[ Edição Nº 88] – Comunidade timorense residente em Setúbal está satisfeita com o referendo.

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Edição Nº 8806/09/1999

Apesar dos ataques das milícias em Timor
Comunidade residente em Setúbal quer regressar

          Realizado o referendo sobre o futuro de Timor Leste, que se traduziu no primeiro acto democrático naquele território dominado há 23 anos pela Indonésia, a comunidade timorense residente em Setúbal faz um balanço positivo do acto e acredita que o caminho está aberto para o nascimento de uma nação. Isto apesar da violência que assola o território, e que tem levado à morte de centenas de timorenses pelas armas das milícias integracionistas.

Com uma participação de 98% no referendo sobre o futuro de Timor Leste, a comunidade de timorenses instalada em Setúbal diz-se satisfeita com o grau de participação e principalmente, convencida de que a independência não tem retorno. E a convicção é tão grande que nem mesmo o estado de violência em que o território vive, por força dos ataques das milícias integracionistas, os demove da aplicação dos resultados da consulta popular.

Por isso Carlos Agostinho, director do grupo etnográfico timorense Tata Mai Lau, e um dos mais destacados membros desta comunidade, acredita que Timor Leste “tem de ser livre” e que o resultado da consulta popular terá de ser aplicado com a ajuda das Nações Unidas e de Portugal.

Apesar dos receios quanto aos resultados da escalada da violência entre pró-indonésios e independentistas, Carlos Agostinho garante que a comunidade timorense de Setúbal continua firme nas suas convicções ao garantir que o referendo “ocorreu em data certa“.

E o voto dos timorenses residentes em Setúbal, efectuado na UNAMET, em Lisboa, “foi tão forte que emocionou“, disse ao

“Setúbal na Rede” a coordenadora do acto eleitoral. De acordo com Elisa Vaz, os técnicos deste grupo da ONU, responsável pela supervisão do processo eleitoral, “foram surpreendidos por um mar de gente” em filas formadas partir das seis da manhã de 30 de Agosto, quando as mesas de voto só abriam às 10.

Mas o que mais impressionou foi o facto de “ninguém ter faltado” à ‘chamada’ e a forma “ordeira e democrática como exerceram aquele direito“, acrescenta a responsável. Elisa Vaz afirma ser ainda necessário fazer justiça aos timorenses de Setúbal, que se revelaram os melhores parceiros da UNAMET no processo de recenseamento e na “divulgação dos trâmites que envolviam a consulta pública“.

A vontade dos timorenses em criar um país é tão grande que já muitos prometem regressar a casa para ajudar na construção da nação pela qual têm lutado, segundo Carlos Agostinho garantiu ao

“Setúbal na Rede”. Uma ideia que deixa satisfeitas as famílias residentes no distrito, pese embora as dificuldades que admitem vir a ter, uma vez que quase todos têm os filhos a estudar e a trabalhar na região.

Por serem considerados pela sociedade civil como pessoas responsáveis e trabalhadoras, esta ideia entristece as entidades locais que, no entanto, manifestam alguma satisfação face a esta possibilidade. É que, tendo em conta “o que está em jogo não há que fazer lamentos“, uma vez que a saída dos timorenses “significaria a vitória total da vontade de um povo”.

Quem o diz é o presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião, Humberto Daniel, a área onde reside a maior comunidade portuguesa de refugiados de Timor Leste. O autarca de freguesia, que confessa acompanhar este processo “com muita emoção e receio“, garante que aceitará com “muita satisfação” o regresso dos timorenses a casa, já que esse acto significará a vitória da democracia e o efectivo nascimento de um novo país.

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