacilhas foi toda ocupada pelos fuzileiros e pelos comandos. Durante esse período, vários oficiais entraram nos estaleiros, com o intuito de nos intimidar e convencer a não realizar a manifestação.

Por volta das quatro da tarde, realizámos o plenário para a decisão final e voltámos a defrontar-nos com as pressões dos militares. Os oficiais assistiram ao plenário realizado frente ao refeitório e, durante toda a reunião, pressionaram e chantagearam os trabalhadores dizendo que íamos contra a lei, tudo no sentido de nos levar a desistir da manifestação. No meio daquilo tudo, o PCP e o PS fizeram sair um comunicado contra a manifestação. Mas como uma das bandeiras da nossa luta era o direito à greve e à liberdade de expressão, uma bandeira pela qual também lutaram muitos comunistas e socialistas antes do 25 de Abril, decidimos não nos deixar intimidar. E contra todas as pressões e chantagens, a esmagadora maioria dos trabalhadores presentes no plenário decidiu sair para a manifestação.

SR

– Como é que os trabalhadores conseguiram ultrapassar a barreira militar sem que se tenham verificado actos de violência?

FT

– Éramos cerca de cinco mil e a maior parte eram os operários de fato macaco e capacete na cabeça, a desfilar direitos à portaria da fábrica. Então, foi uma cena assustadora que quase parecia um estado de guerra porque, de um lado estava um enorme impacto militar enquanto do outro se via uma massa humana a caminhar, perfilada, em direcção aos carros de assalto e aos chaimites. E este espectáculo foi tão assustador que chegou a superar a ocupação do estaleiro feita pela Polícia de Intervenção, em 1982, após sete semanas de luta dos trabalhadores.

Não nos deixámos intimidar pelas pressões e pelas armas e, depois de alguma discussão, saímos dos estaleiros sob o olhar de centenas de páraquedistas. Entretanto, quando chegámos à estrada, vimos o caminho barrado com carros de assalto, chaimites e fuzileiros fortemente armados e os graduados acercaram-se da comissão organizadora, dizendo que estaria para chegar um representante da Comissão Coordenadora das Forças Armadas. Não sei se isso era verdade ou se era mais um acto de intimidação, mas o que é certo é que esperámos e não chegou ninguém, pelo que decidimos não esperar mais e ultrapassámos a barreira militar e fomos em frente. Como os militares viram que não nos intimidavam, acabámos por passar sem problemas. Tivemos essa coragem e determinação porque havia uma forte unidade entre os trabalhadores, quanto à legitimidade daquilo que reivindicávamos.

SR

– Quando desceram sobre Lisboa, voltaram a encontrar militares?

FT

– Sim, atravessámos o Tejo de barco e esta nossa passagem arrastou mais trabalhadores que decidiram juntar-se a nós. Como éramos muitos, enchemos a zona da Cacilhas e os barcos para Lisboa, por isso levámos algum tempo a chegar lá. Quando chegámos ao Cais do Sodré, juntámo-nos aos colegas de trabalho dos estaleiros da Lisnave, na Rocha, e organizámo-nos para descermos até ao Ministério do Trabalho. Agora, veja-se o impacto de cerca de 10 mil trabalhadores, dos dois estaleiros, de capacete, fato de macaco e botas de biqueira de aço, perfilados em filas de oito. Era de tal forma impressionante, que ao passarmos pelas ruas da baixa de Lisboa não se ouvia nada senão nós todos a marcharmos e a gritarmos as palavras de ordem. Quando chegámos ao Ministério do Trabalho, encontrámos novamente um contigente de militares, mas não se verificou qualquer problema.

Isto chega a ser caricato porque um dos problemas que eles nos levantaram tinha a ver com o facto de só permitirem a manifestação a partir das 19 horas. Ora, como saímos do estaleiro às 17.20 e o desfile e a travessia para Lisboa demoraram muito tempo, atrasou-se tudo e quando começámos a manifestar-nos já passava das 19. Portanto, junto ao Ministério do Trabalho, fizemos uma reunião, discutimos os nossos problemas e demos a conhecer a nossa luta, tendo depois regressado à Lisnave sem qualquer problema pelo caminho.

SR

– Durante a vossa luta, verificou-se a tentativa de manipulação dos trabalhadores por parte de alguns partidos políticos?

FT

– Manipulação não direi, mas é verdade que houve muitas influências partidárias e o peso dessas influências começou a verificar-se com mais força, a partir de meados de 1976. De facto, há algum tempo que vários partidos políticos estavam enraizados na Lisnave, mas a partir de 1976 o que obteve mais força foi o PCP. Aliás, a partir do momento em que o PCP veio efectivamente a organizar-se dentro da Lisnave, deixou de haver tanta actividade e tanta representatividade dos trabalhadores. Algum desse peso começou a sentir-se em 1975, na sequência da manifestação de 7 de Maio. Os comunistas e os socialistas boicotaram um plenário e decidiram criar o chamado “Grupo dos 15” para preparar listas para as eleições para a Comissão de Trabalhadores, que até então era formada por delegados eleitos em cada um dos sectores da empresa.

A partir daí, as coisas começaram a descambar porque deixou de se representar a vontade expressa dos trabalhadores. Um exemplo prático da vontade expressa foi a luta pelas 40 horas, uma bandeira dos trabalhadores da Lisnave, na manifestação de 12 de Setembro de 1974, que só há cerca de três anos se tornou realidade. Esta bandeira ganhou a adesão de muita gente e isso foi relativamente fácil porque, em 1974, as pessoas lutavam por um ideal sem estarem ‘amarradas’ a uma organização e à disciplina partidária. A partir do momento em que muitas delas se começaram a filiar em partidos, as coisas mudaram e as vontades também, porque acabavam por falar pelo partido, indo mesmo contra aquilo que eles próprios defendiam.

SR

– Os trabalhadores viram satisfeitas as reivindicações que os levaram a promover a manifestação?

FT

– Algumas foram cumpridas, nomeadamente no que se referia às exigências relacionadas com a segurança no local de trabalho e melhores condições de vida, mas outras não se completaram como foi o caso do saneamento da rede da PIDE e da Legião Portuguesa. Criámos uma Comissão de Saneamento para acompanhar o caso, mas houve problemas pelo meio porque o acesso aos ficheiros dos reaccionários era difícil.

Sei que, pelo menos uma pessoa foi afastada, foi o caso do administrador da empresa. Quanto aos elementos da rede de informadores, é difícil dize-lo porque foram criadas muitas dificuldades, nomeadamente pelos comunistas e socialistas que, entretanto, dominaram a Comissão de Trabalhadores, e por essa razão eram eles que tinham acesso aos dossiers da PIDE e da Legião Portuguesa. E durante esse tempo, houve muita coisa que não chegou à verdadeira Comissão de Saneamento. Possivelmente essas forças ou pessoas terão tido acesso a esses ficheiros e terão utilizado os documentos como bem entenderam, nomeadamente, para intimidar os indivíduos em causa. Não há provas mas a intuição e o conhecimento dos acontecimentos da época levam-me a isso, até porque se sabe que as forças mais próximas dos governos provisórios terão tido acesso aos ficheiros mais secretos.

SR

– Como é que encara o facto desta manifestação ser considerada um marco histórico na luta operária em Portugal?

FT

– Encaro com muito orgulho e satisfação porque foi um enorme acto de coragem dos trabalhadores. Foi a primeira grande manifestação operária depois do 25 de Abril e um acto inesquecível porque envolveu uma grande unidade dos trabalhadores, uma enorme força interior e uma organização tão grande que gerou o impacto que todos conhecemos. E embora nos anos seguintes tivéssemos feito várias manifestações, algumas até com mais trabalhadores, a do dia 12 de Setembro foi um marco histórico devido à vontade e coragem dos trabalhadores em mostrar ao país o que sentiam e aquilo por que lutavam, mesmo tendo contra nós todo o poder político e centenas de militares fortemente armados. É talvez por isso que, hoje em dia, quando se fala em luta dos trabalhadores, se visualiza um operário de fato macaco e capacete. O que quer dizer que a luta da Lisnave marcou os trabalhadores do país.

SR

– 25 anos depois, tendo a empresa perdido quase todos os trabalhadores, acha que valeu a pena a luta dos operários da Lisnave?

FT

– Valeu, e muito. Por causa da manifestação de 12 de Setembro, da nossa resistência antes do 25 de Abril e de todas as lutas que desencadeámos, foram conquistados muitos dos direitos que os trabalhadores portugueses hoje usufruem. E lutávamos com tanto sentido de justiça e de futuro que a luta das 40 horas foi desencadeada por nós. A prova de que sempre tivemos razão nas nossas reivindicações foi dada através da aprovação da lei das 40 horas, há três anos atrás. O mal disto tudo é que o governos não ligam aos trabalhadores e só muitos anos depois é que aplicam as medidas preconizadas por nós. E os problemas da Lisnave, que levaram a mais de oito mil despedimentos, incluindo o meu, não se teriam verificado se tivessem aceite as nossas propostas para uma gestão integrada da empresa. Portanto, tenho muito orgulho por ter participado na luta pela democracia e pelos direitos dos trabalhadores, e acho que se tivesse de voltar a faze-lo, fazia-o sem qualquer problema de com muita satisfação.

Entrevista de Etelvina Baía
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