[ Edição Nº 92] – É COMO DIZ O OUTRO por Fernando Cameira.

0

          Deixem-me hoje, possíveis leitores, esquecer-me de vós. Não escreverei para que me entendam, não escreverei para que concordem comigo, não escreverei para que reflictam comigo.

Deixem-me hoje, ideais leitores, escrever para mim.

Para ser verdadeiro… acho que raramente o faço. Ou nunca? Imagino sempre que alguém lerá. Mesmo que saiba que a seguir vou rasgar ou apagar. Se assim não fosse nem corrigiria os erros. Agora mesmo, que comecei por dizer que não iria escrever para vós… Não estais já aqui comigo?

Percebeis que é difícil não vos ver aí sentados na plateia? Que é quase impossível esquecer-me do que podereis comentar?

Por isso escrever para mim é como despir-me sabendo que posso ser visto.

Mas hoje dispo-me. Ofereço-vos um “strip” de palavras que me vestem a alma. Apaguem a luz geral. Acendam a luz de palco.

Surge um cavalo vermelho. Fantasticamente diabólico, com aqueles olhos grandes. Os cascos escorregam no soalho, fazem um barulho tremendo e parece que ele não vai conseguir equilibrar-se mas logo sai, tão agitado como entrou.

Que cavalo era este? O desejo. Acho que era o desejo em forma de cavalo. Isto digo eu porque em tudo vejo símbolos. Mas não. Era apenas um cavalo vermelho. Se fosse o desejo seria o desejo da carne. Por isso era vermelho. Por isso era fogoso, agitado, nervoso.

E por isso logo saiu ao defrontar-se com os olhares da plateia. O desejo não gosta de se expor assim. O público não gosta de ver um cavalo vermelho actuar. Os cavalos brancos são os que toda a gente gosta. Na pradaria há muitos cavalos brancos. Pastam em manada, serenos. São belos, transmitem calma e ordem. São cavalos bons para espectáculos. Parecem castos.

Mas cedo se torna monótono ver só cavalos brancos. Demasiada pureza. Demasiada falta de colorido na pradaria verde e branca. Sim, todas as pessoas gostam de ver um ou outro de cavalo de cor no meio da manada. Um castanho, por exemplo. Ainda suave mas quebra a monotonia. Ambíguo, o cavalo castanho. Aliás, o cavalo castanho é mesmo o mais comum. O mais banal, portanto. Nem belo nem feio. Bonito. Nem puro nem pecaminoso.

Um preto é o ideal. O cavalo preto inspira um respeito temeroso, uma admiração invejosa. O cavalo preto é sempre o mais veloz, o mais livre, o mais selvagem e indomável. Por isso há poucos. E as pessoas não se aproximam. Gostam de o ver á distancia. Invejam-lhe o orgulho mas fingem preferir os brancos. Porque aproximar-se demasiado de um cavalo preto pode significar uma alteração radical da sanidade mental da pessoa. Pode levar à loucura. Não se sabe porquê.

Cavalos vermelhos é que não existem. Estão todos escondidos. Dizem que há quase tantos como pessoas. Mas estão escondidos. Este que surgiu no palco foi um caso raro. Eu até sei a explicação. Foi a materialização do desejo de um artista. Ele pintou o seu cavalo branco com a cor dos lábios da sua amada. Foi uma homenagem ao desejo por ela. O artista deveria montar o cavalo e fazer uma série de habilidades no palco. Mas nessa noite a loucura do desejo pela amada levou-o a ultrapassar os limites. Decidiu fazer poesia em palco. Quis mostrar à mulher amada como eram os seus lábios.

Ela não percebeu. Ela só viu que ele enlouqueceu e estragou o espectáculo. Que teria que ser retirado para tratamento hospitalar. Teria que curar-se urgentemente e voltar à normalidade.

Ela nem viu que eram os seus lábios que o amante expunha perante todos. Como podia ela saber se ele não lhe explicou?

Ficou nervosa com toda aquela confusão do cavalo e da ambulância para levar o palhaço para as Urgências. Procurou controlar-se e colocou o sorriso nos tais lábios que o cavalo antes tinha mostrado, sem que ninguém soubesse.

A música arrancou, estridente, e o seu corpo veio ocupar o mesmo palco. Onde os cascos pisaram antes ela colocou os sapatos de salto alto, os pés afastados.

Os aplausos e assobios soaram e já o corpo da mulher iniciava os movimentos dengosos, provocadores, programadamente reveladores de desejo. Ela mostrava que tinha desejo por aqueles homens. Eles fingiam acreditar. Ela fingia acreditar que eles acreditavam. Quando o soutien rodou nos seus dedos hábeis deu-se o estranho fenómeno. Talvez pela lembrança da cena anterior, talvez pelo cheiro que ainda permanecia no palco. Ela começou a ver uma plateia cheia de cavalos castanhos.

Não conheço esta mulher, pessoalmente. Apenas a conheci nesta história. Mas conheço muitos dos cavalos castanhos da assistência. Na verdade, só às vezes são pessoas, ao contrário do que a amada striper terá pensado. Sem saber, ela estava actuando para uma manada de cavalos castanhos que, por artes de uma alquimia degenerada, por vezes assumem a forma de homens. Formam uma confraria sem nome, sem sócios, sem regras. Mas reconhecem-se entre si pelos fantásticos dentes e riso ostensivo, pela invariável cor castanha dos seus fatos.

O palhaço, este palhaço particular, que há muitos anos conheço, é um personagem condenado a lançar cavalos vermelhos e a ser despedido de seguida.

Muitas vezes o aconselhei a moderar-se, a pensar na sua vida antes de fazer tais loucuras. Sugeri-lhe até que imaginasse outras formas de mostrar a sua paixão que não comprometessem assim a sua segurança, a sua estabilidade. Mas não. Para ele os lábios que deseja são cavalos vermelhos e ele teima em montar a cavalo no desejo.

É como diz o outro: a lábios queridos não se olha o cavalo.