[ Edição Nº 92] – Assalto à sede do Partido Liberal.

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Edição Nº 9204/10/1999
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MEMÓRIAS DA REVOLUÇÃO
25 anos depois

(Assalto à sede do Partido Liberal)

Assalto ao Partido Liberal, em Setúbal

O poder caiu nas mãos da ‘cidade vermelha’

          No dia 29 de Setembro de 1974, diversos grupos de cidadãos assaltaram a sede do Partido Liberal, onde também funcionava o Partido do Progresso, por terem notícia destes serem a génese do ELP, o movimento que preparava o anunciado golpe militar de direita, em Lisboa. Vítor Martins foi um dos protagonistas deste processo e diz que no local foi encontrado armamento e documentos comprometedores. 25 anos depois, recorda a onda de revolta contra os militantes dos partidos chamados neofascistas, o levantamento da população e as milícias populares que durante cerca de um ano detiveram o poder.


Setúbal na Rede
– Onde é que estava no dia 29 de Setembro de 1974?

Vítor Martins

– Estava na chamada brigada móvel de apoio às barricadas que se tinham formado em Setúbal, no dia anterior, para evitar o anunciado golpe de Estado preparado pelas forças de direita. Eu era membro do GAPS, Grupo Autónomo do Partido Socialista, que também promoveu as barricadas. E como o PS era contra, muitos de nós fomos expulsos do partido. Por isso e também porque a maioria dos delegados do GAPS de Setúbal ao segundo congresso do PS, apoiavam Manuel Serra para o cargo de secretário geral do partido. No dia 29, quando andávamos de carro a prestar auxílio às barricadas entre Setúbal e Alcácer, o pessoal começou a encontrar armas dentro dos veículos que mandava parar. E mais, junto com essas armas foram encontrados muitos comunicados do Partido Liberal e do Partido do Progresso, que dias antes tinham sido distribuídos em Setúbal, apelando à maioria silenciosa. Ou seja, essa gente ia mesmo para Lisboa com o objectivo de tentar promover o golpe de Estado. A notícia espalhou-se pela cidade e eles foram logo identificados como a génese do ELP, que viria a formar-se no início de 1975, pelas mãos de gente como António de Spínola e Alpoím Galvão. E foi aí que a população decidiu assaltar a sede do Partido Liberal. Embora não tenha participado directamente na acção, permaneci no local e assisti aos acontecimentos daquele dia.

SR

– Que partidos eram esses?

VM

– O Partido Liberal e o Partido do Progresso, tal como o Partido Nacionalista, que não tinha sede em Setúbal, eram partidos neofascistas que tentavam matar a revolução. E isso foi tão verdade que, a dois de Outubro, poucos dias depois de desfeitas as barricadas e evitado o golpe de Estado, o MFA ilegalizou estes partidos. Como não tinha sede própria, o Partido do Progresso operava numa sala cedida pelo Partido Liberal e estes dois tinham ligações fortes com o então PPD e também com alguns nomes do próprio Partido Socialista e com a AOC, Aliança Operária Camponesa, um grupo que se intitulava maoísta e que dizia preferir o fascismo ao social fascismo. E o mais curioso é que alguns dos dirigentes dos partidos neofascistas desempenham hoje cargos importantes na vida política e social de Setúbal. Um deles, a quem perdemos o rasto ao longo dos anos, andava pelo Círculo Cultural como informador da PIDE, outros são dirigentes de associações culturais e cívicas que hoje mandam na cidade e outros ainda, continuam a dirigir as suas herdades no Alentejo e em Alcácer como se nada tivesse acontecido.

SR

– Como é que ocorreu a ocupação da sede do Partido Liberal?

VM

– Assim que se descobriu as armas nos carros detidos nas barricadas, começámos a desconfiar que a sede do Partido Liberal era um depósito de armamento militar roubado. Por isso, a decisão tomada por um conjunto de pessoas ligadas ao GAPS e outras ligadas a um grupo anarquista denominado FAF, Frente Anti-Fascista, foi secundada por toda a população que acorreu à baixa para ajudar no arrombamento das portas. Portanto, o ambiente era de tanta raiva que toda a gente quis participar na acção. Durante o assalto à sede do partido, foram descobertas muitas armas militares, desde metralhadoras a pistolas, passando por granadas, que foram entregues aos militares do SOI, Serviço Operacional de Intervenção, uma espécie de elo de ligação com o COPCON, que apareceram lá durante a acção. E durante o assalto, encontrámos muitos documentos com nomes dos militantes e apoiantes desses partidos. Com alguns nomes não ficámos surpreendidos, porque já sabíamos disso, mas outros deixaram-nos estupefactos porque não esperávamos isso. Eram muitos directores de escolas de Setúbal, algumas pessoas da cultura, bem como industriais e comerciantes.

SR

– É verdade que alguns dos ocupantes ficaram com armas encontradas na sede do Partido Liberal?

VM

– Que eu tenha conhecimento, não. As armas foram entregues ao SOI que as enviou para Lisboa com o objectivo de identificar os números porque muitas delas tinha sido roubadas em instalações militares. Não me espanto que algumas tenham sido extraviadas, mas não tenho indicações disso. Já quanto aos documentos foi diferente porque as pessoas ficaram com toda a documentação. O conteúdo da lista deixou-nos tão escandalizados que decidimos fazer cópias e distribuí-las pela cidade. O resultado foi um autêntico levantamento, com as pessoas a descerem sobre a baixa da cidade, partindo as montras e a ocupando as casas de muitos dos proprietários cujos nomes constavam da lista do Partido Liberal, que era o que tinha mais expressão por aqui. Na sequência do conhecimento dessa lista, que muitos de nós ainda temos, e que se fosse divulgada dava cabo da vida a muitos dos que lá têm no nome porque agora são pessoas de peso na região, que a Comissão de Moradores de Santa Maria fez aprovar uma proposta para mandar encerrar as boites de Setúbal, cujos proprietários estavam ligados ao Partido Liberal e onde, muitas vezes, os neofascistas tinham reuniões. E foram todas encerradas nos dias seguintes, com algumas acções violentas que resultaram em espancamentos de parte a parte. Os proprietários resistiram e uma das acções de encerramento resultou em ferimentos graves num militantes de esquerda, ao passo que numa outra um dos ocupantes precipitou-se e lançou uma granada contra a porta da boite, destruindo-a por completo. E esses indivíduos, que contaram com a colaboração de alguns elementos da polícia para rechaçar as tentativas de encerramento das boites, foram os responsáveis pelos acontecimentos de 7 de Março de 1975, onde foi morto o militante de esquerda, José Manuel Lopes.

SR

– Qual foi o papel da Comissão Administrativa da Câmara e do próprio Governador Civil em todo este processo?

M

– A Câmara demarcava-se de tudo até porque o Partido Comunista nunca concordou com estas acções. Mas como, na altura, não tinha muita expressão em Setúbal ficou-se por aqui. O PCP só veio a ter grande protagonismo na região a partir do 25 de Novembro porque, até então, a grande força estava em partidos de extrema esquerda como a LUAR, o LCI, o PRP, o MSP, o GAPS, a FEC-ML e o MRPP. Quanto ao Governador Civil, Fuzeta da Ponte, era apenas o elo de ligação de Setúbal com os militares, e não se verificou qualquer entrave ou acção negativa da sua parte, uma vez que ele tentava gerir as situações conforme ocorriam e resolver os problemas pela via do diálogo.

SR

– O que é que mudou em Setúbal depois de 29 de Novembro?

VM

– O poder veio para as ruas, com a formação de milícias populares, e os grupos radicais de direita começaram a recuar. Começa-se então a assistir à debandada de construtores civis, industriais e empresários. As milícias populares patrulharam Setúbal durante mais de um ano e posso dizer que, durante esse período não se registou um único assalto ou acto criminoso no concelho. É que para os ladrões era mais difícil ligar com as milícias populares do que com a polícia. Isto à excepção de um conjunto de assaltos feitos à sede do então PPD, feito por meia dúzia de pessoas revoltadas por terem identificado este partido com o movimento neofascista. Isto sob as barbas da polícia, que não fazia nada para evitar os assaltos. Portanto, foi graças à acção das milícias populares, que contavam ainda com a ajuda de alguns militares do Regimento de Infantaria 11, que Setúbal passou a ser conhecida como a cidade vermelha. E foi aí também que Setúbal se revelou a primeira cidade do país a defender a FRETILIN. Nos finais de 1974, por altura dos primeiros conflitos entre os diversos partidos nascidos em Timor-Leste, a FRETILIN a APODETI e a UDT, Setúbal teve a coragem de içar na Praça de Bocage, uma bandeira da FRETILIN. Depois, quando ocorreu a ocupação do território pela Indonésia, a bandeira da FRETILIN continuou lá e a população queimou as bandeiras da APODETI e da UDT, que na altura apoiavam a indonésia.

SR

– Quando é que terminou este período de poder popular, em Setúbal?

VM

– O poder popular prolongou-se até Dezembro de 1975 e acabou precisamente com a ocupação de Setúbal pelos militares do Regimento de Cavalaria de Estremoz, a mando de Ramalho Eanes. Nessa altura já se tinha procedido à formação das comissões de trabalhadores, das comissões de moradores e às ocupação de casas, que resultaram no realojamento de centenas de famílias que viviam na miséria. E tudo sem grandes problemas nem conflitos.

SR

– 25 anos depois, valeu a pena a intervenção que teve nestes acontecimentos?

VM

– Valer a pena sempre valeu, porque hoje olho para a minha terra e vejo que, felizmente, não tem nada a ver com a miséria que era antes do 25 de Abril. Vale sempre a pena mudar para melhor, mas por outro lado não deixo de sentir que é monstruoso ter à frente da cidade muita gente que pertenceu aos partidos neofascistas. É triste ver gente desta na Liga dos Amigos de Hospital, na Associação de Professores, na Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão e entre a actual classe médica e empresarial. Isto para não falar dos que andam pelas suas herdades em Alcácer, depois de terem lançado bombas e incendiado escolas.

SR

– Então não se revê no actual modelo de sociedade?

VM

– Definitivamente, não porque não era isto que muitos de nós tinham sonhado durante a revolução de Abril. Mas a culpa também é nossa, uma vez que muitos de nós pararam no tempo e decidiram não evoluir, outros mudaram de opinião e não se importam com nada, e outros ainda não tiveram o discernimento para ensinar aos nossos filhos o que foi verdadeiramente, o processo revolucionário em Setúbal. Por isso, não admira que as pessoas não se importem e quase que desconheçam o que se passou. Talvez por isso, a nova geração dê pouca importância aos valores da liberdade conquistados por nós, e que têm como dado adquirido desde o dia em que nasceram. O resultado é que hoje em dia, o processo revolucionário anda a ser mistificado por aqui e por ali, ao mesmo tempo que se tem vindo a tentar branquear a extrema-direita e as acções dos partidos neofascistas seguidores de Salazar.

Entrevista de Etelvina Baía
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