[ Edição Nº 91] – É COMO DIZ O OUTRO por Fernando Cameira.

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O paraíso são as minhocas?

          O mistério do fascínio pelo mistério.

Racionalmente gostando do mistério e vendo-o também em tudo o que se apresenta sem mistério. Como pode algo ser claro? Tudo encerra um enigma, quanto mais não seja… o do seu porquê. Mas também o da sua criação, já que, em última instância tudo o que existe provém de um mágico Big-Bang. Até um ferro de engomar. Mas o ferro de engomar e tudo o que o homem criou coloca ainda um outro enigma: como é que o animal humano se pôs a modificar e a combinar as coisas que o rodeavam? Donde lhe surgiu essa necessidade se nenhum outro animal o fez e até poderia ter feito? Se há macacos que usam paus como instrumentos, porque não chegam ao ponto de os modificar? De os sofisticar? De os combinar? Porque só o homem modifica, combina, transforma?

Um triângulo, um quadrado… as figuras geométricas e suas leis, são símbolos de uma ordem. De uma possível ordem universal. De uma possível harmonia, de uma potencial organização. Mas não poderiam ter sido concebidos (descobertos?) dentro de água nem dentro das chamas nem no ar. Tal como a escrita. O Homem surgiu no meio onde poderia conceber a geometria sagrada? Onde poderia criar signos em geral, onde poderia desenvolver uma comunicação sofisticada e extra-natureza? Se o Homem fosse um ser marinho… estaria ainda no nível intelectual e de realização material dos golfinhos? É só porque vivem debaixo de água que os golfinhos não evoluíram até ao nível do homem? As qualidades que nos distinguem – uma elevada consciência, o humor, os sentimentos, a moral, a necessidade de arte, o sentido do dever, a capacidade de questionar, o pensamento abstracto, a fala, a escrita, o sentimento do divino, o combate ao instinto… – sendo tantas e tão especiais, como podem depender de um acidente ou de uma pequena diferença biológica ou ambiental ou outra? Que mistério, em tantos milhões de espécies, só nele se terem estas manifestado! Admitir que é apenas um acidente não é admitir que somos um erro? Então é o erro que, paradoxalmente, acaba por originar o ser mais poderoso e elevado? E se não é um erro mas tão somente uma diferença, não parece então que somos um ser especial, diferente de todos os outros? Se a natureza é um todo interagindo e auto equilibrando-se… não é estranho gerar no seu seio algo que parece totalmente diferente de tudo o mais e dela mesma?

Bem sei. O que o homem está a fazer com o planeta, pondo toda a natureza em perigo… pode ser a prova de que somos um erro e que a nossa superioridade é apenas um resultado passageiro que o tempo se encarregará de corrigir, para bem do sistema total. O homem será vitima da sua superioridade, desaparecerá e o equilíbrio será reposto. Concluímos então que a capacidade de conhecer, de transformar, de filosofar, de se elevar acima do estado animal, em suma, não só é um erro como também é um erro indesejável.

Sim, parece então que a Bíblia contém a maior das verdades científicas. Que a árvore da ciência e do conhecimento do bem e do mal é realmente de evitar. A vida só é possível, nessa perspectiva, se não passarmos de animais, comendo o que o Éden nos dá, dormindo e reproduzindo-nos. E venerando a Deus, que é como quem diz, respeitando a Natureza, que é como quem diz ainda, não querendo o sapateiro tocar rabecão.

Será que caí num dilema? Ou alinho pelo materialismo e concluo que sou uma aberração… ou alinho pelo misticismo para poder ter orgulho em mim como Homem.

Que raio! Onde é que o meu raciocínio está viciado?

Alguém me diz?

Mas alguém me diz, a sério?

Se o director não se importasse gostaria de saber o que pensa o leitor.

Somos um erro indesejável? Mas como é possível toda a natureza ser tão perfeita e ter gerado um tal erro que, ainda por cima, parece que acabará com a sua progenitora? Que raio de sistema tão falível é esta perfeita natureza?

Somos um acidente feliz? Mas como é possível que a mais fantástica das criaturas, a mais diferente de todas, a única capaz de conhecer a própria progenitora, resulte de um acidente? Não será acaso a mais?

Não somos erro nem acidente mas apenas uma diferença que evoluiu? Mas sendo todos os animais tão diferentes entre si, existindo todo o tipo de configurações biológicas, físicas e ambientais, existindo todo o tipo de comportamentos, porque nenhum outro animal parece evoluir mais do que acrescentar novos dados à sua memória de espécie, sem que seja capaz de desenvolver novas características, como o Homem?

Digam-me, em que é que o meu raciocínio está errado quando me sinto perigosamente tentado a ver um sentido oculto nesta historia toda?

É como diz o outro: eu não acredito em minhocas, mas que as há….há.